Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postCarta ao amigo

Gazza

Hoje eu acordei triste. Aliás, nem acordei. Decidi que não quero mais essa vida, parada, sem paixão. Tem até tesão, que confesso, não falta mesmo. Mas fica só na vontade. É sempre assim. E aí, me amoleço a perguntar: qual o sentido dessa vida? O que eu faço aqui, preso, quase que inutilizado? Tentei entender a situação do cara, mas ele manda mal demais. Sempre foi assim. O prazer, vem na mão. E eu quero mais, muito mais. Quero gozar com liberdade, com felicidade. Cresci para isso – e cresço sempre, quando o sujeito dá chance. Mas está difícil.
 
Veja bem. Não que eu não goste do cara, pô. Eu nasci com ele, sabe. Cresci com ele, confesso que não muitas vezes. Então, é aquilo, a gente não escolhe pai e mãe. Porque se eu pudesse… São três meses de atraso, três meses, companheiro. E quando eu penso na vida que vocês levam, aí é pra baixo mesmo, fico lá, cabisbaixo, sem piedade. Outro dia, acordei naquela, ereto, inchado. O sorriso foi imediato, mas quando vi, tava na mão, outra vez. Na mão, sempre, não dá. Chega. Eu quero o molhado quente, com sabor de puro prazer. Quero o vai-e-vem macio, gostoso. Rápido, lento. Com pressão. Quero diversão, quero sentir a vida pulsar em mim. E como pulsa!
 
Eu desisti, amigo. Aqui, tem jeito não. Só resta me aposentar, infelizmente. A última tem três meses. E foi muito mais ou menos. Muito mais para menos. Eu mesmo fiquei envergonhado pelo meu amigo. Sabe aquela coisa de se constranger pelos outros? Pois é. Estávamos lá. Sim, nós quatro, porque eu sou gente, tenho vontade própria mesmo. Nunca fui desses que só obedecem. Quando dá vontade, eu cresço mesmo. Sem cerimônia. E até para ajudar o cara, né?
 
Então, o cara mandou mal já nas preliminares. Eu lá, duro, aquele pé de mesa, na maior vontade, quase rasgando a calça. E louco para vê-la, aquela preciosidade, que só pelo volume me deixou louco, completamente. Pois bem. O cara decidiu partir pro jogo, ali, quase sem aquecimento. Resultado: distensão na certa. Que vergonha, companheiro. Em dois minutos, o serviço estava pronto. E as duas lá, olhando pra ele, com aquela cara entre a pena e a decepção. E eu, já cabisbaixo, lamentava mais uma diversão perdida.
 
Broxei… Pra sempre…

 

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27.03.09 em: Sexta

postMeninaMázinha

Raquel C. de Medeiros

Que cansaço dessa gente que se leva muito a sério, essa gente sem humor que morre com cada página amassada de seu diário sem cor. Essa gente que aponta com satisfação o erro alheio, que cria grandes dramas com pequenas falhas dos outros para assim sentirem-se superiores. Que preguiça do poder em mãos pouco generosas. Às vezes tenho o impulso de me revelar e te mandar à merda, mas me contenho porque você não merece me ter muito tempo por perto. Tu nem imaginas mas rezo diariamente para que eu encontre uma porta que me leve para longe desse seu olhar pessimista. Daqui a pouco é adeus.

E às vezes somos obrigados a engolir a deslealdade até de amigos muito queridos. Dói, viu, amar, cultivar uma amizade e quando você precisa do mínimo, esse gesto não vem. Não vem e a gente começa a repensar tanta coisa que os sentimentos se embolam. Vale a pena relevar? Vale a pena continuar cultivando esse amor? Vale a pena continuar pensando nisso? Eu quero mais é um travesseiro que me dê um bom sonho.

E às vezes somos obrigados a sorrir de coisas que a gente não concorda. O que será que nos custa um sorriso sem alma?

Você tem pensado em mim mais do que deveria. E por que será que isso me deixa feliz?

Você foi leal na deslealdade e sim, eu concluí que isso é possível. Pediu-me perdão, confessou o que poderia ter omitido, mas eu não gostei, não mesmo. Pode deitar e dormir em paz, mas o que eu faço com você agora?

Eu te admirava pela metade. Mas hoje ainda menos que isso.

O tempo em que nem as coisas felizes faziam mais sentido passou. A alegria chega, me abraça e eu a acolho freqüentemente. Embriago-me com ela, fazemos poesia e rimos bastante. Louvamos a vida, a família, os amigos, o aconchego de casa, uma bênção. Deitamos juntas e o resto é mel, sombra de pétalas, ritmo encantador. Mas às vezes, olho para ela (a alegria) e a acho parecida com você. Levo susto, acho que estou sonhando e percebo que sonho foi você. Graças a Deus.

Tenho uns segredinhos que ninguém sabe. Alguns arrepiantes. Outros inspiradores.

Não quero ficar presa no seu baralho. Não venha querer me ler, pois.

Você um dia vai pensar “por que não a recebi com mais carinho?” mas não vai dizer. Isso vai martelar na sua cabeça com grande freqüência. Nesse dia eu já terei encontrado aquela porta e não vou nem mais lembrar da sua desprezível existência.

Estou aprendendo a ser mázinha quando preciso. Tenho que praticar para melhorar cada vez mais.

Sentiu cada letra entrando afiada pelo seu peito? É por isso que escrevo: para imaginar o seu sangue escorrendo pelo chão que inventei.

Sabe que agora que matei uns cinco com minhas letras sinto-me melhor?

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26.03.09 em: Quinta

postA mão suja

Aline Leal

A Carlos Drummond de Andrade

 

Minha mão está suja.

Preciso cortá-la.

 

Minha mão está farta, quente, inchada

e meus olhos intactos, de mãos atadas,

em sua nudez depravada cegam,

chapados, minha mão suja

Não consigo vê-la

 

Eu sinto escorrer gota a gota, incólume

esse chorume pornográfico

esse estrume imundo, leopardo

nessa necrose que chamas por pele

 

O que fazer quando o que mais me

excita, navalha, ameaça,

se incita sempre em sujá-la

O que fazer com essa cara? Lavada

Minha mão está suja.

Mantenha-se calma

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para ler o poema inspiração de CDA: http://memoriaviva.com.br/drummond/poema023.htm

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25.03.09 em: Segunda

postQuerida irmã,

Tiana Maciel Ellwanger

Para você, na hora do jantar

Sabe irmã, escrevo porque preciso cuspir. E quero cuspir em você. Cuspir o que há aqui, em minhas entranhas. Minhas vísceras, elas mesmo – menos que o coração e o cérebro -, pedem que cuspa.

Que jogue tudo para fora,
agora.
Você quer ler?
Quer ler o que cuspo?

Adoro a crise, sabe?
Se está revoltada,
já no começo o que digo,
melhor parar.
Pare, como o Mundo está a estacionar.

Pare de ler e olhe teu umbigo,
lindo.

Você não tens tempo, não é? Na verdade, não gosta de fazer o que gosta e arruma desculpas. Descalabro. 

Continue então com suas lamentações,
mas não leia, cara irmã.
Aqui não vai achar
do que se lamentar. 

Não estás satisfeita a vomitar reclamações naqueles que diz amigos? Amigos que você preenche e cospe
e chupa
e cospe,
e preenche com cuspe.

Mas já te digo, digo logo. Vai atrasar suas tarefas, seus deveres. Teu dever. A cumprir. Naquela lista.
Deves mesmo?
Para quem?
Sabes que Deves somente a tuas desculpas, a teus desapegos e a teus poréns. Não diga o contrário porque não acredito. 

Queres dizer Não e inventa, tormentos, sem virtude, sem Honestidade.
Queres paz não é, que paz queres? A paz mundial das misses, é essa que queres. Ingênua é você, irmã.

Hipócrita é você, irmã.

E explico de uma vez o que isso tema ver com a crise: sei que seus trabalhos diminuíram. Que já não é mais tão ocupada. Que está prejudicada.
Sempre estivera sem tempo, não é mesmo?

Trabalhar trabalhar e trabalhar
para mostrar e
se ausentar.

Agora tens tempo, mas continua ausente dos que te amam e, por isso, compreendem. Eu não, não mais.

Cansei de não mostrar e por isso ter de ficar,
e cuidar, enquanto tu estás a não trabalhar, a inventar.

Falo também da tua vida. Por que não? Ainda podes mudar.
Queres moral e cívica de um lado. E arte do teu lado? Dá não, irmã, não dá.

O que queres é continuar,
sem pensar.
Queres se acostumar,
acostumar.
Só levar.
Sem se dar.

Falei que era melhor não continuar.

Não quero teu conforto,
quero teu pesar.
Quero teu enlouquecer.
E teu sangue.
Continue que piora,
embola.
Quer embolar?

Ah! A crise, a tua crise, faz parar.
Desacelerar.
Menos é mais, ainda não percebeu?

Quer mesmo é voltar ao teu jantar, não é?
Janta teu papel de manteiga sem gordura. Acredita mesmo que manteiga não tem gordura? Come logo e depois diz ‘novela chata’, por que estás a continuar? “Sai Naná”, vamos espiar. Continues vendo sem ver.

Não, não faça isso, irmã. Venha comigo. Sei, no fundo, que quer parar. Eu também.
“Porque só voa quem sabe pousar”, a lembrar.

E se coragem tivesse, sairia agora daí e ia arrumar. Arrumar um jeito de não estar onde estás.
E nunca mais voltar.
E depois voltar, porque Nunca o nunca preverá.

Fique a parar para depois, só depois, voltar a voar, porque esse texto mudará. Dependerá do jantar, do seu jantar. 

Com amor, muito amor, do seu irmão
Augusto

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24.03.09 em: Terça

postPágina virada

Luciene Braga

Mundo jegue. Era assim que sentia.
Feito gari, ele se pôs a fazer a limpeza sem ser percebido.
Recolheu todos os papéis da mesa. O retrato de seus colegas ele jogou na lixeira sem se preocupar com os olhares. Até riu, aliviado.
Como naqueles momentos em que você percebe uma barata na cozinha, sem que ela faça qualquer movimento, foi atraído pela visão do chefe em sua sala de vidro (e salas de vidro são por demais temporárias).

Cutucou nele a empáfia relegada aos sonhos e pesadelos. Era aquela a hora. Irrompeu com vidro e tudo, apressado. Olhou o ex-superior, agora ainda mais, nos olhos. Desafrouxou a gravata cinza.
E diante da estupefação do homem hipertenso, viu que era tarde para heroísmos ou flashes de comemorações marxistas. Feito gari, agradeceu. Deu lembranças. À família. E à secretária. Falou que “qualquer dia…”.

Sem ter para onde ir, vagou naquela noite, não sem antes livrar-se da caixa, quase vazia.
Nas cercanias, ninguém sabia o nome dele, impronunciável. Era conhecido por ter surgido do nada e acreditavam mesmo nisso. Não tinha expressão. Mal se viu músculo se mover na face, quando toda a gente do bairro sofreu com a morte de seu Carlos Pipa, um papai noel do bairro, atropelado pelo motoboy estressado, diante das crianças que, avisadas da saída do homem vestido assim, correram para assistir.
Ele achou até graça. Teve de se segurar para não rir.
Celular tocou. Um amigo contando suas aventuras invejáveis. O relógio da sorte não colaborava. Bebeu um cognac, enquanto fingia ouvir. Sem tempo para elaborar teses sensatas.

Na sábia ignorância de quem perde o chão, lembrou-se que, da última vez, recolheu-se na companhia de uma mulher paga. Foi bom. Sabia que não teria despedida. Era chegar e partir, como se nada tivesse ocorrido. Nem pensou em avisar a sua, em casa. Era mesmo hora de ir. E decidiriam hoje a cor das cortinas do quarto. Como se reparasse…
Foi, com seus sapatos sem graxa. Pronto para virar uma, duas, mil ou mais páginas.

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23.03.09 em: Segunda