Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postMinhas três vidas…

Gazza

Nos olhos a criança se expande
Não se esconde
Corre atrás de montes
Ao horizonte
Infinitos semblantes
De uma alegria rompante
Surpreendentes gargalhadas
Numa escorregada
Naquela praça cimentada
Não há pedras atadas
Em vai e vem de balançadas
Brincadeiras inventadas
Enquanto o tempo
Vai ao vento
Eu sento a olhar
A criançada a girar
A criar
A inventar
Um mundo inteiro
Saltar, saltar,
Rodar, rodar
Até os olhos fechar
E nos sonhos
Voltar a brincar

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21.08.09 em: Sexta

postCuspindo caroços

Raquel C. de Medeiros

filhos

Ouça um bom conselho. Que eu lhe dou de graça. Inútil dormir que a dor não passa

- É preciso saber escolher o pai dos seus filhos, ela desabafou, em tom de descoberta, depois de desligar o telefone. Eu e uma senhorinha éramos as últimas pacientes do dia e aguardávamos na sala de espera do consultório. A senhorinha concordou com a cabeça.

- Meu filho é um irresponsável…, completou, injuriada.

- Quantos anos ele tem?, perguntou a senhorinha.

- Trinta, mas parece que tem uns dezoito, ela vociferou.

- Mas você acha que a escolha do pai…, eu ia completar a frase e ela me interrompeu.

- Ah, claro…

- Estou na idade de escolher o pai dos meus filhos… provoquei.

- Vou te dar um conselho: não seja tola como eu fui. O pai dos seus filhos será para sempre o pai dos seus filhos, não tem jeito de mudar.

A senhorinha sorriu, cúmplice.

- Por que você acha que errou, heim?, questionei.

- Era deslumbrado, sabe, ele era deslumbrado e preguiçoso. Esse tipo de gente só gosta de si mesmo. Escolha um homem sério, confiável, que cumpra sempre as suas palavras, ela disse. Observe as coisas pequenas, eles sempre dão os sinais nas mínimas atitudes. A gente é que finge que não vê, completou, diminuindo o tom, como se estivéssemos compartilhando um segredo.

- Fuja também dos enrolados, que prometem, prometem e custam para cumprir as coisas- intrometeu-se a senhorinha. E corra também daqueles que usam palavras feias e fortes contra você. O seu filho vai fazer igualzinho.

- Estou anotando tudo, brinquei.

- É sério.., disse a secretária, arregalando os olhos. Sabe aquela história de que uma fruta estragada pode contaminar toda a cesta? Um pai mal escolhido é um problema que pode ir se multiplicando até arrancar a sua vontade de viver. Jogue fora os caroços antes de engoli-los, aconselhou.

- Minha mãe diz para eu me afastar dos homens dramáticos, que estendem as discussões e supervalorizam os pequenos desentendimentos, eu disse. Esses são pesados…

- Ih, ela tem razão, fuja desses chatos também, disse a senhorinha, rindo como se tivesse lembrando de alguém. São como limões.

- Você tem jeitinho de quem vai saber escolher, disse a secretária, piscando para mim.

- Será?, suspirei e fomos interrompidas pela paciente que saía do consultório.

Antes de eu entrar na sala, ela me puxou:

- Ah, e esqueci-me de uma coisa muito importante.

- O quê?

- Tem que ser do tipo que se preocupa em dedetizar a casa antes de se mudar.

- Hã?, sorri, estranhando aquele conselho.

- Um dia você vai entender, ela finalizou, antes de me colocar para dentro do consultório.

Anotado. E seria eu besta de me deixar esquecer?

 

 

 

 

 

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20.08.09 em: Quinta

postPelos

Aline Leal

Pelos, pelos, melhor não tê-los

Eu tenho pentelhos

Os vou arrancar

 

Mas a encravada

A cabra cascuda

Mandou avisar

 

Nasci pelada

Fiquei peluda

Por que depilar?

 

Paródia de “Filhos…Filhos?/Melhor não tê-los!/Mas se não os temos/Como sabê-lo?”,Vinícius de Moraes em Poema Enjoadinho

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19.08.09 em: Quarta

postGargalhada

Tiana Maciel Ellwanger

“Você acha que é livre? Pois você não passa de um escravo do seu DNA, uma máquina de sobrevivência cuidadosamente montada para que replicadores nanicos, os genes, passem para as próximas gerações o maior número possível de cópias de si mesmos”.

A informação fez com que eu interrompesse a leitura para refletir, como fazia com os melhores livros de Filosofia. Sim, aquela matéria da SuperInteressante deixava-me inquieto. Após me imaginar como um escravo de “replicadores nanicos”, continuei a me colocar no meu lugar passageiro:

“Você nada mais é que uma máquina de sobrevivência para seus genes, um enorme robô ambulante”, o repórter (será que tinha filhos) continuava, simplificando com maestria a tese de biólogos radicais. Robô ambulante? Fechei os olhos e me transformei no robô-gigante dos Changeman dirigido por moléculas de DNA estranhas no comando.

Minha viagem pelos anos 80 acabou com a gargalhada do Pedro, que se divertia rasgando papel. Gargalhei com ele e alimentei sua felicidade com mais jornal.

Quando as páginas do já velho noticiário impresso estavam picadas, ele apontou para a revista na minha mão, que dizia:

“O mesmo vale para quando nos apaixonamos. Se você ama alguém, quer ter filhos com essa pessoa, quer colocar seus replicadores ali e se esfolar para cuidar dos rebentos. Aí, para o futuro dos genes, sua vida só faz sentido se aquela pessoa existir. E o sentimento é tão poderoso que parece eterno enquanto dura”.

Gritei por Clara na cozinha e fiquei olhando para ela, estava linda com aquele avental. Eu ainda a amava, mesmo sem ela poder me dar mais filhos, que eu já não queria. “Não sou escravo, viu?”, disse para o Pedro, que, com uma expressão de choro iminente, apontava novamente para a revista em minhas mãos. Clara perguntou se havia algum problema, respondi que só estava com saudades. Ela sorriu e voltou para a cozinha. Continuei:
 
“Responda rápido: se você tivesse que decidir entre a morte de 20 estranhos e a vida do seu filho, ficaria com qual opção? Ou melhor: existe algum número de pessoas que valha a vida de um filho? Para a psicologia evolucionista, não. Para o Zé Mané do boteco e a dona Cleide da quitanda também não. O egoísmo dos genes aí dentro é maior do que tudo o que tem do lado de fora”.Eu concordei. E dei a revista para meu filho rasgar e continuar a sorrir, enquanto na TV, milhares de pessoas morriam vítimas de um terremoto. Que maquininha de sobrevivência linda e trabalhosa era o Pedro, pensei enquanto destroçávamos juntos, aos risos, aquela revista colorida.

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18.08.09 em: Terça

postFi-los

Luciene Braga

“Eu não sei de onde tiraram esta porra de sentimento  sublime dos pais pelos filhos e, de quebra, associaram essa tal coisa aos libelos religiosos. Filhos irritam, filhos desmascaram e são capazes de olhar com olhos de quem nos conhece por dentro. Só isso é motivo para irritar. Ressalvados alguns casos de adoções tardias, é muito provável que pais zelosos o sejam por verem, nos rebentos, a fragilidade e a graça dos bebês que, um dia, estiveram lá, inseguros, em suas mãos. O que seria do consagrado amor paterno se os filhos já nascessem adultos, drogados, ingratos, desbocados e… casados?”.

Começou assim, entre palavrões, seu discurso em um seminário sobre relações familiares, diante de uma plateia de supostos tecnicos da área psi, pronta para derrubar sua tese que ganhou impacto afora, publicada em livro, e assim considerada empirica. Pessoas se rebolavam nas cadeiras duras, cutucavam-se e berravam reações no silêncio desconcertado. Certo de ter feito seu primeiro contato com a massa, feito líder religioso, continuou.

“Quantos pais podem dizer que não amam seus próprios filhos porque estão, no fundo e amadoramente, direcionando a si próprios o mais egoísta dos amores?”

“Você analisa friamente, porque não teve os seus próprios. Não teve então a felicidade de pegar um filho seu no colo!”, vaticinou um revoltado, ele mesmo em suores desproporcionais de raiva. Ousaram questionar o mais puro dos amores, como ele pensava, até aquele momento.

“Pois, diga-me, se acredita mesmo no contrário. E não diga do divino. Diga do que realmente enxerga nos filhos. Eu os tenho, engana-se. Eu os peguei, sim.”. Desafio lançado.

“E o que diriam eles se o ouvissem agora?”, questionou outro, corporativista e cheio de coragem de emendar um debate em desvantagem.

“Não criei filhos previsíveis”.

E assim respondia, irônico e com altas doses de  sarcasmo. O debate perdurou e até conseguiu vencer as certezas de alguns. Balançou diante das perguntas sobre mãe, mas não estava exatamente falando da reciprocidade. Falava de pais para filhos. Deixou o auditório acompanhado de perguntas. Gabou-se. Depois, voltou à casa.

Esperavam-no o mais novo e o mais velho na rede.
Achou-os bem parecidos. Correu e derrubou-os no chão, sobre sua pasta com estudos. Beijou-os como se fossem uma ninhada de cachorrinhos e deu algumas gargalhadas ao ouvir trapalhadas do dia na escola. Tirou do bolso um pacote de figurinhas e foi igualmente beijado. “Vamos lá, quem é que quer ir ao cinema com o papai?”

“Eu, eu, eu!”, ele ouviu, satisfeito e cheio de autoridade fácil.

“Ganhar dinheiro com sentimento dos outros é muito fácil”, disse a mãe, enquanto os via aceitar, quase acólitos católicos, a ordem de tomar banho para ir ao cinema. Já havia visto isso muitas outras vezes.

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17.08.09 em: Segunda