Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postA vida em 72 horas

Gazza

- Foram três dias, Lígia Selma! Três dias!
- Eu disse que demorava, Antonio Carlos. Eu disse.
- Mas três dias!!!

Antonio Carlos estava desolado, inconsolável. Nunca havia passado por situação tão humilhante na vida. Nem mesmo menino, quando era obrigado pela mãe a vender balas nos sinais de trânsito de uma grande metrópole. Está certo que a vida não havia melhorado muito desde aquela época. Mas na cabeça de Antonio Carlos, ladrilheiro de uma empreiteira às voltas com escândalos envolvendo o uso de verba pública, aquela situação era inconcebível. Não se tratava do feito em si, pesava mais, no alma chovinista daquele operário , a espera. Os três dias que o lançaram à escuridão, à sombra do fracasso. Toinho, como Lígia Selma costumava chamá-lo, era calmo. Não perdia a cabeça por pouca coisa. Mas naquela noite algo havia mudado, de certa forma.

Sentado à beira da cama, chorava copiosamente. Pensava em medidas drásticas, descabidas para a pacata rotina que levava num barraco em Coqueiral, a maior favela da cidade. Repetia várias vezes à mulher, embalado por versos de Roberto Carlos, que rodava numa antiga vitrola.
- Três dias, Lígia Selma!!

A mulher, sempre meiga e atenciosa, já não sabia mais o que dizer. Havia tentado de tudo para mudar a situação, sem sucesso. Chorava copiosamente, enquanto observava Toinho com a alma arrastada no chão. Em desespero, levantou da cama, caminhou até o banheiro, do lado de fora do pequeno casebre. O corpo nu, sob uma velha camisola, chorava como uma criança perdida. Foram 15 minutos até retornar à casa.

- Meu Deus, Toinho, o que você fez? Eu disse, eu disse a você – berrava Lígia Selma, diante do corpo do marido, pendurado, ainda balançando. Em volta do pescoço do pedreiro, uma calcinha da mulher enrolada, retorcida pela força da morte. Toinho não havia superado a humilhação.

- Eu avisei, meu Deus! Eu disse que demorava a gozar…Eu disse que demorava a gozar…

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06.03.09 em: Sexta

postO Porvir

Raquel C. de Medeiros

Eu corro, Zoé, para fugir da angústia de esperar parado. A minha vida ficou lenta de repente, sabe, como se os acontecimentos se desacelerassem e tudo ficasse mais distante. Eu quero dizer os meus sonhos, Zoé, eu vivo um tempo em que as minhas vontades parecem inalcansáveis.Você já sentiu isso?

Nem faz tanto tempo assim que a minha vida parou mas eu sinto uma pontada violenta rasgando o meu íntimo, como se eu não fosse mais conseguir sair desse lugar entediante. Parece que eu cheguei à eternidade e que já conquistei tudo de importante que me fora reservado. Sinto-me impotente, pequeno, os meus sentidos não mais me abrem os jardins secretos da minha imaginação. É como seu eu tivesse entrado no meu destino e não tivesse mais autonomia para abrir as portas que o próprio trancou, você acredita em destino Zoé?

Então eu corro para não me deixar ser levado pelo destino, vai que ele não está de acordo com o que quero. Eu preciso escolher os meus caminhos, Zoé, mesmo que sejam completamente equivocados. O tempo fica muito nublado enquanto se espera e se eu fico parado essas incertezas me sufocam. Eu corro para não padecer nesse maldito limbo em que a vida me jogou. Eu corro para voar, Zoé.

Assim vou atrás do conhecimento, da distração, da risada farta, do amor. Dos momentos eleitos. Eu preciso sentir que sou um homem de pisada firme, de olhar reto e determinado, eu preciso saber que sou persistente e capaz. Enquanto corro, espero, Zoé. Assim evito atitudes precipitadas, sonhos distorcidos, minha avó dizia que saber esperar pelo momento certo nos deixa mais forte. Eu sou um homem que escuta a avó, Zoé.

Agora, se você pensa que eu espero por você, que eu escrevo para você, que eu ainda corro afobado em sua direção, você está enganada. Quando você me deixou, Zoé, a dor parecia mais profunda do que o tempo porque eu acreditava que nunca passaria. Eu tentava correr mas não tinha força Zoé, você havia me roubado a força. Os nossos detalhes, que eu tinha como tesouros, me puxavam para o chão e eu me arrastava para conseguir sobreviver. Agora eu penso em você apenas enquanto espero a inspiração. É na direção dela que eu corro, Zoé, é com ela que eu quero vencer a corrida. E quando esse dia chegar eu ganharei asas e voarei bem alto, voarei para o tempo das realizações, esse tempo brilhante que levita em alguma órbita dentro de mim.

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05.03.09 em: Quinta

postMiopia

Aline Leal

Desço as escadas do metrô com um objetivo, te reconheço entre os que voltam do trabalho pela estação da Carioca. A mesma roupa padrão dos executivos do centro do Rio, a estatura mediana e, no entanto, o meu radar te identifica, está alerta com a tua presença. Reconheço uma gordurinha lateral, o formato da tua cabeça, a espessura da tua pele, o teu cheiro que está na minha memória. Olho bem e, não é você.

Há meses te reconheço em outros homens. Vou a um restaurante e, lá te encontro, na fila para pesar o almoço. Te persigo pela praça da Cinelândia após reconhecer o movimento dos teus ombros enquanto ri. Te pego falando sozinho, te direi para não desenvolver essa mania louca da tua família; acho engraçado e, rio sozinha. Dou a meia-volta no Teatro Municipal.

A frustração interminável da coincidência que nos separa dói pela solidão da espera. Pelo reencontro, almoço sozinha e ando sozinha pela praça da Cinelândia. Uso roupas novas na esperança do fim da espera e, no desespero da expectativa, vivo quase que de forma suicida. E choro. Choro como se dois corações latejassem na minha garganta e a ferissem de sangue por dentro. Choro uma água quente que soluça e engasga de tanto desespero. Choro escondida, choro o choro mais doído que é pra dentro.

No ônibus para o centro, te reconheço sentado no banco à minha frente. Ouve música, está de gel no cabelo e eu penso: de onde tirou essa moda nova de passar gel no cabelo? O teu corpo é o molde perfeito para o meu corpo que te espera. Desço do ônibus dois pontos depois do meu. Corro, mas quando chego à plataforma, o metrô já fechou as portas, parte e te vejo em pé no último vagão que passa. Está de calça jeans, aquela calça jeans que acentua os teus quadris, engordou desde a última vez.

Calculo passar em frente à pilastra onde poderei abrir o meu choro escondido. É um lugar feliz e acolhedor como um pequeno banheiro. Espero o elevador vazio, saio por último da  sala e invento crises de alergia quando me pegam em um momento de choro desordeiro.

Com uma calma aparente, ando sozinha pela praça Tiradentes, mas o choro está a um fio, a espera de um lugar vazio. Você vem na minha direção, te reconheço com a roupa casual de sexta-feira. Chega perto de mim e diz, Anna? Os músculos rígidos que me ajudavam soltam-se e, perdidas, as lágrimas saem fartamente. Nervosa, digo, com raiva, que  saia já da minha frente, já da minha frente. Atrapalhada, saio correndo e com medo.

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04.03.09 em: Quarta

postPensamentos de Clarisse

Tiana Maciel Ellwanger

Foto de Fabiano Veneza

Foto de Fabiano Veneza

Não sabia por que, mas pensava no seu cão. Na sua espera eterna por comida, por água, por atenção. Não seria melhor viver assim, esperando? Já não vivia assim, mas de um jeito “consciente”? E pensou no livro que lera há duas semanas, ou mais. Em que havia um cão, que apenas era. Nada mais, estava sendo. Não era bem isso, mas não lembrava.

E o esquecimento, por um momento, a irritou. Já lera tanta coisa de Clarice. O nome que sua mãe escolhera fez com que ela se interessasse por Clarice. Apenas isso. Mas gostava do interesse. O nome que havia dado ao seu cão seria determinante como fora para ela? Que bobagem. E ser, era esperar? O que era ser? Seria esperar a morte? Ou lutar para tentar evitá-la a todo custo? Ou ir em busca do que dizem ser felicidade? Que besteira, esses pensamentos. Nada prático viria com eles.

Ser então seria resolver… É isso. Chega. Havia coisas mais importantes a fazer. Afinal, não era um cão. Triste e feliz por não ter de esperar, Clarisse foi lavar a louça do jantar que fizera no dia anterior. “Havia resolvido muito bem aquele jantar”, pensou.

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03.03.09 em: Terça

postNão, não e não

Luciene Braga

Nunca. Não espero.
Já exasperei.
O mundo que se estertore.
De feito, não há o que me traga mais irritação do que esperar.
A fome, o cigarro, a internet, o beijo, o casamento não marcado, e-mail, o jornal impresso, a conta, o depósito, seus braços que são meus.

Hoje mesmo falei com o espelho, comigo mesma, para não ter de, alucinadamente, falar com outro. Ah, quem diz que ouvem? Ouvem nada, rapaz.
Houve nada. Há o velho muro de Berlim, Gaza, há urnas violadas. A crise de tudo.
Violem, mas não me peçam para esperar.

Quero agora, quero já. Venha, beija-me e deita-me. O sexo que espera não dorme.
Que o sol todos os dias venha e finja que se apaga.
Acordo bobo que fizemos, porque a luz não nos faz deixar de fazer agora, o que se quer, o que se emana, o que se transforma em sorriso ventrico.

Existe sorriso maior que esse, irradiado? Há quem espere. Não recomendo. Sorriso não espera. Não. E ri, se espera.
Ah, amigões, amigões, amigões. Somos nada e tudo é aquilo que se prepara com a vontade adornada pela libido.
Doce pensar que não esperamos quando nos encontramos em redes prontas.

Ah. Não espero. Não, não e não. Enquanto escrevo, sanduíche. Vinho não espera, porque a taça já traçou metade da garrafa. Boa. Bom.
A espera e só para as coisas do mundo concreto. O resto finge esperar. Já testei e aposto com quem quiser. O mundo subjetivo não espera. Ou se basta ou detona, por pura impaciência.

Aqui, no coração, e imediato. No calor do papo virtual, já fiz sexo, amor e planos. Roquenroool puro.
Alguém quer mais que isso? Filhos.
Não esperem.

Porque não espero, intrometo-me.
E sabe que e assim filhos se elencam. E pressupõem sexo. Filhos são uma sacanagem. Por isso gostamos tanto. Ah, se…
Amigões, amigões e amigos, poetinha disse: `tenham filhos`.
Ah, tenham. Sexo e filhos.
Filhos também não esperam.

C`est all (uma garconete disse e entendi… embora não fosse para)
E o amor requer um som… Beach Boys! Yeah.
Saudades. Coisa de quem espera. Ou deixou mesmo de esperar.

Saindo do tema: sabiam que há um bar que adota a lei do livre mercado para o preço da cerveja ao longo da noite, com direito a demonstração do pregão até o fim da noite, com setinhas para baixo e setinhas para cima? Afe, só vendo…

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02.03.09 em: Segunda