Gazza
Seu olhar era devastador. Quase hipnotizante. Não mirava as coisas. Era preciso segui-lo para encontrá-lo. Sem esforço, eu fazia isso sempre quando o encontrava. Ele estava na mesma esquina, todos os dias. Justo no horário que eu passava em direção a minha medíocre rotina para o trabalho. Já havia tentado encontrá-lo em outro horário, mas nunca conseguira. Inúmeras tentativas frustradas. Aquilo me intrigava cada vez mais, principalmente pelo fascínio que aquele homem me exercia. Estava sempre maltrapilho, com o aspecto sujo. Companhia inseparável, um livro debaixo do braço. Grosso e velho. Era obssecada por aquela imagem. Ali, imponente, no meio de uma multidão em seu vai-vem apressado, entre rostos desconhecidos. Mas aquele olhar tinha algo revelador também. E nos enontrava como se conhecesse cada um de nós. Numa dessas manhãs cinzas – era, invariavelmente, como meus dias começavam – tentei me aproximar daquela figura. Em vão. Quando me aproximei, o homem havia sumido, do nada, entre centenas de pessoas. Cheguei no trabalho ainda mais intrigada, com meia dúzia de perguntas e, óbvio, sem respostas. Lembrei que Ana fazia o mesmo caminho que eu para chegar na firma.
- Ana, você sempre passa ali naquela esquina?
- Que esquina, Maria, que esquina?
- Essa esquina, onde fica aquele homem de cabelos longos, com um livro debaixo do braço, que mais parece um mendigo.
- Que velho, Maria? Eu nunca vi isso na minha vida.
- Mas ele está ali, todos os dias. Como você não o vê! É impossível não notar a presença desse homem!
Desisti da conversa com Ana. Não teria respostas, só aborrecimentos. Na manhã seguinte, decidi mais uma vez tentar me aproximar. Havia dormido mal, numa daquelas noites em que toda minha vida passava pela cabeça. Toda essa minha vida sem sentido, de frustrações diante do que via diariamente. A manhã havia chegada mais cinza do que o comum. Nunca soube se o cinza era dos meus olhos. Perguntava se o tempo não gostava de mim. Mas seguia. Era só isso que fazia mesmo. Seguir. Havia seguido 45 anos. Me arrumei, tomei meu amargo café de sempre. Sozinha. Sentia um grande desconforto no dia a dia. Era como se a minha presença não fizesse parte daqui. Parti, com a sensação de que aquela rotina se romperia.
Meu coração batia forte e acelerava cada metro que se aproximava daquela esquina. De longe, podia sentir a presença daquele homem e pensava como Ana nunca o havia visto. Nem sempre se quer enxergar, vai saber, né. Seguia, seguia. Um primeiro olhar o avistou. De imediato, começou a seguir o olhar dele, como todos os dias. Olhares cruzados, repentinamente apressei meu passo. Foi quando ouvi, num tom calmo, sobre o silêncio da multidão.
- Mãe, há um grande descompasso entre o mundo e o homem. Não demos certo.
Foi só, apenas essas palavras. Senti que minha vida havia mudado. Tudo passou a fazer um sentido. Nunca mais vi aquele homem. Desesperadamente o procurei, por dias e dias. Até parar naquela esquina, doutor. Até a passar a viver naquela esquina, doutor. E é por isso que hoje estou aqui.
- Eu preciso tomar esses remédios mais uma vez, doutor? - Assim, deitada na cama, sem poder me mexer?
Seu olhar era devastador. Quase hipnotizante. Não mirava as coisas. Era preciso segui-lo para encontrá-lo. Sem esforço, eu fazia isso sempre quando o encontrava. Ele estava na mesma esquina, todos os dias. Justo no horário que eu passava em direção a minha medíocre rotina para o trabalho. Já havia tentado encontrá-lo em outro horário, mas nunca conseguira. Inúmeras tentativas frustradas. Aquilo me intrigava cada vez mais, principalmente pelo fascínio que aquele homem me exercia. Estava sempre maltrapilho, com o aspecto sujo. Companhia inseparável, um livro debaixo do braço. Grosso e velho. Era obssecada por aquela imagem. Ali, imponente, no meio de uma multidão em seu vai-vem apressado, entre rostos desconhecidos. Mas aquele olhar tinha algo revelador também. E nos enontrava como se conhecesse cada um de nós. Numa dessas manhãs cinzas – era, invariavelmente, como meus dias começavam – tentei me aproximar daquela figura. Em vão. Quando me aproximei, o homem havia sumido, do nada, entre centenas de pessoas. Cheguei no trabalho ainda mais intrigada, com meia dúzia de perguntas e, óbvio, sem respostas. Lembrei que Ana fazia o mesmo caminho que eu para chegar na firma.
- Ana, você sempre passa ali naquela esquina?
- Que esquina, Maria, que esquina?
- Essa esquina, onde fica aquele homem de cabelos longos, com um livro debaixo do braço, que mais parece um mendigo.
- Que velho, Maria? Eu nunca vi isso na minha vida.
- Mas ele está ali, todos os dias. Como você não o vê! É impossível não notar a presença desse homem!
Desisti da conversa com Ana. Não teria respostas, só aborrecimentos. Na manhã seguinte, decidi mais uma vez tentar me aproximar. Havia dormido mal, numa daquelas noites em que toda minha vida passava pela cabeça. Toda essa minha vida sem sentido, de frustrações diante do que via diariamente. A manhã havia chegada mais cinza do que o comum. Nunca soube se o cinza era dos meus olhos. Perguntava se o tempo não gostava de mim. Mas seguia. Era só isso que fazia mesmo. Seguir. Havia seguido 45 anos. Me arrumei, tomei meu amargo café de sempre. Sozinha. Sentia um grande desconforto no dia a dia. Era como se a minha presença não fizesse parte daqui. Parti, com a sensação de que aquela rotina se romperia.
Meu coração batia forte e acelerava cada metro que se aproximava daquela esquina. De longe, podia sentir a presença daquele homem e pensava como Ana nunca o havia visto. Nem sempre se quer enxergar, vai saber, né. Seguia, seguia. Um primeiro olhar o avistou. De imediato, começou a seguir o olhar dele, como todos os dias. Olhares cruzados, repentinamente apressei meu passo. Foi quando ouvi, num tom calmo, sobre o silêncio da multidão.
- Mãe, há um grande descompasso entre o mundo e o homem. Não demos certo.
Foi só, apenas essas palavras. Senti que minha vida havia mudado. Tudo passou a fazer um sentido. Nunca mais vi aquele homem. Desesperadamente o procurei, por dias e dias. Até parar naquela esquina, doutor. Até a passar a viver naquela esquina, doutor. E é por isso que hoje estou aqui.
- Eu preciso tomar esses remédios mais uma vez, doutor? - Assim, deitada na cama, sem poder me mexer?
Chuva, cinza e um sensação de angústia. Foi asssim que começou minha quarta-feira. No trajeto entre o Cachambi e a Tijuca, feito quase que automaticamente pelo meu carro nos últimos meses, tudo parecia irremediavelmente turvo. A vida havia parado. Essa era a sensação mais forte. Estava ali, diante do volante, o rádio ligado, mas era como se viajasse por lugares desconhecidos, descoloridos…
Cheguei em casa, ainda pela manhã, como um passado perdido…Era como se não tivesse feito aquele trajeto tão real em minha vida…Não sabia o que pensar, por vezes… Queria mesmo estar dois dias atrás daquela quarta-feira cinzenta…Não dava, apesar de todo esforço…Entrei em casa e fui tomar um café, me preparar para o resto do dia, para o resto do que me restara…Pensava no amor em mim, na vida aberta um dia pelo destino…Era o que me sustentava naquelas horas que se seguiram…
Sol, azul e a felicidade…Já era quinta-feira, ainda manhã, e estava eu ali, fazendo aquele mesmo percurso da quarta-feira anterior…No meu carro, o som ligado, buzinas, veículos eloqüentes e pessoas passando naquele ritmo cotidiano da vida…Tudo ali era real…Pulsava…Como a vida em mim…Havia deixado meu amor na faculdade, seguia para casa, com o resto do dia a me esperar, um céu de sorrisos, nuvens de algodão, esparças…O tom do amor havia retornado, como no dia em que cruzei aquele olhar azul, tão imenso, tão revelador…Meu coração batia colorido, destemido, irradiante…
As cores da vida, meus olhos miram pelo coração…No meu coração, sempre você…
Todo início é um fim. Mas todo fim nos abre um começo. Fazemos a vida das extremidades, dos opostos, num equilíbrio constante, contínuo, quase que religioso. E nessa harmonia que a vida se faz, se expande, até um novo começo. Quando me pediram para escrever sobre o tema, confesso que achei chato, genérico demais talvez. Mas aí me ocorreu o de sempre: falar do amor. O episódio lá de cima é real, vivido por mim, há alguns meses, no início do meu casamento. Dois momentos opostos, extremidades do que sentia, em cada um deles.
Pois bem, como tudo parte de um ponto, expus essa pequena história para abrir outra maior. Foi numa tarde de um 1º de julho que meu par de olhos cruzou com aquele azul de imensidão eloquente. No meio da baldúrdia de uma redação, quase às vésperas do fechamento, o tempo parou. Sem cerimônia. Aquele olhar azulejado me revelava mais que a primeira vista de alguém nunca visto antes. Ao olhar, se seguiram poucas palavras.
- Conhece o caso Baronetti?
- Sim.
- Então, faz uma suíte para mim.
Mas sabia que ali, a vida mudava. Uma porta fechava, para outra se abrir. Aos poucos, aquela paralisia foi tomando forma, em novos encontros de olhares, em sabores, em cores, em palavras. Em descobertas íntimas. Na vida.
Destino se faz com o coração… Sempre…
P.S. Ah, mais tarde descobri que ela não sabia nada sobre o caso Baronetti. Mas como era a primeira vez na vida que pisava numa redação, deu seu jeito.
01.01.10 em: Sexta
Raquel C. de Medeiros
Roberto,
Outro dia ganhei uma maçã no meio da rua e me lembrei muito de você. Foi uma das maiores surpresas (e coincidências) dos últimos tempos: não é muito freqüente eu sentir vontade de comer maçã. E menos ainda ganhar uma no meio da rua (e no mesmo dia!). Mas a vida ainda surpreende, Roberto (graças a Deus!). É claro que fiquei rindo sozinha e tentando desvendar o simbolismo daquele acontecimento. A maçã, Roberto, estava embalada em uma caixinha de papelão e me foi entregue no sinal de trânsito por um rapaz contratado pelo horti-fruti que vai abrir perto da minha casa.
Roberto, você acredita que eu estava falando de maçã havia dois dias? Não é historinha não, falo sério. A maçã era pequena e quase indecente de tão apetitosa. Tive vontade de correr para casa e guardá-la, mas eu estava a caminho de um compromisso. Então tive que esperar.
Senti vontade de contar para todo mundo a história da maçã, como se algo muito extraordinário tivesse acontecido. Mas depois pensei que alguns não dariam a mínima importância para a história da minha maçã. Pensei em ligar para você, mas há tanto tempo a gente não se fala, né? Desisti porque não dá pra ligar para alguém que você não fala há um tempão e sair contando uma história dessas: é preciso todo um preâmbulo e eu queria mesmo ir direto ao assunto. Você poderia achar que estou ficando maluquinha, mas sei que teria gostado de me ouvir.
Enfim, Roberto, resolvi então ligar para a minha mãe e compartilhar essa história com ela, já que naquele mesmo dia eu havia manifestado o meu desejo de comer uma maçã. Mamãe compreendeu a minha euforia e também se impressionou com a coincidência mas não sei se foi além nos pensamentos como eu. Ou talvez tenha alcançado mas sabiamente se calou. Na minha família não se comenta algumas coisas. Acho que deve ser a última das últimas: hoje em dia todo mundo fala tudo, às vezes levo até susto com as intimidades reveladas ao redor da mesa, mas eu tenho a alma velha. Lembra, Roberto, da minha teoria sobre alma nova e alma velha? Você ficava pensativo e acabava embarcando na minha, eu percebia.
Mas finalmente cheguei em casa, Roberto, e pude curtir a minha maçã: tirei-a da caixa, lavei a fruta e admirei a sua beleza antes de guardá-la na geladeira. Coloquei-a bem exposta, dessa forma, quando eu abro a porta, ela está lá, lembrando-me do que essa vida é capaz. O mais estranho, Roberto, é que agora, que ela está ao meu alcance, eu não sinto vontade de comê-la. Segunda-feira comi os morangos, terça e quarta assei bananas. Hoje é dia de cerejas, Roberto, mas ando pensando em assar a maçã com canela e conhaque e oferecê-la para o meu amor. Seria uma espécie de ritual para que eu seja para sempre seu paraíso. Estou apaixonada, Roberto, calma e apaixonada. Apesar de você não ter me dado alta na terapia, sinto-me melhor do que nunca. Mas tenho saudade das nossas sessões, sempre tão profundas, Roberto. Você ainda é um dos poucos que me conhecem bem.
Com macieiras dentro de mim,
Lorena
Roberto,
Outro dia ganhei uma maçã no meio da rua e me lembrei muito de você. Foi uma das maiores surpresas (e coincidências) dos últimos tempos: não é muito freqüente eu sentir vontade de comer maçã. E menos ainda ganhar uma no meio da rua (e no mesmo dia!). Mas a vida ainda surpreende, Roberto (graças a Deus!). É claro que fiquei rindo sozinha e tentando desvendar o simbolismo daquele acontecimento. A maçã, Roberto, estava embalada em uma caixinha de papelão e me foi entregue no sinal de trânsito por um rapaz contratado pelo horti-fruti que vai abrir perto da minha casa.
Roberto, você acredita que eu estava falando de maçã havia dois dias? Não é historinha não, falo sério. A maçã era pequena e quase indecente de tão apetitosa. Tive vontade de correr para casa e guardá-la, mas eu estava a caminho de um compromisso. Então tive que esperar.
Senti vontade de contar para todo mundo a história da maçã, como se algo muito extraordinário tivesse acontecido. Mas depois pensei que alguns não dariam a mínima importância para a história da minha maçã. Pensei em ligar para você, mas há tanto tempo a gente não se fala, né? Desisti porque não dá pra ligar para alguém que você não fala há um tempão e sair contando uma história dessas: é preciso todo um preâmbulo e eu queria mesmo ir direto ao assunto. Você poderia achar que estou ficando maluquinha, mas sei que teria gostado de me ouvir.
Enfim, Roberto, resolvi então ligar para a minha mãe e compartilhar essa história com ela, já que naquele mesmo dia eu havia manifestado o meu desejo de comer uma maçã. Mamãe compreendeu a minha euforia e também se impressionou com a coincidência mas não sei se foi além nos pensamentos como eu. Ou talvez tenha alcançado mas sabiamente se calou. Na minha família não se comenta algumas coisas. Acho que deve ser a última das últimas: hoje em dia todo mundo fala tudo, às vezes levo até susto com as intimidades reveladas ao redor da mesa, mas eu tenho a alma velha. Lembra, Roberto, da minha teoria sobre alma nova e alma velha? Você ficava pensativo e acabava embarcando na minha, eu percebia.
Mas finalmente cheguei em casa, Roberto, e pude curtir a minha maçã: tirei-a da caixa, lavei a fruta e admirei a sua beleza antes de guardá-la na geladeira. Coloquei-a bem exposta, dessa forma, quando eu abro a porta, ela está lá, lembrando-me do que essa vida é capaz. O mais estranho, Roberto, é que agora, que ela está ao meu alcance, eu não sinto vontade de comê-la. Segunda-feira comi os morangos, terça e quarta assei bananas. Hoje é dia de cerejas, Roberto, mas ando pensando em assar a maçã com canela e conhaque e oferecê-la para o meu amor. Seria uma espécie de ritual para que eu seja para sempre seu paraíso. Estou apaixonada, Roberto, calma e apaixonada. Apesar de você não ter me dado alta na terapia, sinto-me melhor do que nunca. Mas tenho saudade das nossas sessões, sempre tão profundas, Roberto. Você ainda é um dos poucos que me conhecem bem.
Com macieiras dentro de mim,
Lorena
Pequeno Dicionário dos Excessos *
A psicóloga Alice B. escuta pelo menos oito neuróticos por dia. Para exorcizar essa angústia, ela decidiu escrever o Pequeno Dicionário das Personalidades Excessivas, onde descreve tipos que exorbitam. Alice, às vezes, tem vontade de mandar um a um pastar, mas segue firme na missão de tentar melhorá-los. Ela diz que é caso perdido quem se identifica com mais de duas descrições deste pequeno dicionário. Os que aturam alguns desses tipos também não são perdoados: “é o medo da solidão”, sentencia Alice B.
Chato- Há aqueles disfarçados de príncipes ou princesas. Mas há também os que não escondem a chatice. O chato não tem o filtro do bom senso e você tem que se preparar antes de ligar para ele. É a versão humana do spam.
Dramático- É o egocêntrico que não admite ser menos do que o centro das atenções ou o recalcado que pode descontar em você a fúria de uma vida de erros ou desilusões (ui!). Os dramáticos são envolventes e precisam de muita atenção. Adoram discutir a relação (qualquer relação) e apontar os defeitos ou os vacilos dos outros. Falam muito de amor e usam muita exclamação.
Perua- Essa mulher tem tanta vergonha de revelar suas fragilidades, suas imperfeições, que prefere se esconder sob roupas, acessórios, marcas e muita maquiagem. Quando você encontra com uma perua, você olha para os seus brincos e não para os seus olhos.
Zen- É muito radicalismo (e chato, até) ser zen demais. A fúria, o grito e as vinganças existem para serem usados no lugar certo, na dose certa, no tempo certo.
Pessimista- O seu olhar denuncia: é opaco, sem brilho. Para ele, amanhã não será nunca outro dia. E não gosta de dançar.
Impulsivo- São bombas-humanas. A raiva os domina em um segundo e são capazes de tudo: palavras mal colocadas, agressões injustas, cobranças fora de tom. Não seguram nem o cocô.
Megalomaníaco- São tão loucos e divertidos quanto Don Quixote, mas quando você percebe que eles realmente estão falando sério sente vontade de interná-los.
Ciumento- Aquele que não sabe controlar o seu ciúme diz que é excesso de amor, mas isso é balela. Afaste-se dos muito ciumentos: o ciúme é contagioso e incurável.
Bonzinho- Eu aprendi com a vida que a gente deve ser bom, nunca bonzinho.
Metido- Sabe aquela pessoa para quem você já foi apresentado algumas vezes e sempre fala ‘muito prazer’, como se nunca tivesse te visto na vida?
Burro- Aquele que não gosta de aprender ou que acha que sabe tudo. Normalmente são arrogantes ou muito subservientes.
Narcisista- Está sempre tão preocupado em ser visto que não vê pra fora. Tem o porte de um pavão.
Mimado- Quando já passou dos quarenta não vai descobrir mais que o mundo não gira em torno dele.
Sarcástico- São muito inteligentes e muitas vezes sensacionais, mas quando não sabem dosar também são cansativos.
Espaçoso- Mexe na sua bolsa, abre as suas cartas e se convida para ir a sua casa exatamente assim: ‘você não me convida para ir a sua casa…’.
Intrometido- Ai, que preguiça desses.
Dicas da Dra Alice:
Segure o impulso de falar o que você pensa dos chatos e dos dramáticos. Seja doce e vá se afastando de fininho para não ser personagem da novela deles.
* textos selecionados pelos participantes do blog como dois dos melhores de 2009
31.12.09 em: Quinta
Aline Leal
Não imaginas a falta de ti como dói em mim. De tuas gracinhas, de teu gênio a me recompensar no final do dia. De teu jeito matreiro, sabido, surpreso!, minha pequena gatinha. Passo uma saudade que não se explica, que não tem nome em qualquer língua. Que me dói a barriga, que é mais que dor de dente; uns maus bocados, pequena. Sete anos e o amor só cresce dentro da gente, cria raiz, faz cimento, consolida, faz filho.
Minha querida, na faculdade, nem imaginas, caçoam de mim e caçoam de mim: parece menino, parece perdido, parece morto, professor! E eu aí? E o que sou? Um homem distante do seu amor.
À noite, pequena, uma brisa fria do Sena sobe e vira castigo, atormenta sonhos, sufoca narinas, incha dedos, seca olhos e arrepia: és minha, és minha, és minha! Quero saber se a vida lhe é bem-vinda, se almoças direito, se jantas direito, se direito dormes e se sais com as amigas. Ainda brincas?
Um ano, gatinha. Já mandei avisar, na reitoria, que, em dezembro, acabam aqui os meus dias. Vôo para a sua companhia. De que adianta uma vida em que a falta explode? O coração de papai está que não pode.
Convite*
Convidou-me para fumar um cigarro. Um de seus cigarros, há tempos parei de fumar e só venho filando. Eventualmente, quando vou beber e já estourei minha cota entre os fumantes do grupo, compro um Malrboro Light. Ofereço dos meus a todos, sem nenhum egoísmo, de verdade. A fim de pagamento, e para não voltar com cigarros na bolsa e fumar sozinha depois.
Os fumantes ocasionais aumentaram desde que compramos a cafeteira para a copa. É sempre uma boa desculpa para sair do ambiente frio e amarelado da sala. Tomar um cafezinho fumando um cigarrinho.
Ter dado um apertãozinho em sua barriga e um tapinha na lateral do seu quadril quando estava na minha frente, eu, sentada, ele, de pé, com certeza estimulou-o a fazer o convite do cigarro. Não acho que tenha pensado que eu estava dando mole, só gostou de eu o ter tocado.
Ele, como homem, não desperta o mínimo do meu interesse. Apesar de gostar de seu humor, de sua conversa e de ele ser um rapaz bem entendido em informática e tecnologia, um nerd virtual, o que é muito interessante para os tempos de hoje. O conjunto, simplesmente, não me atrai.
É certo que é por sua aparência. Outro dia, um cara entrou na sala perguntando pelo Paulo, eu disse que era um menino magrelo e feioso que ele encontraria fumando um cigarro no corredor. O Paulo fuma. Muito, tanto que tem os dentes e unhas amareladas e fede a fumaça mofada. Toma muito café e treme demais. Não acho que vá viver para usufruir do dinheiro que pode ganhar com a informática.
Fumamos o cigarro, Paulo e eu no corredor. Nada demais, nenhum assunto novo que nos interessasse. Talvez ele esteja arrependido por ter perdido um cigarro para mim, está duro de grana, me contou.
Sento na cadeira e entro na máquina. Login: jéssica. Senha: tonaglobo. Na internet, começo a navegar por sites tão desinteressantes quanto a minha vida, faço eu essa analogia mental enquanto vou descendo em uma postura cômoda que prejudica a minha coluna. Alberto chega ao meu lado. Funcionário público é foda, nunca há muito que fazer, a gente sempre pode apresentar um trabalho porco e esticar os prazos, acaba nos restando muito tempo ocioso. Diz que quer falar comigo lá fora, porque não tá afim que a sala inteira ouça.
Vamos ao corredor e, na sala ao lado, a mulher que apelidamos de Arlindenor está falando merda no telefone. Temos a teoria de que a sala onde trabalha ficou fechada por tempo demais na gestão anterior, e o cheiro forte de mofo acabou afetando suas faculdades mentais. Fala, ou melhor, grita para a pessoa do outro lado da linha que não a trataria assim se soubesse que, no planeta de onde veio, as mulheres têm três bucetas. Interessante, concordamos eu e Alberto.
O motivo de ter me chamado para fora da sala era convidar-me à sua casa depois do expediente. Já tinha falado com a Joyce e ainda restava o Paulo e o Rossi, uma coisa pequena para se fazer numa quarta-feira à noite. Vou, disse, ao que me contou que faria pimentões recheados de ricota temperada, e eu fiz cara de estômago feliz.
Porra, eu falei para o Paulo quando ele deixou derramar o copo de vinho no meu colo. Não sou de grosserias e até dei um sorrisinho meio de lado para desculpar-me por ter estourado, mas a minha calça jeans estava molhada e eu estava puta. Fui ao banheiro jogar um pouco de água para não ficar toda melada. Me sentia um pouco mal, tínhamos tomado muito vinho e metido o sarrafo no pessoal sonso do trabalho. Ter levantado rápido depois de comer os pimentões recheados de ricota temperada fez a minha pressão baixar e eu enxergava tudo escuro.
Sentei-me no vaso com a cabeça pra baixo, tentando fazer com que oxigênio subisse à minha cabeça. De repente, vejo um vulto na minha frente, era a porra do magriça feioso; saco. Tudo bem? Perguntou Paulo. Tudo, respondi sem nenhum sinal de revolta, apesar do meu mau-humor interno. Só me sinto um pouco fraca, ao que o magricelo colocou a mão na minha cabeça como que fazendo um cafuné. Apesar de não ser adepta a carinhos físicos e raramente tratar os meus verdadeiros amigos com toques e abraços, teria sido bom se fosse cafuné o gesto do vareta.
O corno empurrou a minha cabeça pra baixo com uma força surpreendente para aqueles braçinhos minguados e foi me arrastando para a sala, de onde vinha um som que Rossi tocava no violão, um rockzinho chulé da sua banda alternativa.
Arranhava a minha boca deslizando pelo carpete sujo da casa do Alberto. Qual a minha surpresa quando chego à sala e me deparo com o que havia se tornado a reunião dos funcionários públicos do patrimônio histórico do Tribunal de Contas da União: um culto, no mínimo, diabólico, e meus colegas de trabalho, no mínimo, exóticos e de cabelos exaltados.
Joyce, que nunca foi nenhuma santinha e gostávamos dela justamente por seus comentários distintos e liberais, estava uma verdadeira devassa. Com seus cabelos louros, cacheados, rebeldes e despenteados, estava deitada na mesa da sala, nua, apenas com a canoinha de um pimentão cobrindo a sua parte pubiana e lambuzada de ricota temperada. O maior espanto da noite ainda estava por vir quando Joyce tira a canoinha e, benza deus misericórdia, exibe exatas três bucetinhas. Perfeito para os três homens dessa casa, pensei, pela primeira vez estava feliz que não ia sobrar nada pra mim.
Quando se recobrou da visão fantástica, o magüinits se voltou contra mim com toda a agressividade que havia desenvolvido e empurrou minha cabeça para o chão como se realmente tivesse raiva da minha raça. Alberto serviu uma fina taça de líquido verde, diferente daqueles copos de requeijão em que tomamos vinho. Veio em minha direção.
Rossi, impassível ao espetáculo, tocava sua música tosca, é claro que tinha um papel naquilo tudo. E, apertando minha garganta com uma mão, e esmagando os meus lábios com a outra, Paulo preparava para Alberto o recipiente para despejar o líquido verde: minha garganta! Ferrou, pensei: reuniãozinha de funcionários públicos uma ova!
* textos selecionados pelos participantes do blog como dois dos melhores de 2009
30.12.09 em: Quarta
Tiana Maciel Ellwanger
A água escorria pelos meus ombros, em direção ao ralo entre azulejos. Abri os olhos e vi a mancha que, em segundos e piscadelas, não mais voltou. Definitivamente eu não estava louca. A mancha, cinza-escura-quase-negra, esteve lá quando desgrudei as pálpebras para pegar o xampu. Ela estava exatamente na junta de dois azulejos amarelados pelos anos, de vida. A sombra, mesmo que por uma armadilha de minha mente, era verídica, talvez não verossímil.
Saí da água quente, esfregando os olhos, e me olhei no espelho. As manchas estavam em meu rosto e o piscar dos olhos, pena, não as apagava. Peguei a gilete e quis arrancá-las. Foi então que uma a uma começou a contar sua história, pelo espelho. Manchas de tempo, algumas tímidas de pausas corridas, algumas fortes, de luz em excesso. Quando olhadas de perto, tinham formas complexas e belas. Muitas tinham origem em dias ensolarados, deliciosos quase todos eles. E também em dias de não-cuidado, agora, só agora, eu sabia. A maioria surgiu de uma hora para outra, em manhãs espalhadas pelos anos. Outras eu vi crescer e pouco fiz para detê-las. Nenhuma delas pediu minha permissão, porque sabiam que eu não daria. E também agora não me pediam permissão para tagarelar histórias pelo espelho. Não as arranquei, é claro. Mas as fitei por minutos, não lembro quantos, e tenho certeza de que as deixei constrangidas.
A que ficava acima da sobrancelha direita fora com Gabriel, onírico Gabriel, lembrei com sorriso daquele feriado de amor. A da direita, na altura do nariz, em formato de mapa da Austrália, era acumulada pelos dias de Nara correndo na areia. Nara, minha filha e do sol. Mais do sol do que minha. No queixo, havia outra, de nervosismo, espinha espremida ainda na época em que eu me envergonhava de ter um seio maior que o outro. A da testa merecia reverência, bem no meio, de catapora e beijo de papai. Tinha ainda outra, droga, abaixo do olho direito, de uma espinha, já nos anos em que eu não manchava nada de sangue — e mesmo assim , como uma adolescente — espremi porque achei que não tinha mais idade para uma mancha branca e redonda. Ela, para me contrariar, ficou marrom e ovalada. Pequena pelo menos.
Olhando cada uma delas, acreditei porque elas me convenceram, de que valeram a pena, quase todas. E pelas que não valeram, ou porque tive vontade, chorei, mais para manchar os olhos, e ver as manchas das lágrimas cinza-maquiagem descerem pelo nariz. Pedi para que se calassem e eu pudesse, assim, me concentrar nos pensamentos, sobre elas, mas sem suas interferências interessadas. As manchas, agora, dificultavam mais histórias, acreditei por um momento e as odiei, como no começo, quando quis arrancá-las com a gilete. Não, não. Essas que teimavam em me atrapalhar eram as manchas da cabeça, tinha de crer nisso. E mudando o rumo da prosa comigo mesma: o que eu seria sem essas manchas? Imaginei uma mulher que não quis ser e pedi desculpas às marcas pelo ódio passageiro.
Molhada, fui para o quarto e adivinha o que vi? Mais manchas. No lençol, avinhaladas. Decidi trocá-los, agora mesmo. Enquanto arrancava os elásticos presos embaixo do colchão, também manchado, olhei para a parede e: manchas que gelavam, com cor de gelo, a tinta alva. E que não, não as tinha percebido até então. Já com o lençol sem manchas, deitei sob o edredom colorido, e senti vontade de sorrir, largo. E sorri, largo. E agradeci ao acaso, por tudo. Por ter nascido amado conhecido ensinado sofrido e novamente amado tanto. E, acima de tudo, quando tantos amores já haviam partido, por ter sobrevivido para ver essas manchas que, ainda bem, me acompanham. Até aqui.
Festa Junina *

Pipoca, pamonha, paçoca. Cachorro-quente e bolo de fubá com sanfona. A festa estava saborosa, mas o ar gelado atravessava as flores do vestido para doer nas costelas. Caminhei lentamente em direção à fogueira para aquecer os pensamentos de quentão.
Admirei o fogo como se fosse a primeira vez que visse a transformação da lenha em chamas e cheiros. Em passageiro, rumo ao céu. O homem velho se aproximou e lamentei por dividir o calor. E a observação. Em seguida, sem assunto, deixou-me a sós novamente, com a melhor companhia da noite.
O fogo é melhor que a tevê, imprevisível. Tentei adivinhar o caminho das próximas labaredas e errei. Imprevisível. Para desafiar seu poder, alimentei as chamas com o copo de quentão. Ele o lambeu e baforou um cheiro ruim. Joguei então a fita vermelha do cabelo. Em segundos, ela transformou-se em nada, assim como a fita azul. Arremessei o chapéu de palha, as chamas ignoraram os gritos em forma de estalos e o devoraram, cuspindo para o alto, como se quisessem amarelar as estrelas. Tirei as flores do vestido, uma a uma, e o presenteei. O fogaréu fez todas desaparecerem, sem me agradecer pelo regalo.
Estava pronta para descobrir o que aquelas flamas fariam com meu vestido, com minha pele e com meus olhos cor de mel quando a noiva desengonçada aproximou-se e me chamou para a quadrilha. Estavam precisando de um padre. Mas eu sou mulher. Não tem problema. Toma essa cruz. Rindo de frio, eu os abençoei.
* textos selecionados pelos participantes do blog como dois dos melhores de 2009
29.12.09 em: Terça
Luciene Braga
Berta e Isaac nunca se preocuparam com os comentários maliciosos da vizinhança a respeito de suas origens. Moravam no bairro Abajo, na pequena Nova Tóquio, a alguns quilômetros de Nova Orleans, e tinham um pequeno negócio de embutidos no centro da cidade. Já viviam lá há 10 anos e enfrentaram até o Katrina juntos. Seus filhos, Savana e Korio, decidiram estudar na Nova Zelândia e no Qatar, respectivamente. Queriam um pouco mais do mundo, além da pequena ONU que a casa representava.
Isaac tinha somente uma frustração: não ter sido diplomata. Sempre que podia, emendava conversas e análises sobre a situação do mundo com os clientes que, invariavelmente, só pensavam nas linguiças e paios, caríssimos, mas confiáveis.
“Cuspir na embaixada de um país sul-americano diante de câmeras do Le Monde não ajudou muito”, comentava Berta, entre os amigos mais íntimos, sempre que ele iniciava o discurso de lamento. “Eu tinha dor de garganta!”, ele insistia. “Mas as câmeras não viram as suas amígdalas, senhor embaixador. Só eu conheço as suas qualidades conciliatórias e capacidade de intervenção em territórios conflituosos nem sempre dispostos a negociar”, ela brincava, e ele sorria, entregue e submisso ao discurso mais convincente que conhecera. Falava seis idiomas e aventurava-se no Mandarim nos últimos meses.
“Ni Hao!”, dizia, levantando o avental para a mulher, quando a loja estava vazia. “Lo ricevo già con gli onori”, brincando com a língua que ele não dominava. E requebrava até que bem. O Mandarim não lhe descia aos flancos, mas o Português era capaz de transformá-la em odalisca frenética e safada, à brasileira. “Venha, minha leitoa à pururuca!”, ele dizia. Ela se derretia ao ouvir “pururuca”. E trepavam de fechar a loja. A vizinhança já até sabia. E virou hábito aguardarem, para entrar na loja com cheiro de sexo. Era a diversão. E uma aula de Esperanto, a segunda língua universal, convenciam-se.
Diziam que dava sorte comprar presuntos e peças com o astral de uma sessão daquelas. O boato se espalhou, e só não abriram uma segunda loja porque não daria para repetir a estratégia em dois lugares.
Todas as noites, o casal recebia amigos de comunidades várias, com assuntos vastos, sempre com uma boa garrafa de дистиллировано (destilado russo contrabandeado, que com especiarias eram bem anárquicos), a graça da confraternização. E gostavam de ouvir histórias, especialmente de viajantes. Eram eles desertores do estilo de vida nômade, mas tinham saudade e ficavam excitados com olhos brilhantes de quem conta novidades e descobertas.
De minha última visita, guardei a foto dos dois aos beijos, coloridos, como sempre, brindando.
Soube ontem que foram mortos em sua última viagem à Espanha, para encontrar os filhos e conhecer o primeiro neto – Ishtar. Quando passeavam em um dos mais belos parques de Aguaviva, um atentado terrorista de um novo grupo em busca de destaque, em defesa da delimitação de território, atingiu os dois, sob uma árvore que, contam, tinha mais de 2 mil anos.
O ataque teve seus holofotes, e os nomes de Berta e Isaac, assim como os de outros 30 mortos, nunca foi dito.
Acho que agora estão por aí, inspirando cúpulas pela noosfera. Ou cópulas, tanto faz.
Suzana *
“I am”, repetia, diante do espelho, como recomendara sua amiga, Suzana, que tinha uma pensão do Exército, herdada do pai. Mulher de poucos problemas visíveis, Suzana viajara o mundo, pelo Nepal e até em terras nórdicas, quando procurava raízes ciganas de sua família. Daí vinha outra herança provocante, a de vidente, que a deixava atormentada.
“I am”. Não adiantava. Nada do que contava Suzana funcionava nela. Via-se como uma desajustada, sempre apaixonada por homens casados, dona de empregos aviltantes e pouco dada à boa gastronomia. Dura, esqueceu de dizer. Mas sabia como pagar o cartão de crédito naquele mês. Suzana dizia: “Calma. Seus chacras estão desalinhados. Respire. Pare um pouco de correr e observe as suas energias”.
“I am”, insistia, trêmula, seguindo o conceito. Suzana parecia tão segura, com aquele sorriso calmo e cheia de filhos com filhos. Organizava festas, trocava de carro, gostava de carnaval e fazia artesanato por hobby. Sempre lia todos os livros best sellers e decorava frases inteiras. Ganhou do marido um convite para um espetáculo teatral internacional.
“I am”!!!!!, gritou e correu para pegar a sua bolsa. Melhor ir trabalhar e esquecer essa viadagem de mantra. Suzana é uma filhinha de papai que nunca acordou cedo para pegar trem ou trabalhar. Engoliu um comprimido novo, natural, segundo a médica, que dá energia. Foi-se, e só pensava na casa de praia de Suzana, decorada com objetos que ela trazia de suas muitas viagens. Nada mal ir para lá no fim de semana. Búzios. Está na moda, com a novela. Faz umas comprinhas, toma champagne e um pouco de sol. Quem sabe não encontra um gato por lá?
* textos selecionados pelos participantes do blog como dois dos melhores de 2009
28.12.09 em: Segunda