Gazza
Eu duvidei que pudesse ser feliz
E perdi as descobertas da infância
Eu duvidei que pudesse ser feliz
E me perdi entre questionamentos adolescentes
Eu duvidei que pudesse ser feliz
E me enterrei em mim mesmo
Eu duvidei que pudesse ser feliz
E não sei mais o que sou
Eu duvidei que pudesse amar
E perdi toda a minha pureza
01.05.09 em: Sexta
Raquel C. de Medeiros
Ela olha ao seu redor
e vê muitas mulheres a procura de um amor. Buscam aquilo que ela encontrou muito nova. Tudo aconteceu tão cedo que ela acha-se velha, bem mais velha do que essas mulheres que ainda procuram. Mas não: é apenas uma menina que tem o olhar dos oceanos distantes, o coração dos resguardados. A idade das chaleiras. Uma pérola, transformada em jóia quando ainda nem sabia bem qual era seu sonho: o mar ou o pescoço de uma mulher. E virou presente, destino natural dos muito belos. Dos preciosos. Mas às vezes olha com curiosidade essas mulheres que buscam um amor e pensa que poderia, talvez, encontrar uma felicidade desconhecida longe do aconchego do porta-jóias. Sempre a mesma música quando abrem sua caixinha, mas às vezes ela precisa do silêncio. Ou de alguma outra canção escolhida por ela. Pensa em La Vie en Rose e tem o impulso de dar sua vida a esse ritmo encantador, como seria?, suspira. Depois pondera, afinal, é uma velha para tal ousadia. Vinte e dois anos. Mas a idéia existe, a coragem existe, a saída também. E a dúvida que a violenta nas noites de insônia: deixaria de ser preciosa se se jogasse do colar? A queda a mataria? Nem lembra mais da sensação de rolar, descuidada, no chão, mas sabe que há dureza, há frio. Buracos. E sente receio de saltar, apesar da certeza de que precisa de desproteção para descobrir a órbita mais apropriada para o seu olhar. A vontade do abandono e o medo de não ser mais resgatada. Da solidão, que ela nem sabe o que é. Gostaria mesmo que tudo acontecesse num piscar de olhos, mas então encontra o olhar ameaçador e ao mesmo tempo doce daquele que consagrou sua preciosidade. O gosto familiar do velho amor. E também se depara com o desespero dessas mulheres que ainda não encontraram um coração aconchegante. Mas, afinal, o aconchego não a preenche. Não é assim tão diferente delas, conclui. E segue balançando-se no pescoço alheio, para não perder o impulso de a qualquer momento fechar os olhos e jogar-se em algum chão convidativo. Sem temer a dor.
Observação: Cuidados com a pérola
As pérolas têm que ser armazenadas separadamente das outras peças, envolvidas em tecido. Devem ser limpas com um pano úmido. Evite produtos químicos da casa, produtos para os cabelos, cosméticos e perfumes pois tiram o seu brilho brilho natural.
30.04.09 em: Quinta
Aline Leal
Ela pouco sabia dos seus sentimentos atuais e se perguntava como as pessoas podiam agir com a força de quem sai em defesa de um filho agredido. Vá em frente, lute por aquilo que você quer, pelos seus interesses. Mas quais seriam estes, afinal? E quanto custava escolher um destino que julgava tão alheio a si quanto uma ilusão de ótica. A vida, em sua juventude, mostrava-se ainda aberta a alguns caminhos, obscurecidos, no entanto, pela passividade de seus sentimentos. Mas o tempo corria e era preciso construir uma história; ainda que inevitavelmente frustrante, seria menos doloroso.
E a dúvida, manifesta em todos os campos de sua vida, atacava agora um ponto especialmente maltratado: o relacionamento amoroso. A crueza de seus sentimentos lhe permitira, uma vez, o êxtase da paixão: palpitante, sufocante, dolorosa. Podia-se dizer que tinha sido uma experiência feliz, mas depois de uma trajetória confusa de incompatibilidade com o outro, a coisa toda se dissolvera mais que tudo em arrependimento de suas atitudes. A conseqüência da insegurança de seus sentimentos e de sua vontade foi uma história não construída, uma semi-verdade, uma mescla de várias coisas que ficaram suspensas e que ela não sabia bem o que era, apenas que o resultado não lhe fora satisfatório e que ela não gostaria de repeti-lo.
Agora, ainda que o sentimento não a afligisse tanto da maneira que lhe era desejável, a reincidência de sua passividade chocava ao ponto da dor. O que valia a pena na vida: sentir ou não sentir; agir ou não agir? Parecia a ela que seria mais agradável reagir a um sentimento alheio, mas essa situação nunca lhe fora proposta e não parecia ajustável ao seu modo de viver, infelizmente. Mas o gesto da atitude parecia a iminência de um erro, e a decisão da imobilidade parecia o obstáculo para o progresso, desejado. Dúvida.
Assim, assumia uma idoneidade linear, que não empolgava. Não se tratava de não fazer questão, mas não arrumava força para lutar por aquilo que não tinha certeza. Então perdoava e não se manifestava, até que o sentimento se transformasse em estranheza e já não fosse possível comparti-lo. A ponte que seria necessária cruzar para chegar àquilo que nem sabia o que era que lhe fazia falta não era para ela um movimento natural. Mas, das dúvidas que a sufocavam até hoje seria necessário abrir uma fresta para a pouca certeza de que tinha.
29.04.09 em: Quarta
Tiana Maciel Ellwanger
Já fazia vinte minutos que Dalila contemplava o casarão, aos poucos erguido, a mando de Henrique Lage para a mulher, Gabriela Bezanzoni . O som das picaretas dos homens negros ao fender as pedras remetia à voz de Gabriela, a cantar Lua Branca. Ela merecia cada tijolo de Henrique. Encantava as almas das galerias do Theatro Municipal com a voz rosa cor-de-pele enrubescida. Sem nunca desrespeitá-lo com olhares. Aquele castelo tinha todas as características de um grande amor. Duradouro como o que nunca merecera.

Dalila e Gabriela estudaram juntas na adolescência e ambicionaram, durante cinco anos pelo menos, tornar-se mestras, a única maneira, pensavam, de não serem apenas como suas mães. Gabriela já adorava cantar, a música de Chiquinha Gonzaga e os clássicos de Chopin embalavam seu acordar e dormir, todos os dias, no cantarolar de sua mãe. Dalila, naquela época, pintava paisagens, só descobriria a escultura tempos depois. Pena terem perdido aquele laço uma com a outra, pensou antes de ser interrompida por uma voz grave, polida.
Por aqui sozinha, senhora Dalila?
Não sabia que mulheres não podiam andar sozinhas nas avenidas. Estás em 1923, barão. Os tempos são outros, o senhor, tenho certeza, acompanha pelos jornais. Dalila entoava a voz com convencimento.
Infelizmente. E como vai o meu amigo Oswaldo?
Nos separamos.
O semblante do barão Belfort transformou-se de repente. Do sorriso curioso para o pavor, Dalila nunca tinha deparado com tal reação desde que começara a não esconder mais sua condição de mulher separada. Envergonhada, como diria Oswaldo e seu pai, se esse ainda vivesse.
Ele se perdeu no jogo e nos perfumes. Uma infeliz história. Mas agora passa bem, penso eu, tem a companhia da mãe em Vassouras, disse na tentativa de tentar acalmá-lo. Ele entendeu como justificativa embaraçada.
Achei estranho que não tenha ido com a senhora ao baile no Fluminense naquela noite, mas não imaginava esse drama, respondeu o barão depois da baforadada inquieta na cigarrilha.
E a sua esposa, como vai? Dalila demonstrava impaciência.
A senhora a conhece. Tem muitas opiniões e não gosta do rumo que a capital segue. Essas epidemias. Mas a convenci de desistir das aulas. Está um pouco angustiada, mas passa. Agora já não precisa deixar os filhos com as amas. Faça-nos uma visita com os teus. É certo que sua filha Iolanda e meu filho João formariam um belo casal.
São muito jovens para o amor. Mas teremos sim, depois da viagem. Mande lembranças à baronesa.
Ainda sobressaltado com o escândalo de que acabara de tomar conhecimento, o barão voltou a caminhar dentro de seu fato perfeitamente costurado e passado. Alguns passos depois, virou para novamente apreciar os belos braços de Dalila. O cloche cobria a maior parte do seu cabelo cor de petróleo, ‘a la garçonne’, e as costas brancas, nuas, exibiam sardas parecidas às das pernas daquela dançarina francesa de roupas sem moral. Parecia tão dedicada ao marido, mas não deve ter suportado a traição de que todos souberam e comentavam. Pelo menos o dinheiro de sua herança estava a salvo, na Bolsa. Pobre Oswaldo — tão talentoso com as leis –, agora na humilhação de ser deixado. E na casa da mãe! Espírito infantil em corpo de homem era Oswaldo.

De volta ao Catete, no crepúsculo alaranjado, Dalila dispensou a criada, arrumou as malas de Iolanda e Francisco e passou o batom carmim em formato de coração sem ponta. Antes de sair daquela casa para, quem sabe um dia voltar?, foi tomada pela incerteza, mais uma vez. Chorou ao se lembrar da, insuperável?, briga com Oswaldo, ele confirmou ter estado nos braços de outra, que ela nunca conheceria. Deveria ter lhe poupado daquela dor, sabia que não pensava como sua mãe e que a traição, se confirmada, seria devastadora. As lágrimas dele eram inúteis. E ainda a jogatina… A raiva secou a última gota de dúvida.
Abriu a revista Fon-Fon, apreciou o cardigã de Gloria Swanson para, em seguida, irritar-se com o conselho às leitoras: “Espera teu esposo com teu lar sempre em ordem e o semblante risonho: mas não te aflijas excessivamente se alguma vez ele não reparar nisso”.
Jogou a revista na cama, conferiu o endereço da amiga, também escultora, francesa e, com os filhos entusiasmados com o passeio para outra língua, foi até o porto. Adieu. Do navio, olhou para a Igreja da Glória, e prometeu nunca mais pôr os pés ali, onde se casara há uma década.
Oswaldo, quando soube da perda, pegou o trem em Vassouras, pediu a todas as pessoas influentes que conhecia que ajudassem a localizá-la, foi ao Consulado francês na avenida das Nações e implorou, quase de joelhos, que Antoine capturasse Dalila em Paris. O embaixador disse que não faria nada de ilegal, mas conseguiu para Oswaldo, após algumas cartas trocadas com amigos franceses, o endereço da ex-mulher. Oswaldo enviou bilhetes malcriados e amaldiçoados, depois pedidos de desculpas e, por fim, confissões de desespero. Todos os meses, por um ano. Dalila só respondeu uma vez.
Oswaldo,
Estou bem aqui e decerto ficarás bem aí. Iolanda e Francisco passam bem também, apesar de tu por eles não ter perguntado. Falam francês com facilidade. Os parisienses gostam das minhas esculturas, chamam de contraponto a essa arte que surge, derretida e geométrica. Dizem que meu molde é authentique, que sou um talento debaixo da linha do Equador. Não volto.
Jogou a carta longe. Enlouquecia com seu egoísmo, não suportava a idéia de cuidar sozinho da mãe e da casa vazia no Catete. Detestava o olhar de compaixão dos vizinhos. Atirou-se no jogo, com a certeza de que a Bolsa lhe proveria lucros mais altos a cada dia. O amor por Dalila aumentava com o passar dos anos, na mesma proporção que o amor por si mesmo deteriorava-se. Aos poucos, deixara de culpá-la, para creditar o destino cruel a seus próprios erros. Passados cinco anos, naquele bendito 1929, com cada vez menos vida no corpo cansado das noites no cassino do Grand Hotel, Oswaldo viu suas ações virarem papéis sem valor na Bolsa. Era a crise, nos jornais e nas ruas. A exportadora em que trabalhava fechou as portas, do dia para a noite, e nem seu tio foi poupado. Os cassinos, agora, recusavam-lhe a presença, chegou a ser expulso por desvario. As ameaças dos agiotas eram cada vez mais aterrorizantes. Sua mãe fora tomada pela febre para morrer de delírio em poucos dias.
Depois do enterro da mãe, com o desespero que pouco transparecia, mas sugava — em dias — anos de sua vida, deitou na cama, no lugar onde Dalila virava de bruços antes de dormir, e quis morrer. Desejou acabar durante o sono. Viveu da mais pura letargia por três dias e noites inteiros. Acordou e viu Dalila, a secar seu suor com o lenço bordado. Chorou de felicidade, a única naquele mundo destroçado. Com o amor (que Dalila voltou a sentir quando a raiva foi substituída pela misericórdia, e que Oswaldo aprendeu a ofertar com a longa ausência da esposa), superariam a Depressão.
28.04.09 em: Terça
Luciene Braga
Ele virou as costas e se foi, depois de acariciar o rosto dela com um afago que ela queria e não permitiria que acabasse.
Saiu pela porta da frente calmamente, enquanto as pernas dela tremiam, mas ela nem notava. Nunca seu olhar foi tão fixo e perdido.
Ele bateu com as mãos fechadas na porta do elevador e até se esqueceu da câmera. Imediatamente transbordou a fúria que jamais deixaria que ela visse. Chorou de tremer nariz, corpo todo e as profundezas da alma dócil de criança, até tapar a boca para não urrar feito animal na jaula. Quando a porta do elevador abriu, suspirou, porque achou que morreria sem ar.
Ela quebrou o telefone com um arremesso olímpico (anos depois, orgulhou-se disso) e só não xingou porque queria uma palavra melhor para levar no espírito ao entrar no quarto e lavar o rosto diante do espelho. Olhar-se virou tarefa estranha. Tentava acompanhar a transformação do rosto para se dizer aquela, mas era duro não ter mais os olhos com brilho.
Ele pisou na rua movimentada de sábado e jurava encontrar chuva, mas o sol queimava anos solares.
Ela titubeou diante da porta. Dura.
Ele corou ao pensar em voltar atrás. Mordeu as falanges da mão, com gosto salgado.
Ela se doeu e caiu no chão do corredor, por onde, de fato, já correra, lembrava-se, dele ou atrás dele, em brincadeira secreta de crianças.
Ele titubeou diante da poça. Sentiria falta do jornaleiro.
Ela abraçou as pernas e mordeu os joelhos. Salgados.
Ele entrou no carro e ligou o rádio. Dolby.
Ela tomou um banho e se perguntou se algum dia deixaria de sentir aquela dor. Alívio.
Ele questionou se um dia voltaria a falar. Tossiu.
Não mudaram de cidade, mas ela havia mudado completamente.
Ela guarda um cartão. Ele, um isqueiro.
Não havia dúvida que não eram feitos um para o outro.
O amor. Não sabem aonde foi pirar.
Um dia, uma cartomante tocou no assunto. Não fosse por isso, ele nem se lembraria. Mas resolveu ligar para ela e contar. Ela estava no teatro e marcou com ele na pizzaria em frente. Estranhou estar tão disponível. Sorte? Azar? Brincadeira? Gincana? Punheta? Arte? Palpite? Euforia? Drogas? Ousadia????
Quando se viram, duvidaram.
27.04.09 em: Segunda