Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postUma vida…

Gazza

Um patrimônio sólido e alguns milhares de reais depositados em minha conta bancária todos os meses, religiosamente. Era tudo o que tinha. Passeava pelas ruas do Centro em uma grande metrópole latino-americana, sem rumo, sem caminho certo. Vagava por horas, já havia desistido de encontrar um norte. Qualquer coisa que garantisse o almoço e o jantar. As ruas eram meu lar e as pessoas, minha família. Exatamente como havia sempre sido: sem amor e uma grande distância entre meus pais, irmãos…Tudo se perdeu ainda na infância, no momento exato em que os laços se estreitam, ganham corpo, se expandem. Não que a porta tivesse sido fechada para sempre. Mas era a escolha de cada um. Desde aquele tempo. A vida seguiu.

- Roberto? É você mesmo!

Surpreendi-me com a repentina exclamação de um homem diante de mim, numa já insuportável esquina movimentada da cidade. Não falava com ninguém há dias. Aquela imagem me trouxe lembranças imediatas. Havia reconhecido Antonio Carlos, mas estava paralisado. Sem saber com agir.

- Sou eu mesmo, Antonio Carlos.

- Cara, por um momento pensei que tivesse me enganado, que iria pagar maior mico aqui nessa esquina – dizia o amigo de infância, numa felicidade enorme.

Ao contrário, tentava entender aquilo, aquela surpresa da vida. Nada agradável naquele momento.

- Quanto tempo cara! E aí, como anda a vida?

- Uma merda, cara.

A resposta deixou Antonio Carlos constrangido. Esperava que ele virasse as costas e fosse embora, depois de um tchau tímido e sem graça.

- Entendo, Roberto. Mas o que aconteceu com aquela família enorme, como estão todos?

- Estão todos mortos, Antonio Carlos. Aqui dentro, mas mortos. Eu tenho todo o dinheiro que preciso. Nunca me faltou nem me falta. Passo boa parte dos dias aqui, vagando por essas ruas. Se você quiser, te dou todo meu dinheiro. Se você quiser, é todo seu. Mas você pode me dar uma vida?

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03.07.09 em: Sexta

postO troco (pela moeda do tempo)

Raquel C. de Medeiros

 

2002

 

E você vai por ali que eu bem sei, cruzar a esquina da alegria fácil, que inflará suas noites tornando-as gigantes para o seu mundinho. E as mulheres lá são bonitas, risonhas, matematicamente gostosas e possuem a alma encanada com o seu copo de uísque. E você não vai deixar de espiar a tenda da euforia, construída com o tempo desperdiçado pelos sentimentos postiços, que te encantará, eu bem sei. É de lá que você avistará uma rua iluminada, espessa, sem nome- mistério este que lhe fará seguir em frente. E serão muitas festas, lorotas, olhares vagos, amores enfronhados e variedade de temperos, de objetos, de luzes. Sabores. A moeda lá é o tempo, ninguém está interessado em dinheiro, mas nos seus segundos baratos, que você desvalorizará trocando-os compulsivamente por horas marcadas com a ilusão. E, sem gastar dinheiro, você ficará rico, depois milionário. Um dia, quando o fio de alguma festa se romper e o som parar, você vai caminhar até o fim da rua. Se o tempo, que agora lhe falta, não tiver prejudicado sua visão, verás que a rua não tem saída. Para viver novas experiências, terás que voltar tudo. Mas talvez lhe falte tempo para isso.

 

2009

A poesia da minha vida não está mais apenas em você. A poesia da minha vida, corajosa e livre, ganhou o mundo: toda terra lhe é fértil, sem precisar da sua luz. Ela agora dá rimas maduras em todas as estações, em solos úmidos, em asfaltos quentes. Em bocas imperfeitas. Ela brota vibrante de qualquer céu, de qualquer estrela esquecida. E desce sempre cadente, deixando-me prosa, orgulhosa. Também sabe a hora de encerrar, nem um verso a mais, nem um carinho a menos. Lânguida e sábia. É padroeira dos meus dias, ela, que escorre pelo rio da minha garganta e recita todos os meus dias, como sempre sonhei. Tem a voz mais linda desse mundo e escolhe sempre a palavra certa, o mesmo fascínio e desprezo pelas formas. Intensa e trovadora, a minha poesia. Criou um soneto para dizer que somos de outra espécie, mas isso é segredo nosso. As velas todas se acendem sozinhas quando improvisa um poema. As palavras dançam e reproduzem-se. Os versos às vezes viram música e encantam cobras, flores, ervas-daninhas, você. A poesia da minha vida não está mais apenas em você, mas quando ela te rodeia, seus versos ficam imbatíveis e não há nada que eu possa fazer.

 

PS: Perdoem se o tema me escapou. Tentei.

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02.07.09 em: Quinta

postGuarujara

Aline Leal

Me mudei pra cá depois da enchente do Rio Guarujara, quando os povos ribeirinhos ganharam casa do governo na capital e passaram a prestar serviços para a elite de lá. Antes, era eu que morava na capital, era advogado recém-formado e ia ser efetivado num escritório de direito tributário. Vim pra cá justamente quando eles foram pra lá, suas casas haviam sido destruídas quando o rio subiu alguns metros no verão e eles ficaram traumatizados e loucos para serem remanejados para um lugar bem longe da margem de um rio.

Então, eu me mudei pra cá. Sozinho mesmo, e sem nenhuma licença do governo, apenas me apossei de um barracão e fiz dele minha casa. Fui recolhendo aqui e ali algum móvel deixado para trás: uma cama com um colchão velho, porém muito macio, com uma tábua de madeira e uns pedaços de pau fiz eu mesmo uma mesa, arrumei duas cadeiras e objetos para o dia a dia, como talheres, copos, panela e um facão que costumo usar preso à cintura, como hábito, não por necessidade.

Aqui tem peixe em abundância e uma ou duas vezes por mês algum pai de família vem comprar uma boa quantidade da minha pescaria para levar à sua casa. Eu, por vez, vou à capital o mínimo necessário quando preciso comprar um quilo de arroz e feijão e um litro de cachaça, porque a água aqui do rio é potável e há frutas docinhas para colher no pé.

Há mais ou menos um ano uma jornalista veio fazer um documentário sobre o único homem que vivia no Guarujara, apaixonou-se por mim e pelo meu estilo de vida e resolveu mudar-se para cá e viver comigo. Formamos um casal legal e eu lhe passei algumas tarefas de mulher que ela faz com gosto, é verdade que às vezes reclama, mas eu tenho sempre a orientação certa que faz com que ela entenda o valor de cada trabalho. É uns vinte anos mais nova que eu e sei que gosta de me ouvir discorrer sobre as coisas da vida, do homem e da sociedade.

Aqui não preciso de dinheiro como os homens da capital precisam e passa longe de mim a ideia de acumular e gastar. É curioso lembrar como o dinheiro rege a vida do pessoal lá da capital enquanto aqui ele pouco tem a ver com a minha vida. Ás vezes, sento-me à margem do Guarujara com os olhos fixos nas águas que fluem em direção ao mar e o pensamento longe em uma pergunta: por que o homem tornou-se tão submisso?

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01.07.09 em: Quarta

postHoras

Tiana Maciel Ellwanger

Comprei chiclete e pipoca. Depois vinho e guitarra.
Comprei o fim da virgindade, mas a segunda vez foi melhor.
Também comprei relógio. E adiantei para não me atrasar.
 
Comprei farinha e pão na padaria de croissant, que mandei reformar. Comprei muito trabalho de João e Maria. Para servir. De Helena e Jacobina. Pra cozinhar. E de Ellen também.

Graças a eles, comprei, ditoso, horas e noites inteiras de Gisele.  Mas amei mesmo foi Gracinda, que nada pediu para eu comprar. Para ela, não comprei passagens pro Alasca ou Paris, nem mesmo pro Joá.

E agora, nessa cama, compro as horas da enfermeira, porque as minhas eu já não posso comprar.

xxxx

(final alternativo)
 
Mas amei mesmo foi Gracinda, que nada pediu para eu comprar. Para ela, comprei passagens pro Alasca, pra Paris, e também pro Joá.

E agora, no seu colo, acho que não tenho nada pra comprar.

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30.06.09 em: Terça

postEU ME VENDI

Luciene Braga

Eu me vendi. Ao dinheiro. Ao preço. Ao câmbio. À estabilidade. À imitação dos ricos. À inflação. Eu me vendi.

Era um segredo. Que também vendi.

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29.06.09 em: Segunda