Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postEsse não…*

Gazza

 
Clara vivia à flor da pele, entre desejos e fantasias. Um pensamento livre, libertino, como suas amigas mais íntimas costumavam definir nas conversas a sós. Adorava uma sacanagem. Dizia sempre às amigas que putaria era mesmo com ela. Sem piedade. A cama ou qualquer lugar que servisse de cenário para uma transa era seu imaginário, seu mundo. Clara, no país da fantasia, seu roteiro de vida. As amigas, mais que acostumadas – muitas adeptas de sua filosofia – se divertiam com as histórias dela. Toda quinta-feira, as mesas velhas do boteco do seu Elias, na tradicional e moralista Tijuca dos dias atuais, eram o palco da jovem estudante de Direito.
Bonita, gostosa daquelas de curvas perfeitas, a pele lisa e morena, Clara vivia no imaginário da rapaziada. Despertava olhares por onde passava. Sabia disso. E adorava. Na praia ou na piscina, o biquíni era o mais provocante, mas na medida certa. Nada de vulgaridade. A putaria, como sempre, era mesmo reservada às horas quentes da vida. E como as desejava.
Era uma quinta-feira de janeiro, em pleno verão carioca. Clara e as fiéis amigas tomavam uma mesa do boteco do seu Elias. Era dia de por as conversas em dia. As mais picantes, claro.
- Não quero bagunça no meu boteco – resmungava, mais uma vez, o velho Elias.
Não tinha jeito. O dono do bar já sabia: como todas as quintas-feiras, a mulherada iria soltar o verbo.
Naquela noite, Clara estava com um desejo incontrolável de transar. As palavras e histórias das amigas disparavam sua imaginação. Mas era um desejo diferente aquele.
- Eu quero gozar muito hoje. Mas quero com dois vibradores, daqueles poderosos – disparou a jovem, de repente, diante de olhares surpresos das amigas. – Mas eu tenho um problema: só tenho um vibrador. Então, vamos terminar essa noite num sex shop – perguntou Clara, para mais surpresa ainda na mesa.
Conversa vai, conversa vem, todas foram parar numa daquelas lojinhas pervertidas. Olha daqui, olha dali. Milhões de perguntas à atendente sobre os aparelhinhos. E muita indecisão.
- Acho que vou levar este – dizia, com um olhar arregalado para o vibrador e a imaginação a mil. – Não, acho que esse é melhor. Ou aquele ali.
Clara não se decidia, apesar de toda a vontade que tomava seu corpo. De repente, ela olha fixamente para uma patreleira fixada na parede e decide:
- Eu quero aquele lá. Esse mesmo, enorme, grosso e todo vermelho.
A atendente, espantada, responde.
- Querida, aquele ali é o nosso extintor de incêndio…
 
* Baseado em uma piada popular.

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05.06.09 em: Sexta

postValsinha número dois

Raquel C. de Medeiros

 

 

Eu não sei dançar tão devagar, mas tenho tanta graça nos olhos que você se distrai e acredita no meu balanço. Essa esperança me comove, sabe, e vejo-me aprendendo a bailar no seu ritmo, que já quase é o meu. Mas esse quase assola os meus sentidos, então não deixo de pensar ‘E o que a gente faz quando é escolhida antes de escolher?’. Sabe, escolheram o meu nome, escolheram a minha escola, escolheram o meu país. A cor dos meus olhos. Mas eles às vezes mudam de tom e isso deve ser algum movimento meu. Também somos o que não escolhemos, me diz o professor de literatura, e por que, de repente eu me encantei com ele? É tão entusiasmado pela vida, fala com tanta vontade, que me contagia: há tempos escolhi o caminho da alegria, você sabia que é assim, uma escolha? Então suspiro com essa escolha em comum, essa disposição para brincar e não se levar tão a sério. Danço devagar com você, sonho com os discursos dele, escrevo umas besteiras com aura poética e fico feliz. Escolhi a beleza, a fé e a inspiração, sou sortuda porque sei escolher. Não escolho a hora de acordar, é verdade, mas isso não diminui a minha alegria. Afogo o despertador no mel e abro um sorriso para o dia, que deseja ardentemente os meus passos. Então piso firme, confiante nesse caminho que vai se configurando de acordo com as minhas escolhas. Eu não sei dançar tão devagar, mas a valsinha dos amores contrariados é tão vibrantemente linda que me deixo ser seduzida por sua melancolia. Ou isto ou aquilo?, a pergunta martela e continuo a valsar, agora sozinha, frágil como uma criança que ainda não sabe dizer o que está sentindo. Que se desequilibra e cai e chora e precisa ser mimada. Mas, apesar da imaturidade, não deixo de pensar: por que mesmo você me escolheu, heim?

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04.06.09 em: Quinta

postQuanto vale

Aline Leal

Escrever dá trabalho. Escrever dá um trabalhão danado! A gente fica aqui um tempão em frente à tela branca do computador e esse maldito tracinho piscando na vertical como se cronometrasse os segundos para a minha derrota. Bandeira branca, amor – eu me rendo!

Nada daquele glamour que eu imaginava dos grandes autores dos grandes clássicos. Aliás, para que me dar ao trabalho, eu nunca poderei superá-los e sinto até vergonha. A criação literária poderia ter sido interrompida no século passado que não perderíamos nada, nada! Pelo contrário, daríamos mais atenção ao que realmente tem valor.

Mas não, nós os humanos, nós os seres racionais fazemos questão de deixar a nossa marca no mundo, de jogar um holofote sobre nós mesmos. Como se disséssemos: olha pra mim, mamãe, eu sou um ser muito especial! Cresçam crianças! E ganhem um pouco de senso do ridículo!

Confesso que no meu caso, como no de muitos, escolhi ser escritor para aumentar minha moral com as mulheres. Que erro, como estive equivocado neste mundo de Deus! Vejam vocês o poema de amor que escrevi para Bárbara, aquela que pensei ser a mulher da minha vida, que piada:

Barbarazinha, se você não me amar,
ou eu te mato, ou eu vou me matar

A ingrata não enxergou a metáfora e achou que eu era algum tipo de psicopata. Isso é o que se chama de incompreensão artística! Será que ela achou que eu seria mesmo capaz de morrer ou matar por ela? Minha vida pode valer pouco, mas eu estava era fazendo um charminho literário.

Já não nos resta mais nada. Dinheiro? Nunca tive essa ilusão. Glamour? Só se houver algum encanto em ser mal-sucedido. Liberdade? Escritores são prisioneiros si mesmos. Mulheres? Estas estão fugindo de nós. Será que é tarde demais para escolher ser médico?

E os finais? Já nos roubaram todos os finais possíveis. Eu não posso mais matar o meu protagonista no final. Ele se suicidar é ridículo de tão óbvio. Casar? Só se eu acrescentar um posfácio explicando que eles se separaram depois. E então há aqueles finais pseudoalternativos:

Ele parou de escrever e sentiu sobre si todo o peso de suas escolhas. Sabendo que elas formavam aquilo que ele era hoje e que, por mais desastrosas que pudessem lhe parecer, foram a única saída que encontrou para o mundo em que viveu. Mudar? Seria possível para frente, conquanto o desejo fosse consciente e verdadeiro, sem esquecer a inconsistência de escaparmos de nós mesmos.

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03.06.09 em: Quarta

postMarílias, vestidos e mães

Tiana Maciel Ellwanger

vestido_vermelho_com_strass_na_lapelaO mais importante de tudo não é o
que fizeram de você, mas o
que você vai fazer com o
que fizeram de você.
(Jean Paul Sartre)

Meia hora em frente ao roupeiro e Marília escolheu o vestido vermelho que valorizava sua cintura fina. Depois do que ouvira de Jorge (o amigo que, por estudar moda, sempre criticava suas roupas baratas) no dia anterior – vulgar desse jeito, querida, ele não vai te levar a sério – preferia, agora, não arriscar na sua chance de fazer Armínio esquecer sua ex-mulher de uma vez por todas.

Chegou à sua mesa, colocou o headset para PABX sem parar de pensar no chope do fim do dia, que seu coordenador azucrinante já descobrira e se convidara. Mas Armínio também estaria lá, dane-se o resto, pensou enquanto cumprimentava seu objeto de desejo com um sorriso seguro. O telefone já estava tocando.

Chove aí senhor? É por isso que o sinal não está pegando. Mas com o tempo melhorando, seu sinal estará voltando. Não, não, não depende de mim, senhor, o tempo.

Como odiava os dias de chuva em Passa-Quatro, onde os assinantes tinham malditas aulas de Direito do Cidadão na igreja e ligavam, ao mesmo tempo e tom, para a central de atendimento, que ficava a centenas de quilômetros dali. Gerúndios e paciência acabaram com a chuva ao telefone, enfim.

Antes do bar, retocou o batom no espelho, fez o sinal da cruz e desceu pelo elevador. Em frente a Armínio, pediu o primeiro chope e achou ter impressionado com a conversa sobre manter a forma, riu e reclamou sobre os chatos da chuva e atendeu o telefonema da mãe. Minha filha, já te disse que não vai conquistá-lo bebendo desse jeito. Vem para casa. Eu errei tanto com seu pai, não queria que fizesse o mesmo.

Lamentou mais uma vez pela escolha da mãe: seu pai estava longe do que ela entendia como um parceiro ideal. Ela continuava a falar, mas Marília prestava atenção em Armínio na conversa com o coordenador, dizendo ter 80% de notas dez dadas pelos assinantes. Um recorde!

Felipe, que ela nem tinha notado, falava com Jorge sobre o filme que ela também tinha visto e achou aquele papo bem mais interessante. Foi ao banheiro e, puxando assunto com Jorge, sentiu os olhos de Felipe percorrerem seu corpo. Antes de se despedir, Armínio a convidou para jantar naquele restaurante de Botafogo no sábado. Ela aceitou.

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vestido-verde

Depois de meia hora em frente ao espelho, Marília decidiu-se pelo comportado e informativo vestido verde: sóbrio, bonito e caro, disse sorrindo com a boca pintada de gloss cor de boca.

Na vinícola, abriu de novo o sorriso porque era assim que tinha de ser, as aulas de aperfeiçoamento martelavam na sua cabeça. Aqui é a produção de vinhos kosher, linha da Casa Valduga voltada para os judeus. Rabinos fazem toda a produção, nossos enólogos apenas acompanham. É uma delícia, prove um pouco, disse para o jovem casal, as brincadeiras deles trouxeram lembranças de seus dias felizes na praia com Marcos.

Levou-os para a produção de espumantes. Esse é o brut, mais seco. As mulheres costumam gostar mais desse, o moscatel. Veja o que acha. Pediu licença e atendeu o telefonema da mãe.

Marcos ligou de novo, minha filha. Ele estava em prantos. Disse que não tinha a intenção de te machucar, que ficou com ciúmes e perdeu a cabeça. Seu pai também ficava com raiva às vezes, mas era um ótimo homem.

Desligou o telefone respirando fundo para não ser dominada pela raiva com a conformidade daquela escolha que a mãe fizera e, agora, queria fazer por ela. Voltou ao casal, falou mais sobre uvas e Brasil, ouviu sobre a superioridade argentina sem reclamar e passou o dia sem novas visitas, jogado paciência no celular.

Esperou por Aurélio na estrada, entrou na limousine que ele era pago para dirigir e foi à sequência de fondue em promoção às terças-feiras. Beijou Aurélio sem paixão, disse a sua mãe, no celular, que ficaria com quem quisesse e mentiu: Aurélio era encantador. Ele voltou a falar sobre casamento, Marília desconversou. Convidou-a para dormir em sua casa naquela noite. Ela aceitou.

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02.06.09 em: Terça

postA corte

Luciene Braga

Escolhia a roupa como quem não escolheu a origem. Revestia-se do que
representava poder. Estudou, derrubou filhos e filhas de papai em
humilhantes e pesadas seleções. Deixou cedo a casa para viver em
pensionato para conseguir o que queria. E não decepcionou a noosfera
dos revanchistas sociais.
Naquele dia, mordeu o lábio, porque não era uma audiência qualquer. O
caso do filicida atraiu feito almoço grátis a turba da
imprensa. Compreensível. O réu era um digno representante da classe
média alta. Já havia julgado outros crimes piores, que não saíram das
pastas do tribunal para os jornais. Mortes silenciosas em áreas que
gente sortuda nunca esteve. Fosse o seu caso, décadas atrás, o
resultado não seria diferente.
Morria ao supor que levantassem o seu perfil, sua origem, sua mãe, que
tratara de extraditar para a pequena Onorina, no interior. Vivia lá em
cidade, sem satélite, mas com a despensa cheia. Pedido dela. Pensou na
polenta e planejou um dia visitar dona Maria da Luz. “Que perfil?
Aloou, maluca, amiga, hora de ir…”. Fechou a porta do armário e
admirou-se. O telefone tocou, deixou entrar a secretária eletrônica.
Sem hora para ligações inoportunas, bem quando o pensamento ficou
lotado.
O som do sapato alto abriu o suspense na sala de julgamento. Todos
miraram nela, que incorporou, feito cavalo em terreiro, a imagem da
decisão.
O teatro previa sequência de depoimentos, perguntas ostensivamente
elaboradas, apresentação de fotos e flashes em toda expressão do réu
que, sem chance até de trocar de cadeira, tentava virar ninguém.
“Covarde!”
“Vítima!”
“Um professor?”
“Culpado!”
“Água!”
“Cerveja!”
“Socorro!”
As luzes ofuscaram seus olhos, e ela, sem pensar, levantou-se. Ordenou
que os guardas retirassem as algemas do homem grisalho e, levando-o
pelo braço, seguiu até a rua. Ele, que já havia perdido até o direito
de escolher o banheiro, foi. Seguiram a pé, e mesmo a correria da
imprensa com seu aparato obsoleto não os impediu de entrar no carro
dela, com motorista, e chegar ao topo de uma montanha. Ela disse
apenas: “Vá”.
Uma batida do promotor que deu com os autos sobre a mesa, mania
cansativa da classe, a despertou. O homem continuava lá, entregue ao
passado, que os fatos, obviamente, levariam ao que pode haver de pior
na vida de cada alma penada incorporada. “Nem bandido merece a
prisão”, ela pensava. Horas de tédio e emoção produzida se passaram,
até que a plateia se encantasse com os detalhes do tribunal, e o homem
nem tão homem assim se fosse apagando aos poucos.
Foi cumprimentada e deu entrevistas, ao lado do perito que forneceu as
informações fundamentais para uma condenação inconteste. Retocou o
batom diversas vezes. As famílias estavam protegidas. Exemplar torto
controlado.
Pouco sabem que a paz não reinava. Ela enxergava isso. Na agenda.
À noite, ao chegar em casa, exausta, ela se livrou das grifes, acendeu
um cigarro, debruçou-se sobre a janela do andar alto e entendeu que
havia escolhido uma vida correta, sem mácula e digna. Admirável.
Poderiam, sim, publicar um perfil seu. Antes que enlouquecesse.

Ligou a televisão.

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01.06.09 em: Segunda