Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postParalisado

x Convidado Sábado x

Por Luisa Belchior
 
Estou em cima desta pedra. Entre mim e a outra pedra há um feixe de mar, e na outra pedra, as pessoas gritando para que eu vá. Quase não as ouço. Entre mim e o primeiro passo há o medo.

Estou em cima desta pedra por várias outras vezes já, de várias outras formas, e continuo estando. É o meu começo mais difícil.

É o primeiro passo o mais amedrontador, é a travessia sobre o feixe do mar o trecho mais desafiador do caminho, e o mais bonito também. Porque o começo é a cal da nossa eternidade, da pegada que deixaremos no mundo. E eu enxergo aquele horizonte de pedras e mar e imagino que de lá vou olhar para trás e ter orgulho do meu começo.

Então tá. Eu não quero ficar nesta pedra. Mas me deixo em meu corpo paralisado quando penso neste feixe de mar aqui embaixo, nesta base tão insólita. 

(Por que precisamos tanto de bases sólidas para dar o primeiro passo, afinal? Que tal seria lançar-se ao infinito, de olhos fechados e tateando nada além do vento?). 

Quanto será que já teríamos caminhado se não pensássemos tanto sobre o começo?


PS.: Luisa acompanhou os primeiros passos do Segunda a Sexta e, desde o início, apostou no projeto. Pena que sua vida madrilenha tenha tomado muito o seu tempo. Sem problemas, Luli será uma de nossas ilustres convidadas. Para acompanhar as singulares observações de Luli na “Zoropa”, basta acessar o blog dela, inspirador: http://www.lulibm.blogspot.com/.       
 
 
 
 
 

 

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21.02.09 em: Sábado

postNesse texto, sim

x Convidado Sábado x

Por Alexandre Paim

Começar algo sempre é difícil. Nunca o começo de algo é tão bom quanto o final. Talvez este seja o segredo dos blogs em que se começa a ler pela última coisa que foi produzida. Não é à toa que os jornais diários também adotam a prática da pirâmide invertida, indo logo para o que mais interessa, que é o final.

Em breve, este texto começará a perder posição, caindo vertiginosamente tal qual o pastor Crivella no final da eleição (em breve o texto também estará desatualizado) até sumir da página principal e se perder nos arquivos do blog, sendo mais um byte indefinido no universo virtual. Uma partícula elementar que deu origem ao nosso big bang particular mas que depois de todo o universo criado não tem mais significado.

Por outro lado, o começo tem sua vantagem. Levando-se em conta que não existe nada, começar é sempre um bom começo. No entanto, o começo de um texto sobre o começo parece não ter meio e fim, pois volta sempre para o assunto do começo. Mais complicado do que começar um texto é o começo do fim.

O bom começo do fim é que define tudo. O Espírito Santo é o começo do fim do Sudeste, assim como a Bahia é o começo do fim do nordeste. Para quem gosta, por exemplo, dos bombons garoto e de carnaval fora de época, respectivamente, pode ser um bom começo de fim, já para outros pode ser um começo de fim desinteressante.

A ida de um artista ao programa da Luciana Gimenez é um começo de fim de carreira. Quando este mesmo artista vira evangélico, estrela uma produção pornô ou se candidata a algum cargo legislativo (não necessariamente nesta ordem) já é o fim em si. Portanto, o começo do fim é que irá construir o cenário para os últimos suspiros, o canto do cisne, o ponto final. Este “ponto final” bem que poderia ser o final deste texto, mas em vez disso será o começo do fim.

O começo sempre perdeu terreno para o fim. Mesmo sem saber como começou, todos querem saber o final. Pode-se perdoar um começo regular, mas jamais terá perdão um final chato ou decepcionante. Sensação essa que tomou boa parte do público do cinema que assistia ao filme “Onde os fracos não tem vez” dos irmãos Cohen, que acaba repentinamente, e deixa uma sensação de frustração no público pagante. Definitivamente, um final fraco não tem vez. Mas aqui neste texto, sim.
PS.: Alexandre Paim, no início, abraçou a idéia do Segunda a Sexta. São dele várias idéias do blog. Nosso amigo comediante, no entanto, é atarefado e, infelizmente, não pôde continuar no projeto. Mas contamos com suas divertidas colaborações.

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21.02.09 em: Sábado

postO destino, num 1º de julho

Gazza

Chuva, cinza e um sensação de angústia. Foi asssim que começou minha quarta-feira. No trajeto entre o Cachambi e a Tijuca, feito quase que automaticamente pelo meu carro nos últimos meses, tudo parecia irremediavelmente turvo. A vida havia parado. Essa era a sensação mais forte. Estava ali, diante do volante, o rádio ligado, mas era como se viajasse por lugares desconhecidos, descoloridos…

Cheguei em casa, ainda pela manhã, como um passado perdido…Era como se não tivesse feito aquele trajeto tão real em minha vida…Não sabia o que pensar, por vezes… Queria mesmo estar dois dias atrás daquela quarta-feira cinzenta…Não dava, apesar de todo esforço…Entrei em casa e fui tomar um café, me preparar para o resto do dia, para o resto do que me restara…Pensava no amor em mim, na vida aberta um dia pelo destino…Era o que me sustentava naquelas horas que se seguiram… 

Sol, azul e a felicidade…Já era quinta-feira, ainda manhã, e estava eu ali, fazendo aquele mesmo percurso da quarta-feira anterior…No meu carro, o som ligado, buzinas, veículos eloqüentes e pessoas passando naquele ritmo cotidiano da vida…Tudo ali era real…Pulsava…Como a vida em mim…Havia deixado meu amor na faculdade, seguia para casa, com o resto do dia a me esperar, um céu de sorrisos, nuvens de algodão, esparças…O tom do amor havia retornado, como no dia em que cruzei aquele olhar azul, tão imenso, tão revelador…Meu coração batia colorido, destemido, irradiante… 

As cores da vida, meus olhos miram pelo coração…No meu coração, sempre você…

Todo início é um fim. Mas todo fim nos abre um começo. Fazemos a vida das extremidades, dos opostos, num equilíbrio constante, contínuo, quase que religioso. E nessa harmonia que a vida se faz, se expande, até um novo começo. Quando me pediram para escrever sobre o tema, confesso que achei chato, genérico demais talvez. Mas aí me ocorreu o de sempre: falar do amor. O episódio lá de cima é real, vivido por mim, há alguns meses, no início do meu casamento. Dois momentos opostos, extremidades do que sentia, em cada um deles.

Pois bem, como tudo parte de um ponto, expus essa pequena história para abrir outra maior. Foi numa tarde de um 1º de julho que meu par de olhos cruzou com aquele  azul de imensidão eloquente. No meio da baldúrdia de uma redação, quase às vésperas do fechamento, o tempo parou. Sem cerimônia. Aquele olhar azulejado me revelava mais que a primeira vista de alguém nunca visto antes. Ao olhar, se seguiram poucas palavras.

- Conhece o caso Baronetti?

- Sim.

- Então, faz uma suíte para mim.

Mas sabia que ali, a vida mudava. Uma porta fechava, para outra se abrir. Aos poucos, aquela paralisia foi tomando forma, em novos encontros de olhares, em sabores, em cores, em palavras. Em descobertas íntimas. Na vida.

Destino se faz com o coração… Sempre…
P.S. Ah, mais tarde descobri que ela não sabia nada sobre o caso Baronetti. Mas como era a primeira vez na vida que pisava numa redação, deu seu jeito.

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20.02.09 em: Sexta

postTrês possíveis começos

Raquel C. de Medeiros

O começo da felicidade

Poderia ser um gesto, um esforço, um sorriso. Poderia ser uma carta, uma visita, um passo. Mas também poderia ser um desabafo, um grito, um pito. Uma revolta. A coragem de mudar, a disposição para surpreender-se consigo mesma. Começos quase sempre envolvem fins, rupturas. Uma conversa franca, uma fuga, uma falta. Uma loucura, pensava, decidida, antes de escolher a melhor maneira de começar a ser quem ela gostaria: poderia ser atriz, escritora, viajante.  Só não podia ser acomodada. Porque era, decididamente, uma moça de muitos fins. E infinitos começos.

O começo da desilusão

Pode ter sido um deboche do seu amor, pode ter sido uma crítica. Pode ter sido uma ofensa ou a falta de um gesto. Também pode ter sido a omissão em um momento em que ela precisava de um apoio ou uma repressão na frente dos outros. Pode ter sido a falta de delicadeza, a impaciência, o ciúme descontrolado. Ana não sabia bem, mas por mais que quisesse, por mais que persistisse. Por mais que se enganasse e tentasse novamente. O amor até sobreviveria, com muita cola, com muito esmero. Mas algum gesto descuidado havia batido tão forte que o encanto estava quebrado para sempre, tentava mostrar-lhe o psicanalista.

O começo da fé

Descobrira de repente que viver era preparar-se para começar. Porque os caminhos não nos avisam dos começos. E tudo passou a fazer muito sentido: os passos, os sonhos, os tropeços. Os fins. O chão agora palpitava sob seus pés, que deviam continuar começando. Incessantemente. E nessa caminhada sem tréguas, ela via os medrosos virarem pedras, os fracos serem pisoteados. O mundo é dos corajosos, uma voz macia lhe falou. Ela descobrira a fé. E desde então os começos ganharam uma dimensão infinita, um brilho que iluminava todos os labirintos, que ecoava pelo tempo firme e intenso do seu novo olhar.

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19.02.09 em: Quinta

postO assunto

Aline Leal

Anna disse que sentia vontade de tomar um vinho, aquele mesmo que ele prometera a ela antes de chegarem à sua casa, com outras intenções. Otto preferiria não ter de passar por esse ritual de iniciação tão caro às mulheres, ou pelo ao menos a uma boa parte delas. Tampouco era grave a situação, Anna era agradável de conversar; mais ainda, agia com charme, e ele sorria com o canto da boca cada vez que ela se exibia de forma sedutora, como se dissesse: já quero beijá-la.
 
Serviu a segunda taça de vinho, Anna tinha intenções de tomá-lo até o fim da garrafa, e ele acharia melhor parar na metade e dar início ao que mais lhe interessava. Otto ergueu-se em sua direção e, como defesa a esse movimento, Anna afastou-se com uma pergunta que saiu de forma apressada: O que você prefere, os inícios ou os fins?
 
Ele não entendia o que isso significava, seria o questionamento de algo mais específico, o relacionamento deles, que se resumia a dois encontros? (Ela tampouco compreendia sua pergunta, tão espontânea, tão impensada).
 
Tomou um tempo em silêncio, antigamente talvez não o fizesse, responderia de forma atrapalhada, brincaria com a estranheza da questão e retomaria o movimento em direção a Anna. Otto, dessa vez, de forma consciente, quis levar a sério o questionamento.
 
Acho que tendemos a valorizar os inícios e abominar os fins, Anna. De um namoro, as melhores lembranças estão nos primeiros meses, ou nos primeiros anos; do fim levamos a sensação de coisa sofrida. No início, a grande expectativa e então, o fracasso. No começo de uma viagem, a emoção dos dias a serem desfrutados; no fim, o cansaço.
 
Acho, Anna, que os inícios só têm essa leveza quando já esperamos o seu fim. O casamento é o começo de uma vida a dois com promessa de durar para sempre, e não deve ser nada fácil dizer sim em cima do altar. Uma viagem sem prazo de volta, uma mudança definitiva, o começo de um longo dia. Sem fim, os inícios são pesados, são difíceis.
 
Anna disse que sentia falta da ingenuidade de ser tocada sem saber para onde as mãos do outro iriam, da excitação de não saber quais seriam os movimentos de uma noite, de uma vida. Tinha saudade da menina que estampava, no rosto, a sua inocência, disse que se sentia velha, cansada, a última das mulheres.
 
Otto achou que aquilo nada tinha a ver com o que ele dissera. Anna achou o mesmo. Aliás, sentiu-se um pouco envergonhada da forma como acabara de se expor. Como antes, não havia calculado a sua atitude. Tampouco ele estava muito certo do que havia dito.
 
Não disseram mais nada. Otto foi em sua direção com uma calma densa e então tratou-a com a excitação de estar se deitando com uma virgem.

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18.02.09 em: Quarta

postBandeira Branca

Tiana Maciel Ellwanger

Naquela manhã, ela decidia permanecer. Enquanto apreciava o cheiro de mel e mostarda do prato sujo que ficara na sala, ao som de parafusos sendo penetrados para quase-sempre, Elisa apreciava

– só agora

– permanecer.

Era o início do Carnaval, para o seu deleite e o de milhões de sua espécie.

Mas uma ligação a fez mudar de planos. Iria para a rua. Foliã mais uma vez? Não resistia a ele. À sua voz grave pelo telefone, falava com intensidade; Saudades. Já não queria permanecer. Dispensou o homem-parafuso. E foi. Andava no contra-fluxo em busca dele, até ouvir um grito: Professora! Como gostava de ser chamada dessa forma. Era um alento para suas poucas rugas egoístas.

Olhos vermelhos e a voz arrastada, o adolescente vestido de mendigo dizia sentir saudades de suas aulas de História. “Você viu esse último filme sobre o Holocausto, professora?”, mendigo perguntou. Respondeu que ainda não tinha tido oportunidade, mas assistiria em breve. “É muito bom”, disse, querendo acrescentar. “Estou trabalhando no Outback”, continuou, com pouco orgulho. Mas queria voltar a estudar, fez a emenda de forma enérgica, como se estivesse sendo cobrado. Ela tentava lembrar seu nome. Ele disse que precisava ir porque sua namorada não estava passando bem. Elisa sorriu e desejou boa sorte.

Passava e pensava entre máscaras, suor, cheiro de cerveja e urina; os beijos e as mãos desejantes faziam com que sentisse inveja. Uma gota de suor escorria pelas costas. Uma cerveja, por favor. Muitos vinham e ela ia, em direção à barraca da Ana, onde ele estava. 

A criança de Super-Homem a fez sorrir. Já não queria filhos.

Repente,  seus olhos foram tapados pela mão quente. A voz que queria ouvir dizia: o que procura, Colombina? Era ele, sempre ele. Nunca ele. Levantou o cabelo dela e beijou sua nuca. Ao arrepiar-se, virou fingindo surpresa. Abraçaram-se, com o conforto do cheiro que atrai. “Estava buscando você”, disse para se arrepender. Ele sorriu com ar superior e deu muitos beijinhos rápidos em sua boca pintada. “Para onde vamos?”, resolveu perguntar. “Para onde quiser, pequena”. “Quero permanecer, com marchinhas conhecidas”, respondeu sem pensar. “Permanecer? Vamos mais para perto da bateria?”. “Pode ser”, respondeu tomando a frente e acenando para os amigos que o acompanhavam.

Ansiedade com o que estava por vir. A tranqüilidade dele só piorava sua vontade de adivinhar. Mais cerveja, por favor. Um cigarro. Será que a Era de Aquário a ajudaria este ano? Otimismo bobo, não cansara disso, Elisa? Queria ele para sempre, mais perto, todos os dias, poderia dizer em seu ouvido. Mas não se exporia agora. Talvez nunca.

Por ora, se deliciaria com os abraços dançantes. Outra bem gelada refrescava os ciúmes da vida amoral de que ele não abria mão. Bebe rápido, Elisa. Assim se esquecerá de que quer voltar a permanecer, com ele. De que quer levá-lo embora para seu mundo de coisas simples.

Uma foto, um deles sugeriu, mais uma para a coleção virtual que a fazia querê-lo ainda mais. Ele sabia, mas ironizava. Ela também. Risos, mais marchinhas, desejo de outros toques. Vamos embora para o íntimo, longe de outras almas? Ela queria, sem dizer. Mas o Carnaval estava apenas no início. Para ela, um novo início de trocas que se perdiam em lembranças ao longo dos anos. Exatos seis anos, contou nos dedos e se impressionou. Na Quarta-feira de Cinzas, tentaria dar um fim. Sem ser capaz.

“Bandeira branca, amor,
Não posso mais,
Pela saudade
Que me invade eu peço paz”.

Chorou feliz, ao acompanhar, cantando para ele, a letra triste. Ele sorria e a envolvia. Cada vez mais. Era um bom início.

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17.02.09 em: Terça
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