Um dia…
Gazza
Essa desilusão
Parte todo meu coração
Dilacera qualquer emoção
Da concepção
Desse amor maior
Um dia pior
Outro, melhor
Cinzas nuvens
Carregadas de rancor
Por que toda essa dor?
Gazza
Essa desilusão
Parte todo meu coração
Dilacera qualquer emoção
Da concepção
Desse amor maior
Um dia pior
Outro, melhor
Cinzas nuvens
Carregadas de rancor
Por que toda essa dor?
Raquel C. de Medeiros
É noite de inverno e Marte se aproxima da Terra. Os amores estão longe e quietos, renascendo na sabedoria dos movimentos. Olho para o céu em busca do brilho vermelho, mas o mau tempo ofusca a constatação dos astrônomos. Sei que a aproximação recorde decorre da trajetória elíptica com que ambos os planetas giram em torno do sol, vi no noticiário. Mas parece que a rotação das órbitas está girando ao contrário. O fenômeno invisível. Os amores fora do sistema solar. O nada muito ligado ao tudo e o gato doente.
Sempre companheiro, o gato me acompanhava nas horas dedicadas à escrita. O escritório era nosso, mas a poltrona herdada de família era mais dele do que de qualquer outra pessoa da casa. Cacau dormia enquanto eu digitava linhas e mais linhas de sentimentos violentíssimos. Às vezes, ele já me aguardava no escritório. Outras, batia a porta para que eu a abrisse. E devagar, sempre devagar, entrava sem me incomodar. Respeitador como eu. Doce como eu. Corajoso como eu. Não tão atarefado. Como eu queria ter o seu tempo disponível para escrever mais, seu dorminhoco!, eu lhe dizia. E muitas vezes a minha anemia me jogava na cama, onde eu ficava estirada por horas, lenta como ele.
Nesses dias em que Marte se aproximava da Terra, os amores se despediram, o nada quase se esbarrou com o tudo e Cacau adoeceu. O gato já não conseguia chegar ao escritório para me pedir para entrar. Não se movimentava para ficar perto de nós, quase não comia. O colo morno dos meus textos me acolhia naquelas noites lentas e melancólicas de amores distantes e fenômenos bissextos. Pensava muito, escrevia muito, sofria muito. Já muito doente, Cacau tinha o olhar de doação. Faleceu no fim da tarde de um sábado, quando eu não estava em casa.
O enterro aconteceu quase à meia-noite, no nosso jardim. Lágrimas, caixa de papelão, flores, terra, dor. Marte já se distanciava de nós. Os amores acenaram reaproximação, o nada enxergou sua real condição e o meu sangue voltou a circular no ritmo da Terra. Agosto se despedia.
26.11.09 em: Quinta
Aline Leal
Encontrei-a enquanto caminhava pela Nossa Senhora, estava ali, encostada na grade verde do 509, esquina com a Figueiredo.Eu morava em Copa há oito anos, desde que vim de Petrópolis estudar medicina e acabei me especializando em psiquiatria, mas não exerço a profissão.
Meu pai continua a mandar a mesada todo o mês, que é suficiente para pagar o aluguel e manter um estilo de vida razoável. Este se sustentava a base de rock´roll. Eu varava a noite em boates para voltar para casa já claro e então dormia até o sol se pôr. Ocasionalmente, levava uma puta pra casa e enxotava-a com o dinheiro logo depois de gozar. Outras vezes, eu mesmo fazia o trabalho manual que meu corpo demandava. Era um homem solitário, claro, a verdade é que não tinha paciência para o ser humano.
Quando encontrei-a, acabara de tomar o meu café da manhã na padaria da Siqueira e estava voltando para casa, já anoitecia. Por algum motivo, o tipo de motivo inexplicável sobre o qual eu já ouvira falar a respeito, fui atraído por aquela mulher sem que tivéssemos tido qualquer contato anterior, numa espécie de amor à primeira vista. Perguntei ao porteiro, encostado na grade a seu lado, se poderia levá-la para casa, ao que ele me respondeu que a senhora do 301 a havia deixado aí pela manhã e que era lixo.
Era linda, o semblante todo evocava mistério, loira, cabelos longos e lisos, dona de um sorriso que se curvava nas laterais e formava covinhas, denunciando uma alma pura e boa. Tinha um metro e meio de altura por um de largura, preta e branca, moldura de madeira. No canto inferior direito: estúdio fotográfico Francisco Sá, 1960.
Vivi por um ano e oito meses com esta mulher, sem que houvesse espaço para nenhuma outra pessoa em nossa relação, ela preenchia todos os meus poros. Era daquele tipo de amor em que não há nada a ser dito, pois a compreensão entre um e outro transcende qualquer expressão. Vivíamos em harmonia perfeita, ela me satisfazia espiritual e sexualmente, e eu acho que também era bom para ela, também a fazia feliz. A mesada que meu pai depositava revelou-se suficiente para duas pessoas e eu não fazia mais questão de ir para noitada. Era um homem de 33 anos e já estava com a vida mais ou menos estabelecida.
Até que o dia em que, voltando das Sendas, a sacola com vinho branco e queijo para fondue (planejava um jantar romântico), fui apontado na rua pelo porteiro do 509, com uma senhora ao lado: “Dona Daura, aquele foi o moço que levou sua foto”. “Chega aqui, menino”, ela chamou.
Tinha uns 85 anos, os cabelos pareciam algodõezinhos lilases e rareavam na cabeça. O rosto era pura ruga, e o corpo, pelanca e mais pelanca. Usava um conjuntinho hippie e fumava cigarrilha, unhas longas e vermelhas. Parecia daquelas velhinhas que falam muito palavrão, coçam as partes pubianas, pigarreiam e cospem no chão. Quando cheguei mais perto, apenas falou: “Espero que não esteja batendo umazinha em cima de mim, já sou uma senhora”.
A velha e o porteiro ficaram ali, rindo, e eu fui embora atônito, não sabia o que pensar, era a paixão da minha vida sendo difamada, mas acho que estava mais frustrado que aborrecido. Voltei para casa e ela continuava ali, linda, me esperando, inocente. Não tive vontade de acusá-la, nem de gritar-lhe palavras de rancor. Sentia-me esgotado emocionalmente e pedi-lhe que fosse embora, só isso, esperando que o resto ela pudesse compreender pela minha fisionomia e nossa cumplicidade.
25.11.09 em: QuartaTiana Maciel Ellwanger
Abriu os Classificados do jornal gratuito para seu encontro diário com ela. Allana era seu nome; ficava abaixo do escandaloso “Pai Claudio do Diabo”, que prometia Deus e o mundo. A foto estampada na página cinza só mostrava-a de costas, mas a imaginação dava conta do seu belo rosto. Era bronzeada, seios turbinadíssimos, extremamente carinhosa, lábios atrevidos, pernambucana, olhos de mel, adorava beijar e ainda fazia massagens excitantes, dizia o anúncio, alternando as qualidades conforme o dia da semana.
Allana era, há anos, a companhia de Carmelo nas manhãs viúvas; o recheio de pecado na rotina pacata; o conteúdo dos sonhos cada dia mais ardentes. Neles, Allana tinha gemidos de loba e olhos melados, hipnotizantes. Com seu mindinho direito, acariciava seus pelos formando espirais e, ao acordar, ele ainda sentia os movimento circular das mãos em seu peito, as palavras infantis ao pé da orelha.
O quinto ano de solidão foi a gota d’água para transformar o amor platônico em palpável. Ligou e desligou algumas. Ligou novamente, respirando fundo. “Allana?” Uma voz grave, diferente da de suas noites oníricas respondeu: “Oi amor”. Emudeceu por momentos. “Alô?”, disse a voz pedindo resposta. “Oi, meu nome é Carmelo, gostaria de te encontrar”. “Claro, amor, Rua do Senado, número sete, apartamento 305. Que tal às oito?” “Hoje? Já? Pode ser”, disse para desligar ainda assustado com o timbre graúdo.
O dia foi o mais longo da sua lembrança. Pegou os desenhos que fizera de Allana na gaveta e, com a voz dela ecoando na mente, já não conseguia enxergá-la nas silhuetas rabiscadas, longilíneas. Antes das seis, saiu de casa e tomou o ônibus para o Centro da cidade, por onde andou olhando azulejos e azulejos que não o distraíam.
Sete e quarenta e cinco. Subiu os lances de escada e bateu na porta. A voz disse algo que não registrou. Olhava para o gogó, ombros, gogó. “Oi amor, entre. Homem pontual, assim que eu gosto”. Carmelo não conseguia pronunciar palavra. “Fique à vontade, quer um drinque?” “Não, obrigada, não bebo”. Gogó, ombros, gogó. “Desculpa, você é maior do que pensei”, disse ele. “Você ainda não viu nada, querido”, a voz que agora lembrava a de seu tio bronco respondeu, aproximando-se quente do pescoço.
Olhos fechados, buscou as rezas na memória. “Meu Santo Expedito das causas justas e urgentes, socorrei-me nesta hora de aflição e desespero”, disse baixinho de olhos fechados, saindo pela porta que entrara. “Vai não, amor, sou quase mulher, você vai ver”, foram as últimas palavras ouvidas antes de bater a porta.
Ingênuo, tolo, xingava a si ao passar pelos azulejos na volta para casa. Ligou para Dirceu, o ex-colega de trabalho aposentado e contou a história patética. As gargalhadas ao telefone amenizavam um pouco o sentimento não sabia bem de quê. Depois descobriu: a dor de não ter quem amar dilacerava mais que a solidão das manhãs platônicas. Abriu os Classificados.
24.11.09 em: TerçaLuciene Braga
“Jamais fomos advertidos ou informados a respeito”, disse um dos alunos da classe dos que esperavam sursis para deixar a escola.
Com essa história bem escondida pelos mestres, pouco tinham a discorrer sobre o tema. Desapontados, tinham a certeza de que não obteriam bons resultados nos exames finais. Ensaiaram um levante, mas sabiam que não teriam argumentos ou mesmo força de motim para exigir mudança nos critérios de avaliação.
“Não precisamos desse tipo de educação fosca, traiçoeira”, defendeu o menor de todos, assustado com a coragem de reivindicar. A dura disciplina imposta gerava o medo mais gélido em todos. Afinal, eram praticamente crianças renascidas de crimes que mal entendiam ou até duvidavam ter cometido. Eram operadores dos geradores de ideias.
Na sociedade nem sempre capaz de manter o estado de vigília, era esse o seu pecado.
O esquecimento era, como dizia um dos mais entusiasmados mestres das aulas de virtudes estudadas, meio filho da preguiça. O contrário da certeza de ser ou valer. Era tentar ou dormir. E dormir era sempre mais confortável, quando conseguiam.
Aquele quadro despertou neles desejo. Muito desejo de superar.
Contra todos os seus projetos, aguardaram os exames, no tempo determinado, nas questões emboladas e preparadas para destruir seu mais nobre orgulho.
Eles se subestimaram mais uma vez.
23.11.09 em: Segunda