Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postSaudade apenas…

Gazza

Quanta saudade do que eu era
Quisera eu, minha dor voltar
Esse meu semblante amargo
Se desfaz num trago
Soluçado gole
Meu homem pobre

Quanta saudade do que seria
Apenas ria
Da vida que viria
Toda essa sintonia
De uma vida sem metria
Em uma jarra de sangria

Quanta saudade apenas
A ponte é de safena
Que pena
O arco sem íris
Me avise
Da morte em riste

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06.11.09 em: Sexta

postA Manuel Bandeira

Raquel C. de Medeiros

O vento trazia mau cheiro
O vento rajava indelicadezas
O vento debochava do meu jeito
E a minha vida ficava cada vez mais cheirosa, delicada e autêntica

O vento soprava palavrões
O vento desrespeitava meus sentimentos
O vento mentia para eu não fugir
E a minha vida ficava cada vez mais cheia de poesia, de amor e de coragem

O vento levantava a minha saia
O vento desarrumava o meu cabelo
O vento cuspia areia nos meus olhos
E a minha vida ficava cada vez mais cheia de charme, beleza e intuição

O vento ficou mais forte
O vento disse que me levaria para o Norte
O vento me carregou
E a minha luta com ele tornou-me mais mulher

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05.11.09 em: Quinta

postcarta à filha

Aline Leal

Minha filha, o mais importante na vida é ter coragem. A covardia é uma atitude que não vale a pena, é motivo de frustração, angústia. Pense nos seus assuntos e depois pare de pensar e comece a agir. A teoria e a prática se complementam mas, se tiver de escolher uma, escolha a segunda, a sua intuição lhe dirá o que fazer. Força inspira beleza. Você será feia se for fraca – a intimidação tomará conta por dentro e você se sentirá cansada. Covardia inspira apatia, inspira desencanto, inspira sobrevida, inspira morte. De todos os deuses e crenças, tenha fé na sua vida, escolha-a para fazer um belo projeto do qual você terá orgulho quando olhar para trás. Não se deixe influenciar por um projeto de vida que não é o seu, experimente só na medida que lhe der vontade. Não se inspire em padrões de relacionamentos, formas de amar, condutas, confie na sua condição humana, nos seus sentimentos e, se algum dia você se sentir perdida, indague-se, confronte-se, peça ajuda e não tenha medo. Eu não estarei mais aqui para lhe ouvir e dar conselhos, mas você estará bem com a sua força e personalidade. Confie nisso, tenha compaixão e amor ao próximo. Você estará bem, minha filha, quando eu partir.

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04.11.09 em: Quarta

postAusência

Tiana Maciel Ellwanger

Olho para o lado e você não está. Atravesso a cama com o corpo na tentativa de diluir sua ausência, preencher o espaço largado. De acabar com o vazio que faz com que eu, logo eu, converse com plantas, soque paredes e transforme fins de semana em infinitos murmúrios, solitários.

Olho para o lado e você não está. Mais um dia enganando a saudade que desvia meu olhar de todos os outros. Que faz com que fique suspensa, num espaço-tempo que desconhecia antes da sua partida. Que perde minha concentração no labirinto das suas lembranças.

Olho para o lado e você não está. Olhos inchados da noite anterior, caminhando pelas ruas sem suspiros ao avistar os sobrados outrora sonhados. As pedras portuguesas constroem teus pés e logo os imagino ao lado dos meus, sincronizados no andar. Estendo a mão em busca da tua.

Mas olho para o lado e você não está. Grito teu nome pela janela e soluço ao perceber que apenas o eco me faz companhia. Desço as escadas para a chuva e torço para me dissolver com a água que escorre com a minha aflição. Fecho os olhos recordando teu abraço e, por segundos, sinto-me aquecida.

E olho para o lado, você não está. Rasgo suas fotos com os dentes, queimo as cartas até todas as palavras de amor virarem fumaça. Tento levar a memória para as discussões acaloradas, rumo à intolerância rasteira que nos consumiu para o fim. Desisto: só teu sorriso preenche minha mente. Sento no banco e, de novo, desando a chorar.

Então olho para o lado e você lá está. Aproxima-se em êxtase, pedindo meus lábios. Sem crer, fecho os olhos e sinto o suor escorrer pela cintura capturada em seus braços de gancho. Levada por ti, rodopio sem entontear com sua boca molhada de apego. O vazio doído nas costelas é substituído pela plenitude e o tão esperado gemido parece sair por todos os poros. Chorando baixinho, faço a promessa de não mais nos deixar.

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03.11.09 em: Terça

postFim de Linha

Luciene Braga

Abri os olhos e perguntei: “É só isso? Sem filminho e sem almas desorientadas que tentam sugar algo de mim, vindo tão fresquinho do mundo dos sei-lá-o-que-são hoje ou mesmo se há hoje lá onde era ou se era de fato?”

Queria companhia. Só isso. Nem encosto tinha. Pensou que poderia virar um, mas se perdeu na imensidão do espaço por todos os lados. “Porra, nem para ser fantasma assombrador…”.

Sentou em um computador (que bom que pelo menos isso tem aqui) e resolveu fazer uma pesquisa para descobrir o que aconteceu com todo mundo, tentando montar o quebra-cabeças dos últimos dias.

Deu lá: a profecia Maia do fim dos tempos.

Em 2011.

Sentiu saudades. Irreversivelmente só e triste, quis se matar, mas era tarde. Morreu na varanda de casa, enquanto procurava um isqueiro sabe lá quando, porque nem poderia ter certeza de que 2011 aconteceu há muito tempo. Vagamente, sabia que a coisa esquentou. E a coisa era o ar. Não viu mais nada. Nem lembrou. “Estranho esse negócio aqui. Não dá nem para chorar. Ahh! E se eu estiver perto de anos antes? E se eu puder entrar no passado?”, levantou, num salto, e tomou um estabaco. Nunca pensou que almas penadas ou depenadas caíssem. Então, perdeu o chão. Curiosamente, ergueu os braços e viu que estava em algum lugar no interior de um carro. Nasceu numa ambulância, a caminho do hospital. Sua mãe, professora muito da bem fornida, morava em Magalhães Bastos. Adorava baile funk. Levava um MP3 com músicas para o hospital. “Eu pensava em algo assim meio Londres, mas isso não é agência de viagens. Está bem, vamos recomeçar. Mulher divertida a minha mãe”, e até sorriu, achando que ganhou a vida.

Acordou, quando a voz do altofalante do metrô quase berrou, na estação da Pavuna, e a passageira sentada ao lado deu um esbarrão: “Senhores passageiros, está é a última estação. Obrigada pela preferência”. Esfregou os olhos e procurou a pasta que deixou no chão. “Merda!”, xingou. “E ainda roubaram o meu maço de cigarros”.

 

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02.11.09 em: Segunda