Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postCaminhos…

Gazza

Eu me fiz de mim mesmo
Para ser o que sou
Sem ter sido
Sem ter podido
Sem ter pedido
Apenas seguido
Concebido em mim mesmo
Para depois me perder
Em todos os sentidos
Eu Caminho em mim mesmo
Sozinho
Onde estou, meus rumos
Seguros, em idas e vindas
Findas minha alma
E renasço

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16.10.09 em: Sexta

postMaria da Paz

Raquel C. de Medeiros

Lindo esse colar com as iniciais do seu nome.

O elogio, ouvido tantas vezes vida afora, foi a primeira lembrança que me veio a cabeça quando saí do mar e descobri o vazio em meu pescoço. Senti um arrepio infantil percorrendo o meu corpo e voltei para a água gelada, num desespero de menina, a procura da minha jóia. Era como se eu tivesse perdido páginas do livro que escrevo há anos. Era como se eu tivesse que recomeçar.

Pedi ajuda a desconhecidos que estavam próximos, sem conseguir conter o desalento de ter perdido o meu colar. Logo eu, tão desprendida das coisas materiais, que sempre preguei o desapego, estava ali, desolada com aquela perda.

É um colar com as iniciais do meu nome – eu dizia aos banhistas.

Uma senhora, comovida com a minha esperança, juntou-se a mim naquela busca.

- É muito antigo, sabe? Ganhei ainda era uma menina – eu disse, entre uma marola e outra que batia em nossos pés.

- A gente perde umas coisas e ganha outras – ela disse, tentando me consolar – Mas pode ser que a correnteza o traga de volta.

- Era de ouro? – perguntou.

- Sim, mas não é por isso que estou triste. Ganhei do meu pai quando completei oito anos. Foi a primeira vez que senti na pele o que seria ser uma mulher, compreende?

Olhando para o mar, lembrei-me daquela primeira sensação que meu pai me proporcionou e senti-me tão menina quanto naquele tempo em que meu sonho era ser sorteadora de cartas.

- Sorteadora de cartas? – sorriu a senhora, que continuava a puxar conversa comigo.

- Sim – respondi, já sorrindo – Meu sonho era mergulhar naquele mar de papel, jogá-los para cima e escolher a que quisesse. Eu ficava assistindo aqueles sorteios nos programas de TV e imaginando como seria bom dar a notícia do ganhador.

- Que curioso… Você queria ser a dona da felicidade, não é? – tentou me distrair.

- É, acho que sim – eu disse, pulando mais uma marola.

E, lembrando do papai, mergulhei na espuma gelada mais uma vez. Eu queria me perder como o colar. Era como se meu pai tivesse morrido novamente.

 

Naquela noite sonhei com papai. Ele me dizia que meu colar tinha se transformado em um tesouro e que havia sido encontrado pelos moradores de Atlântida, um país no fundo do mar. Fora um acontecimento tão importante que esse dia agora era feriado no país. Vinte e um de outubro, dia de Maria da Paz.

- Senti-me tão feliz que foi como ganhar um novo colar – disse para minha terapeuta, Dra Alice B., depois de lhe contar a história e o sonho.

Ela anotava algumas coisas em seu caderninho listrado, quando se manifestou.

- Você vive no mundo da fantasia, né, Maria da Paz? É uma linda história, mas lembre-se que o mar não é doce. O mar é salgado.

- O que a senhora quer dizer, Dra Alice?

- Que suas perdas não vão virar motivo de feriado – disse, olhando para mim.

- Sabe, Dra Alice, as pessoas acham que eu sou de um jeito que não sou. Mas eu não acho que seja dissimulada.

- É uma forma de se proteger. Ainda assim você precisa tomar cuidado para não se afogar na própria poesia – advertiu.

- Minha poesia é rasa, doutora Alice- eu disse, sem certeza, só para contrariá-la.

- Então vai bater de cabeça – devolveu – Nenhuma poesia é inocente, moça- disse, anotando algo no caderninho que eu tinha loucura para bisbilhotar.

Olhou para mim, de repente, depois de coçar a cabeça.

- A partir de hoje vou chamá-la de Inessa, Maria da Paz. Eu já te falei que invento um nome para alguns de meus pacientes de acordo com suas necessidades psicológicas?

 

Inessa, pensava, enquanto decidia se ia ou não engolir aquela experiência insana da Dra Alice. Mas havia algo naquela mulher que me fazia ora gostar muito dela ora querer sair correndo gritando ‘louca’. No fundo, eu deixava aquela correnteza me levar na esperança de chegar ao encontro das águas, onde o doce e o salgado misturavam-se no meu nome.  Ali as minhas iniciais boiariam inocentes como o presente do meu pai.

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15.10.09 em: Quinta

postNasci,

Aline Leal

Saí do casulo

Me pegaram, deram por mim

Não que quisesse mas queria

Resisti

 

Que medo é esse

Que nem velha sentada

Observando passarinho

Pálpebras pesadas

Que vem de infância faminta

Para uma sem importância

com que lhes atinge

 

Sai borboleta madura

Viver a pouca vida que tem

Sai dessa gruta escura

Ardida no peito e garganta

 

E agora,

Bate a chuva e lava

O gargarejo de curvas e lacunas

Borbulhando a passagem dos fatos

Que só existem como versões

 

Racha a carcaça escura

Sobreposta em sítios arqueológicos

Da caverna em que se meteu

 

Não é mais lagarta

Já floresceu

Sai borboleta madura

Deste casulo que a contém

 ——————————————————————————————— 

Sou autêntica, insegura, desastrosa?

Todos me amam, odeiam, apatem?

Causo explosões, torções, prazeres?

Sou mosca-morta, descarga-arrancada, arroz-de-festa?

 

Ah, maldita face oposta no espelho

Que me faz projetar nome e filiação

Mas não resolve minhas questões mais profundas

Resta somente o desespero

O masoquismo, a punição

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14.10.09 em: Quarta

postPonto-de-vista

Tiana Maciel Ellwanger

― Quem é você?, ele perguntou, semblante sereno, sem interjeição.

― Como assim? Parece até que não me conhece.

― Sério mesmo, quem é você, como você responderia essa pergunta?

― Sou água, setenta por cento água, respondeu. Sorriso irônico. Células, órgãos, olhos, tato também, eu diria.

― Só isso?

― Baixinha e peituda. Boca larga. Gostosa, não acha?

― Deliciosa, continua, tô gostando desse papo.

― Sou filha de mineira com acreano. Sou trinta e cinco anos de experiências. Fortes e belas. Sou surra na infância, beijo adolescente, maturidade forçada. Ego ora forte, ora destroçado. Sou gerente de loja. Sou amor.

― Nossa. Mas…

―Ah! Sou também as aulas de Catequese. A renúncia, incertezas, são tantas. Sou indecisa. As buscas, isso, antes de tudo, sou o que busco, acho.

― Acha? O que quer dizer, sonhos?

―Eu até que sonho muito mesmo, sabia? Tenho esperança à beça. É bom, faz eu me mexer e continuar, seguir sorrindo. Dançando.

― Que mais?

― Nossa, o que deu em você?

― Curiosidade mesmo, só isso.

― Bom, sou, você também é, fruto da História, da queda do Muro de Berlim, da Revolução Francesa que mudou o rumo o Brasil, das plantações de café que trouxeram meu avô pro Rio. Sou pouco do que minha mãe quis que eu fosse. Também pela negação, eu me defino. Mas não seria eu sem os sonhos dela.

―Engraçado.

― Qual a graça?

― Nunca tinha pensado nisso.

― Ah! Quase ia esquecendo, sou o que ouço e o que leio também, meio Fagner, “espumas ao vento”, meio Pessoa, “amo como ama o amor”, meio “roque-roque” da Lygia. E os filmes, ah, as cenas… Mas eu queria mesmo é ser uma música, dessas que todo mundo dança.

― Você, hein, surpreende.

― Sabe o que penso do dinheiro, né? É a essência do trabalho e da nossa existência, essência que nos domina e nós a adoramos, infelizmente.

― Hein?

― Não lembra?

― Sim, sim, aquele papo de Marx, religião, ópio, você já disse, mas não luta contra, nem discute com quem pensa diferente. Lembra aquele papo com a…

― É, não sou corajosa, sou meio egoísta também. E preguiçosa. Cada vez mais quero minha vidinha com você, ir ao cinema, ficar abraçadinho assim.

― E nosso filho? Será que vai mudar o mundo?, perguntou com olhar distante enquanto alisava a barriga dela. Ele mexeu, sentiu? Mexeu!

― Senti, tem ciúmes de você. Tomara que não mude muito não. É sofrido demais.

― Você diz isso porque já não é tão jovem. É o seu ponto-de-vista.

― E existe outro? Tudo depende do ponto-de-vista e, amor, só posso falar do meu…

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13.10.09 em: Terça

postSuzana

Luciene Braga

“I am”, repetia, diante do espelho, como recomendara sua amiga, Suzana, que tinha uma pensão do Exército, herdada do pai. Mulher de poucos problemas visíveis, Suzana viajara o mundo, pelo Nepal e até em terras nórdicas, quando procurava raízes ciganas de sua família. Daí vinha outra herança provocante, a de vidente, que a deixava atormentada.

“I am”. Não adiantava. Nada do que contava Suzana funcionava nela. Via-se como uma desajustada, sempre apaixonada por homens casados, dona de empregos aviltantes e pouco dada à boa gastronomia. Dura, esqueceu de dizer. Mas sabia como pagar o cartão de crédito naquele mês. Suzana dizia: “Calma. Seus chacras estão desalinhados. Respire. Pare um pouco de correr e observe as suas energias”.

“I am”, insistia, trêmula, seguindo o conceito. Suzana parecia tão segura, com aquele sorriso calmo e cheia de filhos com filhos. Organizava festas, trocava de carro, gostava de carnaval e fazia artesanato por hobby. Sempre lia todos os livros best sellers e decorava frases inteiras. Ganhou do marido um convite para um espetáculo teatral internacional.

“I am”!!!!!, gritou e correu para pegar a sua bolsa. Melhor ir trabalhar e esquecer essa viadagem de mantra. Suzana é uma filhinha de papai que nunca acordou cedo para pegar trem ou trabalhar. Engoliu um comprimido novo, natural, segundo a médica, que dá energia. Foi-se, e só pensava na casa de praia de Suzana, decorada com objetos que ela trazia de suas muitas viagens. Nada mal ir para lá no fim de semana. Búzios. Está na moda, com a novela. Faz umas comprinhas, toma champagne e um pouco de sol. Quem sabe não encontra um gato por lá?

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12.10.09 em: Segunda