Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postInacabado…

Gazza

Na medida do execesso
Um retrocesso
Nao há sucesso
Sossego
Apenas carrego
Transbordo
Me afogo
Todo esse excesso
Abscesso
Por um século
O mal comum
Do cotidiano carregado
Exasperado, açoitado
Sangrado nos rios
Da pele branca, negra, amarela, parda
Esticada, estancada
Das multicores da convivência inacabada
Da insistência de vocês
Excedidos, desmedidos
Tolos responsáveis
Quando tudo que se quer
É a medida do amor

[Post to Twitter]  [Post to Delicious]  [Post to Digg]  [Post to StumbleUpon] 

11.09.09 em: Sexta

postPequeno dicionário dos excessos

Raquel C. de Medeiros

A psicóloga Alice B. escuta pelo menos oito neuróticos por dia. Para exorcizar essa angústia, ela decidiu escrever o Pequeno Dicionário das Personalidades Excessivas, onde descreve tipos que exorbitam. Alice, às vezes, tem vontade de mandar um a um pastar, mas segue firme na missão de tentar melhorá-los. Ela diz que é caso perdido quem se identifica com mais de duas descrições deste pequeno dicionário. Os que aturam alguns desses tipos também não são perdoados: “é o medo da solidão”, sentencia Alice B.

Don quixote

 

 

Chato- Há aqueles disfarçados de príncipes ou princesas. Mas há também os que não escondem a chatice. O chato não tem o filtro do bom senso e você tem que se preparar antes de ligar para ele. É a versão humana do spam.

Dramático- É o egocêntrico que não admite ser menos do que o centro das atenções ou o recalcado que pode descontar em você a fúria de uma vida de erros ou desilusões (ui!). Os dramáticos são envolventes e precisam de muita atenção. Adoram discutir a relação (qualquer relação) e apontar os defeitos ou os vacilos dos outros. Falam muito de amor e usam muita exclamação.

Perua- Essa mulher tem tanta vergonha de revelar suas fragilidades, suas imperfeições, que prefere se esconder sob roupas, acessórios, marcas e muita maquiagem. Quando você encontra com uma perua, você olha para os seus brincos e não para os seus olhos.

Zen- É muito radicalismo (e chato, até) ser zen demais. A fúria, o grito e as vinganças existem para serem usados no lugar certo, na dose certa, no tempo certo.

Pessimista- O seu olhar denuncia: é opaco, sem brilho. Para ele, amanhã não será nunca outro dia. E não gosta de dançar.

Impulsivo- São bombas-humanas. A raiva os domina em um segundo e são capazes de tudo: palavras mal colocadas, agressões injustas, cobranças fora de tom. Não seguram nem o cocô.

Megalomaníaco- São tão loucos e divertidos quanto Don Quixote, mas quando você percebe que eles realmente estão falando sério sente vontade de interná-los.

Ciumento- Aquele que não sabe controlar o seu ciúme diz que é excesso de amor, mas isso é balela. Afaste-se dos muito ciumentos: o ciúme é contagioso e incurável.

Bonzinho- Eu aprendi com a vida que a gente deve ser bom, nunca bonzinho.

Metido- Sabe aquela pessoa para quem você já foi apresentado algumas vezes e sempre fala ‘muito prazer’, como se nunca tivesse te visto na vida?

Burro- Aquele que não gosta de aprender ou que acha que sabe tudo. Normalmente são arrogantes ou muito subservientes.

Narcisista- Está sempre tão preocupado em ser visto que não vê pra fora. Tem o porte de um pavão.

Mimado- Quando já passou dos quarenta não vai descobrir mais que o mundo não gira em torno dele.

Sarcástico- São muito inteligentes e muitas vezes sensacionais, mas quando não sabem dosar também são cansativos.

Espaçoso- Mexe na sua bolsa, abre as suas cartas e se convida para ir a sua casa exatamente assim: ‘você não me convida para ir a sua casa…’.

Intrometido- Ai, que preguiça desses.

Dicas da Dra Alice:

Segure o impulso de falar o que você pensa dos chatos e dos dramáticos. Seja doce e vá se afastando de fininho para não ser personagem da novela deles.

[Post to Twitter]  [Post to Delicious]  [Post to Digg]  [Post to StumbleUpon] 

10.09.09 em: Quinta

postNo carro

Aline Leal

No chão, a garrafa Martini Rosê virada

molhava o tapete de plástico

as suas 40 gotas finais

 

a carona choca nem se toca

e pega por lado canhota o cinto de segurar

 

a de trás faz contrações vaginais

estilo pompuar

 

 o seu par ereta

 a fina sensação de uretra,

 

a frente à direção interpreta

uma videogueimização do fato concreto

 

do lado tira a calcinha que engalfinha

na parte de trás

 

sabendo que ninguém olha afinal, escreve à saliva

no vidro de trás: fecal

 

calcula o alvo de seu aconchego

e joga a cabeça no colo movendo pro lado o rego

 

pro motorista, um hiato, é tudo um ato falho

entre realidade e simulacro

 

Não é papo, de fato,estão embriagados.

[Post to Twitter]  [Post to Delicious]  [Post to Digg]  [Post to StumbleUpon] 

09.09.09 em: Quarta

postEngarrafamento

Tiana Maciel Ellwanger

         Volta de feriado, engarrafamento, oportunidade. Atravessou a rua em direção à estrada. Passou pela alameda deserta que já conhecia, arrastando os pés para espantar as cobras que poderiam estar pelo caminho. Com água que não era de Teresópolis no isopor, andou por três quilômetros para parar no ponto que descobrira perfeito para fazer dinheiro em cima dos engarrafados. Entediados. Ali, onde as três pistas viravam duas e os carros empacavam, ele ficaria parado, corridinhas que não ultrapassariam 50 metros, ninguém querendo negociar o preço. A caminhada valia o esforço.

          A lua cheia subia e era refletida pelos tetos e capôs lentos, deixando os insetos confusos. Quando chegou ao ponto desejado, a velocidade dos carros, ônibus e caminhões era mais lenta que a do seu caminhar. Levantou a garrafa transparente mais gelada sobre a cabeça e, quando abria a boca para dar o primeiro grito de “Olha a Água!”, um sinal do Chevette vermelho o calou de satisfação. Foi a primeira venda das sessenta e sete águas não-minerais que despachou nos minutos seguintes. Respirou fundo, aliviado com o sucesso planejado.

          A volta para casa mais leve e rica e rápida abriu-lhe o sorriso na estrada, até que encontrou Dália, comendo um cachorro-quente com os irmãos em frente à Rua Dois. Estava linda, com a blusa de alça deixando parte de sua barriga bronzeada à mostra. Conferiu a carteira e pediu uma Bohemia, oferecendo um copo a ela. Os planos de voltar para casa cedo logo diluíram-se nos goles refrescantes e na companhia inesperada. Dália devia ter o dobro de sua idade e o triplo de sua experiência. Ela falava bem quando ele já não conseguia articular as palavras, desacostumado com a bebida e com as conquistas. No bar da saideira, beijaram-se, e o gosto gelado de sua boca o deixou tão esfuziante que ele nem ouviu as reclamações do pai, aos gritos, quando chegou em casa, umas três horas depois do previsto, com menos da metade do dinheiro prometido.

          Reclamações, berros, ameaças de surras e de expulsão de casa duraram, ainda bem, até o feriado seguinte, quando acrescentou água com gás e com limão às vendas, cobrando por elas R$ 1 a mais. E não se arrependeu por aquele excesso no feriado passado nem quando Dália recusou, irônica, seu pedido de namoro. Os planos, agora, seguiam numa direção: vender mais para, sim, cometer excessos que preenchiam a memória de lapsos de rotina. Oferecer amendoim aos entediados, pensou, não cairia mal no próximo engarrafamento.

[Post to Twitter]  [Post to Delicious]  [Post to Digg]  [Post to StumbleUpon] 

08.09.09 em: Terça

postA conta

Luciene Braga

Uma panariça contida. Pois não? Seria se conseguisse.

O pior que te conto é que tenho vontade de gritos psíquicos como os de uma novela antiga que me assombrou a infância, ao estilo de Jack Nicholson, em O Iluminado. Ah, fantasmas.

Gritos de vontades em uma série de mortes súbitas de vontades.

Pois bem, vivo a contenção.

Acredite como acredita naqueles homens que ameaçam no trânsito, nas mulheres de grifes, nas prateleiras de eletrônicos, nas leis impressas,  nas 1001 noites de sexo e aventura, nos bêbados de rua, na médium em transe e nos crentes das estações de metrô. E nas crianças pirracentas que somos quando não temos as vontades fornidas.

Vamos todos para o mesmo encontro.

 

Socorro.

A conta, por favor. Tenho terapia amanhã.

“Bebi tudo isso, seu garçom?”

[Post to Twitter]  [Post to Delicious]  [Post to Digg]  [Post to StumbleUpon] 

07.09.09 em: Segunda