Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postEu, ladrão…

Gazza

Esse beijo roubado
Como o crime do padre Amaro
Furtado, surrupiado
Quase sequestrado
E aquela angústia de ser resgatado
Criminoso mesmo
Reincidente, reincidido
Esse beijo explodido
Como uma ação do terror
Desse seu bandido amor

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07.08.09 em: Sexta

postSangue de gatas

Raquel C. de Medeiros

Crime-blog
 

 

 

 

 

Antes de abrir a portinhola da casa amarela teve uma sensação estranha. Entardecia e a fachada parecia mais desbotada. Entrou com um pouco de medo e saiu correndo ao ver o reflexo da gata Brigitte no espelho da sala: havia gotas de sangue em seu pêlo malhado. E agora, meu Anjo, e agora?, perguntou a moça, desorientada. Queria correr para o colo da mãe, mas sua família morava longe, no interior, a pelo menos uns quatrocentos quilômetros dali. Sentiu-se desamparada: lá, pensou, poderia recorrer a algum vizinho que lhe daria um copo de água com açúcar, mas ali não havia gente familiar nem a crença nos calmantes naturais. Seu coração disparou com tanta violência que achou que fosse morrer, mas ficou ainda mais nervosa ao pensar que poderia morrer sozinha, Santo Anjo do Senhor, e agora?. Alice caminhou até a praça e cruzou com um policial invisível que a interrogou:
 
- Vocês eram amigas?
 

 - Sim, ou melhor, não… Mais ou menos, seu guarda.

- Há quanto tempo vocês moravam juntas?

-Há um mês, desde que vi o anúncio no jornal. Pareceu-me um pouco desmiolada, mas tão bonita. Tinha uma personalidade irresistível. E me ofereceu um quarto com armário, cama de solteiro e uma linda penteadeira.

- O que ela fazia?

- Lili era engenheira cartográfica, inteligentíssima.

- Tinha namorado?

- Sim, chamava-se Antenor e chegava de São Paulo nos finais de semana com flores, bombons e um ciúme doentio.

- Ela parecia ter algum segredo?

- Era muito misteriosa, seu guarda. Seu olhar guardava baús trancafiados.

- Observou alguma atitude estranha nos últimos dias?

- Lili tinha uma amiga que vinha durante a semana e sempre me oferecia balas de caramelo. As duas trancavam-se no quarto e eu só as via novamente no café da manhã. Outro dia tiveram uma discussão feia, seu guarda. Houve um quebra-quebra no quarto e acho que ouvi a outra falar em morte aos berros. Quis sair do meu quarto para salvar Lili mas não tive coragem… Só ouvia o barulho dos objetos batendo no chão: rezei e chorei muito naquela noite. Prometi que sairia daquela casa no dia seguinte, mas Lili, que estava toda marcada, me convenceu a ficar. Ela precisava viajar por uns dias e eu teria que tomar conta da casa. Disse, olhando nos meus olhos e segurando as minhas mãos, que eu precisava ajudá-la. “Não deixe Brigitte sozinha”, ela me pediu.

- Lili foi pra onde?

- Não sei, seu guarda, só sei que estou com muito medo, nem consigo mais dormir e fico ouvindo a voz da minha mãe a repetir que eu tomasse muito cuidado com as pessoas, deveria buscar referências. Mas me encantei tanto com Lili, seu guarda, tão interessante, segura, pensei que eu poderia ficar igual a ela, sabe? Mudei-me na semana seguinte. Hoje quando abri a porta de casa senti cheiro de morte. Foi por isso que o senhor me parou, seu guarda?

 Um tumulto próximo levou o policial invisível e as respostas de Alice. Agora ela se perguntava se havia sido enganada por aquele espelho antigo e embaçado da casa de Lili. E agora, meu Anjo, e agora? Já anoitecia, mas ainda era tempo de descobrir. Ainda era tempo de quebrá-lo e desafiar seu silencioso destino. Era o que pensava quando deu o primeiro passo de volta a casa amarela. Agora nem o medo a interceptaria.

 

 

 

 

 

 

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06.08.09 em: Quinta

postDelinquentes

Aline Leal

São as donas do clube. Têm certeza disso. Ronaldo, o pai da Diana, foi presidente quando ela era mais nova e o seu sobrenome está gravado em uma placa de bronze na entrada: Pinto Brasil. E Joyce é a sua melhor amiga. Além disso, no começo do ano lideraram uma revolta contra o novo presidente que decretara o fim do tradicional baile de carnaval. Espalharam panfletos entre os sócios: “Se não houver carnaval, o Murilo vai se dar mal!” O paspalho achou que podia contra elas. Não só teve baile no salão durante os quatro dias como chegaram a contratar uma banda de axé como elas haviam pedido. Exigido.

 Não se faziam de rogadas e andavam por aí como se fossem as donas do pedaço. Quando o banheiro das meninas estava interditado porque a moça estava fazendo a limpeza, berraram duas vezes na porta do masculino “Estamos entrando, estamos entrando!” Não sei se o Jorge não deu muito crédito para elas, mas não vestiu a roupa e elas o viram peladão, porque saía da sauna.  E deram de cara com aquela coisa pequena e asquerosa! Ele foi fazer uma reclamação direta para Ronaldo, que a repassou para o pai de Joyce. Elas argumentaram que o banheiro feminino estava fechado e que estavam apertadas. Ainda por cima, haviam berrado que estavam entrando, pombas. Não receberam nenhum castigo, mas uma advertência.

 Tudo por conta daquela mulherzinha da limpeza. Aliás, daquelas duas. Gêmeas nojentas. Tinham cara de velha e cabelo crespo comprido pintado de loiro. Ainda por cima, usavam aquele uniforme patético do clube. Pareciam bruxas disfarçadas de serventes, mereciam mesmo estar limpando privadas, eram caquéticas e não tinham o menor glamour. De vez em quando se via uma das duas fumando um cigarro, gêmeas podres, soltando fumaça, poluindo o ambiente. E que se saiba: a invasão ao banheiro masculino não foi porque estavam apertadas, não. Tinham feito pipi num copinho de plástico e jogado dentro da máquina onde as gêmeas lavavam a roupa do time de futebol do clube. Que peça bem pregada!

 Quem teria coragem de se meter com elas? Pois arrumaram briga com o pessoal da secretaria. Elas tinham pedido papéis de ofício e canetinhas para desenhar, queriam fazer um concurso de desenho. Os funcionários se recusaram dizendo que da última vez elas não haviam devolvido o material. Ai, ai, ai, tinham carteirinha, seus pais eram sócios fundadores e pagavam a mensalidade em dia, o sobrenome da Diana está estampado na entrada do clube, eram cegos?! Mesquinhos. É claro que teria troco, e não tardaria. Arrumaram um jeito de roubar a chave da porta de trás da secretaria e, quando o expediente terminou, às cinco da tarde, entraram sorrateiramente e roubaram o material de escritório: papel, canetinha, liquid paper, cartolina, cola, elástico, grampeador. Alguém pensou que elas iam deixar barato? No dia seguinte, quando se deram conta do furto, não tinham outros suspeitos senão as duas meninas, mas elas não haviam cometido nenhum deslize, como acusá-las? Fora o crime perfeito.    

 O estopim da bomba fora quando Diana e Joyce se reuniram para botar fogo na árvore de Natal, após terem roubado o querosene da mercearia. Tinham decidido montar um show pirotécnico pra ninguém botar defeito. A questão é que dessa vez foram denunciadas pelo cara do bar, de quem haviam comprado a caixinha de fósforos, dizendo que era para botar fogo em formigueiro, antes mesmo de riscá-lo. Traidor, em pensar que gastavam a mesada comprando a sua coxinha. A diretoria e um número razoável de sócios já estavam por aqui com essas duas e resolveram fazer um abaixo-assinado para que fossem expulsas do clube, ao menos suspensas por um ou dois meses.

 Diante disso, os pais de Diana e Joyce se reuniram para decidir o que iam fazer a respeito desta questão que não podiam negligenciar. Realmente as meninas vinham passando dos limites há algum tempo, mas qual seria a atitude certa a ser tomada para o bem delas? Sentaram-se em volta da mesa e analisaram as assinaturas do abaixo-assinado. Então, decidiram que cortariam relações com os insolentes que haviam se atrevido a se lançar contra suas meninas.

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05.08.09 em: Quarta

postJanaína

Tiana Maciel Ellwanger

Com ela

Janaína me fazia enlouquecer, em todos os sentidos. No início, nossa vida era regada a prazeres, viagens e festas. Algumas brigas e ofensas, resolvidas com noites de amor intensas que me faziam sentir inveja de sua pouca idade.

Com o passar dos anos, as reclamações em forma de voz aguda começaram a me incomodar. Sua necessidade de falar o tempo todo, o cabelo desgrenhado ao acordar, o tom da gargalhada que subia conforme aumentava o número da dose de uísque. Ela justificava tudo: solidão com o meu desprezo.

Dizia que eu era grosseiro, mas seus olhares desejantes em direção a outros homens me tiravam do sério. Sabia que eu já não era tão atraente a seus olhos, minhas histórias e opiniões embasadas repetiam-se com a convivência; a curiosidade dela pela vida pedia mais.

Sem admitir, adorava quando dançava pra mim, sorrindo, implorando declarações de amor. Queria ter um filho, eu não mais. Chorava e, por algum motivo, deixá-la aos prantos me dava prazer. Quando ela soube de Maria, que engravidou num de nossos encontros após o almoço, parecia que ia morrer em gritos sem vigor, quase meigos, buscando explicações. Continuamos a viver sob o mesmo teto. Meses de humilhação. 

Ela estava plena naquela noite, seu sono transbordava tranquilidade. Mas ao me ver, seu semblante transformou-se na expressão de terror mais linda que já vi.

Sem ela

O silêncio ocupava a maior parte do meu dia. A rotina sem êxtase, sem vozes (a não ser as dos cantores de tango) e sem discussões era quase tediosa. As músicas que fizeram Janaína arregalar os olhos quando as apresentei eram agora, enfadonhas.

No lado da cama onde ela dormia, eu deixava livros espalhados, papéis rabiscados com frases sem sentido. Eles ocupavam o espaço dela, sem preenchê-lo. Seu cheiro já tinha saído da cama; nem o aroma de sangue que trazia seu sorriso à minha mente eu conseguia mais sentir.

As notícias no jornal falando de impunidade, influências e falta de Justiça para os que têm poder não mais me atingiam. Eu não oferecia risco a ninguém que estivesse vivo e nunca acreditei em punição gratuita. Meu advogado estava convencido de que a tese de legítima defesa tinha conquistado o juiz, que como eu, devia saber a dor de ser traído. Quanto a mim, já não temia a vida numa cela.

Maria não queria mais me ver e, com isso, também não vi mais Fabiana, minha filha, que deve estar com uns três anos agora. Eu não ligava. Parei de atender o telefone e, nos últimos meses, meus contatos com pessoas restringiam-se aos entregadores de comida e remédios.

Quando fecho os olhos, os últimos segundos que estive com Janaína vem à mente, sempre antes de dormir. Se ela não estivesse tão linda, serena, talvez fosse diferente. Mas vê-la deitada ao lado daquele moleque, que ela trazia à nossa casa para relembrar os tempos da faculdade, foi devastador. Acertei os dois, na cabeça, com a força que eu já não imaginava ter. O abajur, ou arma do crime se você preferir chamá-lo assim, fica aceso durante minhas tentativas de dormir em paz, como Janaína estava naquela noite, em que morri com ela.

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04.08.09 em: Terça

postCrime Arquivado

Luciene Braga

Um certo Dostoiévski lhe dera munição para ir em frente. Não tinha opção. Ela entrou em sua vida e saiu na hora e no dia errados.Telefonou e marcou o encontro.
De lá, seguiriam para a casa de Correias, a uma hora dali somente.
No meio do caminho, teria tempo para falar tudo. Esparadrapo. Ela viajaria com um esparadrapo fechando milagrosamente a boca. Dessa vez, aproveitaria cada minuto para fazê-la ouvir o que nunca conseguiu dizer. Por medo, pena ou constrangimento. Levou um cd de música clássica. Ela, quieta, ao som de Adagietto, e ele falaria sobre tudo: as manias, o horror dos jantares que acabavam tão tarde que lhe roubavam o tesão. Sua quantidade insuportável de roupas, os filmes desnecessários, as estréias de teatro com gente que interpretava vanguarda, seus dois filhos que nunca nasceram e, por fim, seus amantes desclassificados. Robustos, morenos e com sorriso de James Bond de Maricá. E das amantes que foi obrigado a ter, igualmente perfumadas com exagero e tintas, muitas tintas, no corpo e no cabelo. Tinha muitas coisas a contar: que mandara roubar um dos carros dela, só porque o cheiro do amante ainda estava impregnado. Naquela noite, o cheiro que ficou nela desapareceria por completo, prometeu.

Chegou ao encontro e olhou-a rápida e disfarçadamente com desejo mórbido. Entendeu crimes e psicopatas. O ódio era absorvente e ácido. Convidou-a educadamente a entrar no carro e abriu a porta, e ainda fez uma brincadeira com os sapatos, comprados em uma das viagens a São Paulo. Ela sorriu, linda, e inclinou-se, maliciosa. O celular tocou, mas ela ignorou.
Também fingiu estar calma.
Não levou a vingança a cabo. Acertaram alguns detalhes financeiros e com quem ficariam os cachorros. Ela ganhou os bichos e algumas facilidades para pagar contas. Civilizadamente, ele pediu um táxi para ela. Crime arquivado, sem hesitação.

Guardou em casa a arma, limpou-a muitas vezes, e chorava sempre, copiosamente, arrependido. Quando sua nova namorada se aproximava, curiosa com o que ele fazia por horas no closet, ele guardava tudo apressadamente e tratava de apagar os sinais da maior obsessão, repetir o seu discurso suspenso, alimentado diariamente ao som da música que não a fez ouvir. Nem para a foto dela conseguia apontar. Um dia, quem sabe.

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03.08.09 em: Segunda