Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postSentidos…

Gazza

Euforia
Eu poria
Eu faria
Eu queria
Eu seria
Toda essa alegria
Do amor em alforria

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25.09.09 em: Sexta

postCanção da sorte

Raquel C. de Medeiros

Dont wait too long

     Estava cada vez mais longe daquela que ainda amava. A dor, insistente, parecia que não o abandonaria tão cedo, mas lá no fundo sabia que aquele era seu caminho. O caminho da paz. Da serenidade. No fundo sabia, mas ainda não se acostumara àquele novo mundo sem sua presença. Era como se tudo estivesse apagado e ele precisasse tatear os acontecimentos em busca de um fio de luz. Sentia vontade de ficar deitado eternamente porque sabia que levantar exigiria esforço. E, sem querer, ainda pensava em dividir com ela a cena engraçada do seriado. Os filmes que ainda entrariam em cartaz. Tentava livrar-se daquela melancolia quando uma voz o despertou.
     E foi como um encanto: sentiu o corpo esquentar, o coração bater disposto. Selvagem. Sometimes you got to lose it all, before you find your way. E os novos acontecimentos entravam quase realizados em seu pulmão gigante de dono do mundo. If you think that time will change your ways. Don’t wait too long.
     E ele já não tinha um só segundo para esperar. Estava vivendo menos do que podia e seu corpo, de repente, pedia inundações. Parem o mundo porque eu preciso subir, pensava, inquieto, os planos puxando sua alma para o lugar sagrado dos milagres. Os passos decididos quase afundavam o chão e puxavam a sorte, a sorte que vem fácil quando a pisada é firme. Take a chance, play your part, make romance, it might brake your heart. But if you think that time will change your ways. Don’t wait too long.

Naquela mesma noite já não tinha certeza se encontraria um caminho tão motivador.
Apagou o abajur antes que o desânimo roubasse sua sorte.
Talvez no dia seguinte nada daquilo fizesse mais sentido.
Mas tudo bem: já tinha feito.

Don’t wait too long
Madeleine Peyroux

You can cry a million tears
You can wait a million years
If you think that time will change your ways
Don’t wait too long

When your morning turns to night
Who’ll be loving you by candlelight
If you think that time will change your ways
Don’t wait too long

Maybe I got a lot to learn
Time can slip away
Sometimes you got to lose it all
Before you find your way

Take a chance, play your part
Make romance, it might brake your heart
But if you think that time will change your ways
Don’t wait too long

It may rain, it may shine
Love will age like fine red wine
But if you think that time will change your ways
Don’t wait too long

Maybe you and I got a lot to learn
Don’t waist another day
Maybe you got to lose it all
Before you find your way

Take a chance, play your part
Make romance, it might brake your heart
But if you think that time will change your ways
Don’t wait too long
Don’t wait
Hmm… Don’t wait

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24.09.09 em: Quinta

postMal-estar

Aline Leal

Eu tô passando mal.

Tome um comprimido.

Vai resolver?

Depende, o que você está sentindo?

Sou eu quem faz as perguntas.

O que você quer que eu faça?

Faz cafuné na minha cabeça até eu dormir.

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23.09.09 em: Quarta

postChuveiro

Tiana Maciel Ellwanger

Enchia a boca de água e espirrava na cara dele, que fingia defender-se. Ele fez o mesmo, usando da força para vingar-se como um profissional: água na cara até a respiração dela cessar. Engasgo e gargalhadas. Ela ria, querendo, mesmo que por segundos, ser mais forte e dominá-lo como uma judoca. Enchia então, levemente irritada e engraçada, a boca com a água do chuveiro, respirando fundo, para dessa vez não ser surpreendida com suas mãos grandes nas bochechas e outro engasgo atrapalhado. E quase conseguiu: mirou na testa e acertou na boca dele.

Ele superou as suas expectativas: pegou o chuveirinho e, certeiro, disparou em direção aos olhos, cor de mel e abertos, nada prontos para receber a ducha forte e gelada. Que doeu. E a dor deu força a ela: pegou o jato da mão dele e acertou no ouvido. Mais gargalhadas, dessa vez só dela.

- Que maldade, ele disse surpreso com a vingança.
- Maldade foi jogar água no meu olho, ela respondeu.
- Agora você vai ver o que é maldade, ameaçou.

E a colocou por cima dos ombros molhados, como um saco de batatas, em direção à cama. Ela fingia debater-se insinuando que não queria o que estava por vir. Vinte minutos depois, suspirava ainda tonta de prazer. Sorriso leve.

Tentava não soluçar no esforço de continuar escrevendo seu livro de memórias. Embaçadas pela saudade dos dias simples.

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22.09.09 em: Terça

postAmaralina

Luciene Braga

A palavra “euforia” tem a sua origem no grego, “euphoria”, e designa um estado de excitação plena, empolgação, alegria intensa, mesmo que não corresponda à realidade de quem o experimenta.
(Retirado de algum dicionário e publicado no blog do João Maria Andarilho Utópico)

Ouviu uma voz firme e de radialista: “Vendida para o cavalheiro da primeira fila”.
Em êxtase pleno, levantou e logo abraçou a mulher, a mais linda dentre as ofertadas ali, na cidade de homens. Homens que o invejavam. Colocou-a no colo, ovacionado pelos invejosos, e podia sentir o sangue pulsar, ouvir o barulho. Jogou o dinheiro no ar, em notas, e correu em direção ao quarto. Não trepava fazia um bom tempo, e aquela noite começou de uma revolta, de uma adrenalina irritante. Ganhou a indicação para uma promoção. Foi com amigos ao bar sabendo que venceria. Era seu dia de sorte. Seria o primeiro. Com a ajuda de uma pílula doce, teria farra pela qual empenhou um mês de salário. Faria valer. Ela, vendida, prometia. Safada. Agarrou uma banda da bunda e saiu, poderoso, sob o olhar de todos, excitados por aquela conquista que, afinal, era do coletivo.

Amaralina. Era o nome dela.
Passado a esquecer, vida a começar. Não era virgem, claro. O prefeito de sua cidade a inaugurara. Deu-lhe, agradecido, um par de peitos, com os quais ela correria mundo, fazendo fortunas com os dotes naturais e montados. Aos 19 anos, tinha jeito de menos, o que fez valer um tanto de noites de leilão da virgem tímida de cidade em cidade. Os homens não lhe davam trabalho. Eram tão afoitos e causados de álcool que o sexo, ah, falar de sexo com eles era elogio, acabava tão rápido que nem cansava. E os bem dotados, é claro, não se humilham em leilões. Para esse, e nem sabia o seu nome, resolveu adotar uma nova técnica. Pediu um tempo para preparar uma bebida. “Estou um pouco nervosa, é a minha primeira vez. As meninas me recomendaram umas doses de Martini. Quando viram que você venceu, disseram que eu poderia ficar machucada. Você me daria licença?”. Ele acenou que sim, com a cabeça. “Traga um pouco do mesmo para mim”, ele pediu, em tom de ordem, certo de que era quem mandava naquele quarto.

Amaralina voltou, sorridente, com as taças.

Ele se serviu, observando-a, louco para avançar sobre ela, sem se preocupar com a virgindade. “Safada”, pensou. “Abriu o decote”. Estava ficando mais bonita. A mulher era linda de dar vertigem. “Sou o cara”.

Tombou na primeira tentativa de se levantar. Amaralina pegou tudo o que ele tinha. Antes de sair, conferiu o conteúdo dentro das calças. “É. Não poderia desperdiçar meu tempo”. Beijou-o, deixou uma marca de batom comprometedora, e a calcinha lilás, que mostrara no palco. Seu parceiro, Wagner, a esperava dentro do carro, do outro lado da rua.

“Já?”
“Publicitário, meu amor. Toca para o aeroporto. Próxima parada: Montevideo. Tem muito brasileiro lá.”

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21.09.09 em: Segunda