Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postBorboleta…

Gazza

Sobre essa pele alva
Macio caminhar
Sob seu lençol de seda
Camiseta branca
De fina estampa
Sem me cansar, sigo seu pensar
Me vejo despertar
Ao luar do seu olhar
Doce formosura
Como negar
Todo amor que há
Haja vento pra levar
Essa vida nesse mar
Asas a voar
Do rio pro mar
Esperar, esperar
Até pousar
Minha doce borboleta
Quanta delicadeza

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19.06.09 em: Sexta

postMoço antigo

Raquel C. de Medeiros

 

Delicadeza para o blog 

 

Era a primeira namorada, o primeiro encontro com uma mulher, a primeira vez que sentia na alma uma vibração por existir. Por ser homem. Preparou-se como se aquele fosse o primeiro dia do resto de sua vida: escolheu com cuidado a roupa, escovou os dentes três vezes, juntou a mesada durante cinco semanas, deixando de lanchar na escola, de ir ao fliperama. Com o bolso cheio e uma rosa na mão, levaria Ana, sua doce pequena, de táxi, ao cinema, ao restaurante e depois a deixaria em casa. Respirava como um homem feito, que pisava firme no caminho que lhe era presenteado. Segurava as mãos de Ana com a mesma alegria de seu pai, quando conduzia a mulher pelas ruas: com a satisfação de um conquistador. A cada gentileza daquela noite, olhava para ela e reconhecia a admiração e confiança da menina em seu olhar: pagou o cinema, comprou a pipoca, puxou a cadeira no restaurante, fez o pedido ao garçom, pagou a conta, abriu a porta do táxi e seguiam para deixá-la em casa quando Ana sugeriu que parassem para tomar um café em um lugar próximo a sua casa. Olhou para a amada e, cambaleante, aceitou a sugestão. Suas mãos agora suavam frio: o dinheiro que lhe restava daria apenas para pagar aquele táxi. Sem jeito, ele gaguejou, depois de sair do carro: Meu amor, me desculpe, mas o meu dinheiro acabou. Ana sorriu: Não tem problema, eu pago, e tentou confortá-lo com um beijo. A menina pagou o café dos dois, coisa de uns dois cruzeiros, mas ele voltou para casa arrasado, como se todas as gentilezas que fez tivessem se diluído naquele café amargo, que tentava engolir. E as estrelas do céu se apagariam, uma a uma, enquanto ele remoia o primeiro fracasso de um homem feito. A primeira dor de um homem. Mas hoje as estrelas reacendem, uma a uma, toda vez em que conta essa história para alguém. E ouvi-la é como mágica, como voltar ao tempo das delicadezas. E ele novamente vira um menino, quase homem-feito, quase anjo sedutor.

 

Obs: O poema mais delicado que conheço é Poema de Canção Sobre a Esperança, de Álvaro de Campos: “Dá-me lírios, lírios, e rosas também/ Mas se não tens lírios nem rosas a dar-me, tem vontade ao menos de me dar os lírios e também as rosas. Basta-me a vontade, que tens, se a tiveres, de me dar os lírios e as rosas também; E terei os lírios- os melhores lírios- e as melhores rosas, sem receber nada, a não ser a prenda da tua vontade de dares lírios e rosas também”.

 

 

 

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18.06.09 em: Quinta

postAnódinos

Aline Leal

Pode-se dizer com segurança que Ilana havia sido uma criança suficientemente feliz. Tinha uma imaginação engenhosa e atraía muitos amigos para o mundo das suas brincadeiras criativas, costumava liderá-las e, assim, impunha as regras do jogo mais que tudo para testar o seu poder.  Uma vez comandou uma revolta das crianças no clube do bairro quando seus dirigentes ameaçaram abolir o baile de carnaval, e ganhou a batalha. Morava perto da escola e então ia e voltava a pé com as amigas seguindo os meninos e se virava do avesso para que eles a notassem. Tinha sensibilidade para contar piadas e reunia bem umas dez pessoas que se excitariam com o clímax da história e inevitavelmente ririam do seu desfecho, ainda que não tivesse lá essa graça toda. Cativava os adultos que a consideravam uma menina inteligente e tinham real interesse em prestar-lhe atenção e em emprestar-lhe seu tempo.

Do mesmo modo, Lino tivera uma infância a contento. Jogava futebol no time da escola e diversas vezes viajou com os meninos para campeonatos intermunicipais, quando dividiam quartos e ficavam acordados até de madrugada fazendo porcarias, contando piadas sujas e sacaneando um e outro menino mais excluído. Tinha presença de espírito para brincar durante as aulas e levou para casa diversas advertências que a mãe considerava saudável para um menino da sua idade. Nas festinhas, não gostava de dançar e preferia ficar num canto do salão com alguns amigos sacaneando de viadinhos os meninos na pista. Tinha pais separados, o que considerava uma vantagem pela praticidade de se ter duas casas.

À medida que o tempo foi passando, Ilana foi, pouco a pouco, criando uma sensação de estranhamento em relação ao mundo.  Enquanto à sua volta os outros começavam a afirmar seu lugar, a expressar sua vida, Ilana estava presa a uma infantilidade delicada, sensível, como se tivesse perdido o rumo da maturidade. Falava baixo, tinha poucas opiniões, era difícil vê-la soltar uma gargalhada espontânea, raríssimas vezes entrou numa briga com alguém, ganhou poucos amigos e perdeu a maioria. Tinha dificuldade em ser inteira, em encontrar um lugar que não fosse o isolamento, em acreditar em qualquer coisa. Sentia que ficava fraca, que perdia a luz.

Com o passar dos anos, Lino acabou voltando-se para dentro de si mesmo. Não acompanhava a atitude afirmativa dos outros: tinha atração pelas mulheres, mas não teve ânimo para deitar-se com muitas; teve alguns relacionamentos, mas sentia-se mais confortável sozinho; incomodava-lhe a solidão, mas não conseguiu envolver-se a fundo. Perdeu o interesse nos amigos, não se sentia ligado à família, frequentou por dois anos a terapia. Falava pouco, sentia-se seco.

Ilana nunca se casou ou experimentou o amor romântico, mas era uma pessoa extremamente delicada, sensível e gentil. Perdeu um filho num aborto espontâneo, quando descobriu que tinha um cisto no útero e teve de retirá-lo. Foi uma tia formidável para os seus dois sobrinhos, que a adoravam e lhe deram bastante atenção. Aos 65 anos, foi diagnosticada com uma diabete severa que a deixou de cadeira de rodas e embaçou sua vista, mas manteve a memória exemplar. Viveu num asilo de luxo por vinte anos quando, aos 96, deixou este mundo.

Lino teve duas filhas de um casamento que durou dez anos com uma mulher a quem nunca amou. Abandonou os estudos antes de concluir a faculdade e arrumou um trabalho pouco satisfatório e que lhe pagava mal. Foi chamado à justiça duas vezes por não pagar em dia a pensão das meninas. A caçula morreu aos 35 anos com um tumor no cérebro um mês após ter sido diagnosticado.  Pensou várias vezes em tentar a sorte no exterior, mas nunca saiu do Brasil. Tirou a própria vida com uma bala na cabeça aos 63 anos, não deixou nenhum bilhete.

Numa certa altura da vida, Lino e Ilana encontraram-se e passaram algum tempo juntos. Conversavam sobre introspecção, um coração estável, uma tristeza delicada, uma perplexidade inativa, uma tendência depressiva. Lino e Ilana poucas vezes expressaram-se de forma tão honesta, conseguiram se sentir tão íntegros. Mas cedo perceberam que nada adiantava juntar dois vazios

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17.06.09 em: Quarta

postAgradeço o arredondar

Tiana Maciel Ellwanger

À Beatriz Milhazes

beatriz-milhazes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aprecio tuas cores
Viajo no teu jardim
Extraio tuas flores
Roubo o perfume pra mim

Circo, círculo e anel
Lágrimas, olho barroco
Quero chegar no teu céu
Pra fugir do mundo mouco

Teus pincéis me fazem crer
Que Ele está por aqui
No amor, no bem-querer
Que consegues traduzir

Dizem: sonhos são pebê
Mas nisso eu não acredito
É só olhar pra você
E gozar com o veredicto

Quero o mundo desse jeito
Colorido de caqui
Dar valor ao imperfeito
Com caju e açaí

E eu que não sei pintar
Me inspiro nessa aquarela
Palavras, mando rimar
Parodio de tagarela
Agradeço o arredondar
Que tua arte pincela
E me permite escapar
Da rotina que aquartela

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16.06.09 em: Terça

postDelicadeza Bruta

Luciene Braga

Caminhou lentamente até o quarto, descalça, silenciosa e descoberta.
(Mistério, para agradar)
Sorriu, com a graça de um Ney Matogrosso brincando de sério.
Ele achou engraçado e ficou curioso.
(Está linda, mas que negócio é hoje que está vestindo?)
Estendeu a mão como quem chama, mas por dentro implorava.
Ela continuou em ritmo lento em sua direção.
Quando ouviu o sussurro no ouvido direito, ele teve um trimilique que
os levou às gargalhadas, caídos na cama.
Minutos disso depois, hora de voltar ao clima.
“Essa roupa não é nada sexy, desculpe. Com a piadinha, então, não me aguentei.”
“Então vamos tirar.”
“Vinho?”
“Muito… e música, pode ser?”
“Seu predileto. Chico.”
Delicadamente, seguiram por todo o domingo de chuva assim, pensaram em
todos os mais de mil 2 domingos que já tiveram nessa vida e queriam
que todos os dias fossem parecidos com aquele, brutalmente delicado.

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15.06.09 em: Segunda