Gazza
Ah, essa mocidade
Pulsa minha felicidade
Sem complexidade
A partir da tenra idade
Me vejo a caminhar por essa cidade
Com toda a liberdade
Como se fosse a puberdade
Mas eis que chega o tempo
Sem piedade
Ah, essa cruel idade…
03.04.09 em: Sexta
Raquel C. de Medeiros
A decepção veio de onde mais se espera amor. E veio de forma indireta, despetalando o prumo da menina-flor. Ainda existia ingenuidade em Rosa, não acreditava que poderia ser de propósito, mas sentia algo errado, um sentimento negativo, que a jogaria na cama mais tarde, que lhe despertaria lágrimas amargas. Escuridão.
- Essa menina é especial. Tão bonita, tão inteligente…, não é Pedro? , perguntou a sogra ao seu namorado, referindo-se não a Rosa, mas a nova amiguinha de Pedro.
Rica, apenas rica, quis acrescentar a menina, mas abafou o comentário. Ficou vermelha.
- Olha o vestido dela, Rosa, que gracioso! Você também deveria usar mais vestidos, continuou a sogra, comparando-as. E esboçou um sorriso doce para a nora, que engolia a provocação velada como se aquilo fosse um defeito seu.
Pediu, mudamente, socorro ao namorado e não foi atendida. No nervosismo, esbarrou no vaso de flores artificiais da casa da sogra, que se espatifou no chão. A sogra dessa vez não olhou-a. Tirou Pedro e sua amiga da sala para afastá-los dos cacos, que Rosa tentava catar. Aquela lembrança causava repulsa na menina-flor.
- Mãe, eu preciso de um vestido novo, disse mais tarde, quando chegou em casa.
- Estamos muito apertados, Rosa.
- O meu único vestido também, disse, raivosa. Pensou em contar para a mãe o comentário da sogra, mas não teve coragem de sentir novamente a pontada da humilhação.
Trancou-se no quarto, passou dias debaixo da cama. Saiu de lá toda vestida de preto, traje que adotaria nos próximos anos, decidiu, deixando o trouxa do namorado virar historinha de cacos no chão. Sem pétalas ou perfume, agora seria uma cínica que vomitava seu nome de flor.
02.04.09 em: Quinta
Aline Leal
O céu estava escuro, mas ainda não dera meio-dia. Fazia frio e o ar estava úmido; sabia-se que ia chover e muitos saíam de casa com o guarda-chuva. Assim fazia José, aprendera a levar a vida tomando as mínimas precauções e, hoje em dia, octogenário, não estava aberto a surpresas desse tipo.
Fechara o portão branco, passara a chave, o cadeado e, do outro lado da rua, Orlando pediu, com a mão, para que esperasse por ele. Ainda não chovia, mas puseram-se debaixo de uma árvore, embora, se as gotas caíssem, as esparsas folhas nos galhos não seriam proteção suficiente.
Há trinta anos trabalhando na empresa da frente do portão branco, Orlando tinha como vizinho Seu Zé, sua senhora e Érika, a poodle que estressava o trabalho com sua gritaria. Do velho, daquela tranqüilidade dos conhecedores das coisas do mundo e do homem, tinha boa impressão e trocava palavras esporádicas. Da sua senhora, daquela personalidade genuinamente intolerante e bronca, guardava certo rancor pelas vezes que ela chamara o reboque para tirar o seu carro da calçada.
Queria saber como passava depois da história do assalto, prestar condolências, oferecer palavras e apoio a José. Soubera que há um mês entraram na casa dos velhos pela manhã homens com uniforme da prefeitura, camisa laranja estampada com o mosquito da dengue, bombinha de fumacê e prancheta nas mãos. Ameaçaram com revólver na garganta, amarraram a velha no corrimão, amordaçaram com pano de prato. A velha esperneou, sangrou os pulsos, engasgou quando tentou pedir que não a machucassem; foi golpeada à altura da bexiga e fez xixi na roupa.
Eles sabiam que José não estaria em casa; sabiam que Érika não representava perigo nem alarde à vizinhança; sabiam que a velha não poderia resistir; sabiam onde ficava guardado o dinheiro, as economias destinadas ao cuidado da saúde na velhice. Era carta marcada.
Sua senhora fora internada uma semana depois, contou Seu Zé, não eram seqüelas físicas, mas uma tristeza profunda que consumia o corpo, os pensamentos, numa vida que era quase morte. Não podia dormir com ela porque, na enfermaria, não havia acomodação para acompanhantes. Tomava, portanto, sol ou chuva, duas conduções que o levavam ao encontro dela.
Sem saber bem o que dizer para se despedir, Orlando mencionara algo sobre o mundo estar perto do fim quando não se respeitam nem mesmo os velhos. E, como já chovia e o guarda-chuva ainda não havia sido aberto, Orlando notou que Seu Zé chorava por conta dos olhos vermelhos, e não das lágrimas que se misturavam às gotas que caíam pesadas do céu de São Cristóvão e escorriam pelo rosto manchado do velho.
Atravessara de volta para a outra calçada, já não tão ágil e firme como há trinta anos. Orlando era um setuagenário e, embora ainda sentisse a mente sã, o corpo vez ou outra vacilava. Quisera dar adeus a Seu Zé, vizinho de longa data, mas não vira oportunidade. Era seu último dia no emprego, fora despedido junto com os outros velhos que ainda circulavam na empresa, destoando do resto dos funcionários. Alegaram que as pessoas de idade já não tinham tanto gás quanto os jovens, ou vontade de vencer na vida. Já não resta muita vida, o gerente acrescentou.
01.04.09 em: Quarta
Tiana Maciel Ellwanger
Mais um aniversário. Foi ao bar, o mesmo de sempre, na esquina da rua em que morava com a que gostaria de morar. Praia, gostava do cheiro. Há cinco anos, decidira passar esse dia estranho ali, naquele bar, com quem quer que fosse ou chegasse. Às vezes, alguém ligava, alguém dos tempos em que os brindes à vida só acabavam de manhã, e aparecia. Bom. Sem expectativas, boas surpresas. Os de sempre, sempre.
Ao sentar à sua mesa preferida, arejada pela brisa e pelas conversas apuradas pela água salgada, pensou que ela poderia vir. Ela mesmo, Ana, Ana Paula. Adorava vê-la, bem ali, a seu dispor sem dispor. Ela geralmente sentava-se e gargalhava, com as amigas, uma ou duas no máximo. Vez por outra, deixava a carteira ou a caneta cair no chão ou no colo. E seu tom de voz aumentava conforme subia o número da caipirinha.
Chegou João, o amigo albino e insone. ‘Acordei e vim direto porque sabia que estaria aqui, Camuru. Chegou aos cinqüenta, hein’, disse dando tapinhas nas suas costas. Só os amigos de bar o chamavam assim, tudo por causa de uma antiga história, muito longa para esse texto. ‘Pois é, companheiro, mas está tudo funcionando melhor do que esses garotos aí’, apontou para os dois corpos que passavam, com suas pranchas, vindos do mar. Enquanto sentava, João não achou que seria engraçado dar um ponto na piada ruim. ‘Não foi isso que sua ex-mulher me disse quando a vi na praia na semana passada’. Rostos sorridentes, sem graças.
Chegaram Augusto, Cosme e Gilberto, entre intervalos pontuais de meia hora. Os pauzinhos de chope, anotados na toalha da mesa, formavam vários quadradinhos riscados. Começava a hora preferida de João, ele costumava dizer. Noite de acordar, os de pouca roupa voltavam para casa. Conversas inspiradas naquela lua. Futebol, mulher do portão verde, mulheres, piada de e-mail, vídeo na Internet, diretores do Senado, mais mulheres, show do Rolling Stones, viagens, crise, emprego, Igreja, histórias, opinião, idéias e idéias. Em ordem crescente: pessoas, fatos e idéias.
As vozes ficaram inaudíveis. Era ela, Ana, Ana Paula. Estava mais bonita do que em suas fantasias. O vestido branco acentuava o colo de açaí. Cinematográfica. Ficou nervoso, mais do que nos outros encontros-sem-palavras. Seria naquela noite, falaria com ela para jantar. Ela o cumprimentou com os olhos, baixos, e sentou de costas para ele, de frente para a amiga sem sol. Bonita, mas Sem Sol.
Para não te tomar muito tempo, você que já quer saber logo o que vai acontecer com Jonas Camuru e Ana Paula, vou pular uma parte do que aconteceu naquela noite. Eu gosto dessa parte, mas sei que você não quer deixar essa história para o depois-que-nunca-chega. Então, como estava dizendo, Ana estava linda que linda, sorridente e com calor. Sua voz era de mulher grave, daquelas que degustam e querem. Mas naquela noite, Jonas lamentava, não havia conseguido ouvir nada mais íntimo, pena. Melhor.
O que importa é que Jonas colocaria seu plano em prática, naquela noite. Singular. Só se Ana chegasse com decote. Internet lhe disse que mulheres, quando decote, querem ser desejadas. Babaquice. Regras, para ele, necessárias: se decote sim conversa sem decote não. Disse aos amigos que iria para casa, tinha alugado filme, queria assistir, aniversário. Eles, surpresos, então também iriam. A primeira parte do plano tinha dado certo. Foi para casa e pegou a rosa branca que tingira com água de guache vinho e caqui.
Voltou ao bar e sentou, ao lado dela, em outra mesa. Ana reparou a flor e olhou com curiosidade. Perguntou se Ana e a amiga lhe dariam o prazer de aceitar uma caipirinha de kiwi como presente de aniversário, do seu. Sem Sol disse que sim e perguntou seu nome. Jonas. Ana respondeu que só decidiria quando acabasse a que bebia. Esperaria, com e sem prazer.
Chope mais. Silêncio e garçom falando. Duas ou três páginas do jornal dos da praia. Caipirinha acabou e Ana: ‘Para quem é essa flor?’. ‘Para você, Ana’. ‘Eu não te disse o meu nome’. ‘Mas eu sei. Sei que você além de linda, é atriz e estás a buscar’. ‘Não estou entendendo’. Sem Sol levantou para banheiro. ‘A minha já pode trazer’, garçom. ‘A minha também’, disse Ana, olhos pasmos.
‘Sabe Ana. Há muito tempo te admiro, voz sorriso cabelos e lábios. Histórias e algumas opiniões. Não sei se deveria falar o que estou a dizer, não foi planejado. Teria que ser hoje, Ana, Ana Paula. Vou ser sincero, honesto. Poderia perguntar o seu nome e o que faz. Poderia perguntar se mora aqui perto, como se não soubesse. Mas sei, Ana. Sei que passou por maus bocados no mês passado. Sei que está sozinha. Sei que queres um homem sem mentiras. Sei porque ouvi, Ana. Ouvi querendo ouvir, mais’.
‘Você não tem vergonha de admitir isso, Jonas?’
‘Tenho não, Ana. Quero você, sabe? Quero te abraçar, quero te dar essa flor, Ana. É para você, como todas as que comprei e murcharam na água do único vaso que tenho’.
‘Jonas, estou bem surpresa com o que diz. Achei que só eu ouvia demais. E já que é assim, para ser honesta, eu também sabia que seu nome era Jonas e que te chamam de Camuru. Sem descobrir. Separou da mulher porque ela quis e voltou à mãe. Não faz mais festas de aniversário desde a morte dela. Sei que está saindo com uma mulher mais jovem e que não é apaixonado por ela. Até que você esteve com uma mulher da vida, há dois anos. E acha que a mulher da casa com portão verde deve surpreender na intimidade. Você não queria que ouvisse. Percebi pelo tom de voz quando conversava com aquele seu amigo, albino, mas ouvi. Sei também que ama o Tarantino. Eu também amo”.
Você que já não quer mais ler, vou contar só mais uma coisa, e depois outra: Depois daquele dia, eles ficaram três seguidos sem se desgrudar. Duas casas, dois prazeres. Depois, muito depois, vieram alguns palavrões, ainda com carinho. São um casal ajustado, mas parece, só às vezes, torturar um ao outro. Palavras fortes dizem.
Eles costumam nos convidar para jantar em sua casa depois que nos mudamos. E é por isso que sei essa história. “Não é um romance, é uma história”. Só para terminar, Jonas descobriu naquela noite que Ana só dormia de bruços. E que gostava de carícias. Ana também se surpreendeu: ele tinha um espelho no teto. Aquela noite foi a mais decisiva de suas vidas, dizem. A história, já ouvimos várias vezes, com nuâncias diferentes. Seus rostos se transformam quando contam. Se abraçam. Como se quisessem resgatar aquela noite, no bar, na casa, na cama, no espelho. Antes da crueldade.
31.03.09 em: Terça
Luciene Braga
Esbarraram-se no saguão e, enquanto ela tentava pegar todos os badulaques que caíram de sua bolsa, o que inclui um pequeno embrulho que jamais deveria aparecer em aeroportos, ele a reconheceu e cumprimentou.
- Desculpe, mas esse encontrão foi do acaso e…?
- Imagine, estamos sempre nos surpreendendo com eles.
- Está indo para a sala de embarque? Posso ajudar com as tralhas.
- Não, obrigada, posso fazer isso. Tralhas… você não muda.
- Escute. Não estou mais com Lúcia.
- Sinto muito. Sinto mesmo. Foi bom revê-lo.
- Sofri um pouco, mas estou me levantando. Se precisar de algo, é só falar. Acho que estamos no mesmo vôo.
Ela deu um beijo nele e saiu sem responder.
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“Eu a vi de longe, com suas bolsas irritantes, compradas à prestação, para impressionar gente sem muito gosto. Fui em sua direção, como se estivesse distraído. Mas tinha foco. Da última vez que a havia encontrado, estava mais bonita. É, o tempo fez mais uma vítima. Esbarrei nela e tive vontade de rir muito ao ver todas as traquitanas pelo chão. Falei umas gracinhas e disse logo que Lúcia não estaria comigo. Logo, logo, vai pensar que pode me ajudar. Mulher adora ajudar. O pior é pensar que consegue. Ela tentou disfarçar, mas ficou desconcertada. Daqui até São Paulo terei tempo de chegar mais uma vez. Se ela pensa que vai manter essa superioridade toda é mesmo tão tola quanto antes. São 45 minutos de vôo, em que ela vai pensar que é importante. Depois, uma semana de angústia até chegar àquela terapeuta infeliz. Nisso, não mudou nada”.
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“Tentei disfarçar, mas o vi. Quando me deu aquele encontrão, notei que vinha com toda aquela marra de macho convicto. Só se for de que precisa passar em uma sessão de descarrego, depois de comprar uma gravata nova. Meu deus, só porque é cara… Ainda bem que tive alta da terapia, porque passava horas gastando tempo e dinheiro tentando entender essa perda de tempo e dinheiro. Tomara que esteja com reserva para o meu hotel. Ficará surpreso ao saber que Lúcia e Álvaro dividem o quarto comigo. Darei um jeito de levá-los ao coquetel de abertura. Lúcia vai adorar. Levantando? Até que enfim, né, Lúcia?”
30.03.09 em: Segunda