Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postReflexos…

Gazza

Vejo em você tudo o que não sou
Espelho meu
Onde me encontro agora
Você olha pra mim
Diz que não há nada do que você é
Mas me quer
Onde estiver
Pois digo que te quero
Sem reflexo
Nos olhamos então
Perdemos o chão
Só com as mãos
Misturamos nossa poção
Nesse mundo vão

Vejo em mim tudo o que você não é
Espelho seu
Onde se encontra agora
Olho pra ti
Para nos permitir
Tudo o que somos
Nos encontramos

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30.10.09 em: Sexta

postOs óculos

Raquel C. de Medeiros

Um sobre o outro. As lentes se entreolhando, as armações se apalpando, as deficiências se estranhando. Os dois pousados sobre a mesa de jantar, aguardando o momento de mostrar os traços imperfeitos do mundo embaçado. Os olhares nus ora atravessam, ora fomentam um silêncio intimidador.

De súbito, a conversa escala a música, tentando atingir o sonho de ser uma nota musical qualquer. Mas é quebrada pelas diferenças, que murcham expectativas mais sublimes. Os pratos e copos ainda vazios perguntam àquelas armações o que todos fazem ali, naquela mesa de jantar. As respostas são tão distantes que nem se cruzam. Alguém sorri muitos anos.

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29.10.09 em: Quinta

postO tigre e o dragão

Aline Leal

Cada vez que olho para você, para o fundo de seus olhos castanhos, tento desvendar o mistério mais profundo que o diferencia de mim. Quase chego a encostar os meus olhos nos seus, por alguma razão inconsciente acreditando que, aproximando-me fisicamente, chegarei mais perto também de sua alma.

 

Eu não tenho alma, eu tenho um corpo.

 

Decerto corpo e alma não são a mesma coisa. Se o seu corpo é o de um homem forte, a sua alma é a de uma criança frágil.

 

Sua alma tampouco inspira força.  

 

É também infantil e frágil. Mas não somos iguais. Há algo em nossa semelhança que nos diferencia. E nos repele. Eu me vejo espelhada em você, mas não o reconheço. Não consigo encontrar o brilho por trás dos olhos castanhos. Que seguramente está ali.

 

Nossos corpos se entendem.

 

Enquanto meu corpo caminha na direção do seu, minha alma contrai-se toda, pequenininha no dedão do pé.

 

Você julga que eu a estou entendendo. Porque somos iguais. Você busca expressar a língua da alma. Eu busco expressá-la no corpo.

 

Mas não consegue. Eles caminham em direções opostas. Confesse.

 

Confesso. E você tampouco pode traduzi-la. Sua linguagem é tão abstrata quanto a minha.

 

Eis a sutil semelhança.

 

Esqueça essas ideias, esqueça a alma.

 

Nunca seria feliz.

 

Eis a sutil diferença.

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28.10.09 em: Quarta

postBorboleta

Tiana Maciel Ellwanger

Irene, desde muito menina, tinha o dom ou a sorte de absorver o que as pessoas ofereciam de melhor. Sua personalidade era mutável e transformadora. Possuía muitas faces, todas aquelas que algum dia, mesmo que por momentos, mostraram-se a ela.
De Daniela, tinha o apreço pela vida, o otimismo jovial, a certeza de que tudo daria certo.
Com Silvia, aprendeu a ser pragmática, a ter ambição para seguir em frente.
Geórgia emprestou a ela o respeito e a admiração pelos mais velhos.
Ana lhe ensinou a caridade, a doação, a preocupação com os necessitados de comida, pensamentos ou afeto, sem alarde ou pena.
O apreço pela arte e pelos prazeres do paladar veio de Carina, que pouco oferecia além dos requintes de uma dama elegante.
A paixão, ela aprendeu com Marina, intensa como nenhuma outra mulher que conhecera.
A organização que facilita veio da convivência com Cláudia.
Irene também aprendeu muito com os homens. Doou e recebeu.
Dos que a amaram, extraiu o carinho, o respeito e a lealdade. Não levou em conta o sentimento de posse, nem o de vingança quando este substituía o amor frustrado com a perenidade.
Dos que amou, apreendeu a dignidade e ignorou as traições covardias fraquezas.
Quando já não tinha o que absorver, Irene voava em busca de novos perfumes. Para alguns, era egoísta. Outros chegaram a compará-la a um cometa: ilumina, causa admiração, mas desaparece quando o sorriso nos lábios está mais intenso.
Eu não a julgo, ela emergiu o que havia de melhor em mim. Os laços, eu sei, eternizavam-se dentro dela (só dentro dela), mesmo que isso não fosse suficiente para seus órfãos. Sabia que encontraria novos amores, de todos os tipos, e seguiria transformando-se em uma linda, múltipla e plena borboleta colorida.

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27.10.09 em: Terça

postOrigem, o fim

Luciene Braga

“Se você quer ir embora, tudo bem, mas não diga que não tentei…”
“Lá vem você querendo placa de homenagem outra vez! É por isso que não queria marcar de encontrar aqui. Sabia que me sentiria coagido.”
“Pode ficar à vontade que eu vou na frente. Mas saiba que eu ainda o quero”.
“Digna, como sempre”. Seguiu-a com os olhos brilhantes. Não tinha o dom de chorar. Com dois corações, a taquicardia era quase uma escola de samba. Apertou com a mão o tórax. Viu como era linda nua, enquanto ela jurava que, em vez de ficar estático, ele a tocava com igual tesão.
Falsa magia da mente, e os dois entenderam que não conseguiriam manter aquele momento por muito tempo. Aliás, o tempo era o que menos os unia.

Ela abriu a porta e seguiu em frente, conforme o convite e adverso e a conversa da véspera, contra a vontade, acostumada a ir. Decidiu ir à floresta, pedir proteção aos elementais. Poderia ficar, embora as diferenças entre eles fossem maiores que o programa espacial da Nasa. E pensar que um dia quis trabalhar lá, de macacão branco, imaginando a falta de gravidade.
Desprotegida.
Chorou.

Ele terminou de fazer as malas, esperou a nave espacial e sumiu na luz. O planeta dela não tinha futuro. E ele não era um ser nascido para emoções tão aterradoras. Ingeriu uma cápsula de névoa e outra de clássicos de sua base nativa.
Protegido.
Fechou os olhos.

Um mundo pararia, sem ar. Outro dormiria encapsulado.

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26.10.09 em: Segunda