Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postNa plateia…

Gazza

- Disfarça, vai – disse a morena, enquanto o namorado levantava, suavemente, o curto vestido. Por baixo, apenas a pele, doce, meiga, com os pelos arrepiados.
- Coisa deliciosa – sussurrava o namorado ao ouvido da mulher.
- Agora mete, devagar – pedia, imediatamente a morena, já à flor da pele.
- Mete com a música, vai. Assim, nesse suingue…

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28.08.09 em: Sexta

postLinda blefadora

Raquel C. de Medeiros

disfarce

Quando as estrelas de Ana são atiradas no chão, ela cria um céu literário para fazer brilhar a sua dor. E então pode novamente olhar para o alto e sorrir, ela, cujo maior talento é se esconder. Das indelicadezas, da solidão. O pique nunca está com essa moça porque é a dona da brincadeira. Sempre a procuram nos principais personagens, mas engana a todos e diverte-se, escondida onde ninguém aposta. Ana pode estar debaixo da saia rodada da voz secundária ou estendida sob a falta de pontuação de seus textos, é despontuada desde menina. E tem um jeitinho tão confiável que ninguém imagina: deixa pistas falsas entre as verdadeiras e leva todos aonde quer. Chegam a encostar em sua pele, a tatear seus pensamentos. Mas o pique ainda não está com Ana, a linda blefadora, como apelidou ele, o primeiro a descobrir as duas cores dos seus olhos. A ambigüidade dos escritores. Aquele que adivinha seus esconderijos e apaga a luz para garantir-lhe privacidade. E ficam se entreolhando na escuridão enquanto a leitura é eternizada nesse céu de colagens, onde as falsas estrelas são encontradas como se fossem preciosidades. Ela sorri, tão vulnerável e desprotegida como todos nós. E já não consegue disfarçar o medo de ser descoberta antes do ponto final.

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27.08.09 em: Quinta

postCiranda Disforme

Aline Leal

Gaga, é só uma bela corcunda.

Gasta corrente do gozo à cratera.

Erma, o olho fulmina e não cura.

Olho, viaduto, ensina e soterra.

 

Estou ofegante e entro na sala,

Vasta por dentro de um corpo enlatada,

Tornado, os ventos, as nuvens, em crase.

 

Zero o que há de mais vital no vivo

Vozes passadas a ferro e crivo

Não é dourada a áurea que levito.

 

Ao vivo, creio no que é absurdo.

Doída, espero roendo o abissal.

Tolhida uma anti-intelectual.

Passada uma só em presente múltiplo

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26.08.09 em: Quarta

postHomem invisível

Tiana Maciel Ellwanger

          Com o controle remoto, apagou as luzes da casa. Pegou o elevador e pediu ao motorista para deixá-lo ali, naquele apartamento no Leblon, onde quase todos os convidados o conheciam e o bajulavam. Não hoje.

          Subiu pelo elevador de serviço, foi à cozinha e cumprimentou os que serviriam, junto com ele, os mais de cem convidados que em algumas horas estariam sem limites. Para a alegria dos contratados, pediu para servir pouco e limpar o que fosse necessário. E assim fez durante a festa: distribuiu espumantes, ofereceu vinhos tintos e brancos e caros, pediu licença para recolher os cacos de vidro no chão, que aumentavam conforme subia o grau etílico dos dançantes.

          Não ser notado foi mais fácil do que esperava. Na primeira meia hora, andava de cabeça baixa, virava o rosto ao encher as taças. Mas logo percebeu que ninguém olhava para seu rosto, que a única atração para aqueles homens e mulheres bem vestidos era o que levava na bandeja. Sim, estava gostando da experiência mais do que imaginava.

          Foi em direção à varanda. Ouviu seu nome e tremendo, por um momento, parou de limpar o piso branco estampado de vinho tinto.

         ― Ele não vai durar muito tempo na presidência. É muito passional. Lembra do dia que tremia ao falar à equipe que haveria demissões? Foi patético.

          Lembrou daquele dia triste e a sensação foi a mesma quando deu a notícia para os funcionários que o acompanhavam há anos. A angústia com a lembrança misturava-se agora à raiva com o comentário que acabara de ouvir. Quis continuar a escutar, mas achou arriscado.

          Na cozinha, os garçons riam da mulher de vestido longo que rebolava até o chão ao som de “Só as cachorras”. Ficou ali mais alguns minutos e divertiu-se, silencioso, com a autenticidade com que já não estava acostumado.

          Na varanda, novamente, o assunto ainda era ele. Surpreendeu-se com a defesa da secretária que nunca tinha olhado nos olhos. “O Jorge preocupa-se com as pessoas, defende o que acha justo”, ela dizia. “O cara cobre a careca com o cabelo para o lado. Só na Segure Bem isso acontece”, ria o homem que tantas vezes o substituiu em reuniões. Todos gargalhavam, até a secretária sorria, enquanto ele passava a mão no pouco cabelo e continuava a ouvir.

          “Gosto do Jorge, mas ele tem medo de arriscar. Uma seguradora vive de riscos, de ousadia. Não pode ter um medroso no comando”, acrescentava a mulher que ele promovera mês passado. As palavras que ele disse a ela, quando lhe comunicou o novo cargo, vieram a sua mente: “Olha, eu gosto muito do seu estilo, acho que tem muito a acrescentar à Segure Bem. Mas evite impulsos, lembra aquele contrato que você defendeu com a Voe Mais? Teríamos falido e estaríamos enfrentando processos de centenas de famílias que perderam seus entes queridos. Mas acho que você tem potencial”. A lembrança do sorriso dela com o dobro do salário e o triplo do prestígio ao sair da sala de reuniões quase fez com que ele atirasse, agora, a vassoura em sua direção. Quase.

          Ao ser deixado em casa, acendeu as luzes com o controle remoto, jogou-se na cama convidativa, esticou a coluna e assumiu a careca. Nos próximos meses, pensou, demitiria os infiéis, passaria mais tempo com a mulher, olharia nos olhos da secretária e, sim, seria garçom nas noites vagas.

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25.08.09 em: Terça

postEntre Atos

Luciene Braga

- “Calma, meu bem, eu posso explicar…”, ele respondeu, pensando no que diria, ainda tonto.
- “Obviamente, foi um engano. Um recado na secretária eletrônica desmarcando tudo, porque ela descobriu que você era… casado”, ela completou, irônica, fingindo um equilíbrio que nem em sonho já teve. A voz ficava meio estridente e meio grossa, escapando do tom de estudada. Mas o uísque ajudou, enquanto esperava que ele chegasse, despreparado para o açoite.
- “Filha, essas mulheres são loucas. Você dá o telefone, e elas já ficam imaginando que é chance de casar. Ela é corretora de imóveis, faz tudo para fechar um negócio”, ele explicou, tentando contornar o estrago, desastrado.
- “Eu pensei que ela queria abrir um negócio contigo. Aliás, seu negócio nem anda tão bem assim, depois da crise. Isso explica o recado. Aliás, você já foi mais sofisticado. Levar fora via secretária eletrônica?”, alfinetou.
-” Agora vai me esculachar? Pensa o quê? Você fique sabendo que esta mulher fez tudo para me seduzir. E me exibia para as amigas como se eu fosse um troféu”, ele atacou, sem conter o alívio de humilhá-la. “Sim, você é uma corna tão corna que nem merece o segredo dos que fingem dignidade”, pensou, antes de falar. Mas não falou, enquanto tentava olhá-la nos olhos, mas ainda não conseguia driblar a rigidez do pescoço tenso.
- “Troféu? De campeonato de pelada de quinta!”, aproveitou e desdenhou, ainda assustada com a coragem dele de assumir a culpa, apesar da arrogância incompreensível.
E pensou como ele podia se exibir assim. Começou a ficar com um medo estranho. Estranho, porque já não se importava, mas deu a entender que sim.
- “Então, você admite”, ela grunhiu, manhosa.
- “Quer que eu filme para você se convencer?”, abusou, sentindo-se mais forte. Nào conseguia conter.
- “Agora você passou dos limites!”, ela berrou, correndo na direção dele.
- “Você nunca me viu passar dos limites!”, gritou ele, e saiu, batendo a porta e descendo a rua, tão decidido que, meia hora depois, andando em círculos viu que não estava nem um pouco decidido. Ao contrário, ele não sabia para onde ir, o que dizia sobre a mulher era verdade. A corretora de imóveis não quis mais atendê-lo porque ele a enganou, dizendo que era solteiro. Achou que seria mais bem atendido. Pretendia fazer uma surpresa para ela. Para provar que também podia ser romântico. A acusação o assustou, mexeu com ele, e ele não sabia o que tinha dado em sua cabeça para falar tantas inverdades e destruir o seu casamento com somente uma conversa. Resolveu voltar e dizer toda a verdade a ela. A situação toda até que serviu para que ele se desse conta da força que tinha, mesmo que forjada.
Entrou em casa, porque a porta estava destravada, e ouviu a voz da mulher, eufórica e lânguida, falando com alguém ao telefone. Perplexo, ele retomou o caminho da rua. Dentro da cabeça, ecoavam as palavras dela: “Querido, eu simplesmente não acreditei. Nem precisei fazer esforço. Ele saiu, pensando que era o mais cruel e vingativo dos maridos. Agora, vem aqui consolar a mulherzinha traída, vem…”

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24.08.09 em: Segunda