Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postTraduções…

Gazza

Imagem dos
Nossos
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Erguidas
Reprimidas
Angústias em
Nossos
Corações
Impacientes
Amores

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02.10.09 em: Sexta

postVentos arrasadores

Raquel C. de Medeiros

ventos2- blog
 
 
- Se você não sabe o momento de parar, a vida te vomita, Ulisses- disse, em tom blasé, a Dra Alice B., sua terapeuta – E você vai ficar azedo, escorrendo pelo chão, despertando nojo em todos, que vão tentar desviar da sua gosma. 

- O que a senhora quer dizer com isso?- perguntou devagar, tentando conter a raiva.

- É preciso saber o momento de parar de beber, de falar, de comer- disse, mexendo em seu caderno de anotações – De cobrar, de dever, de acusar. Há de saber o momento de parar de se lamentar. O momento de parar de brincar. Até de sorrir, Ulisses.

- A senhora quer dizer que não sei parar de quê?- disse, entre dentes.

- Existe uma linha, Ulisses, que só a sensibilidade humana pode ver. E se você não enxerga e a ultrapassa, a vida sinaliza- disse, agora mirando os olhos do paciente – E pode ser um grito, um afogamento, um vômito. Um não. Se você não sabe o momento de parar, você intoxica o mundo e ele vai ser intolerante com você. Porque a vida exige que você saiba o momento de parar, seja você pai, mãe, filho, patrão, empregado, juiz, ladrão, artista.

- A doutora não gostou dos meus quadros?

Ela respirou fundo e alto, preparando-se para falar.

- Está vendo esses traços aqui? Você não soube o momento de parar de pintar, assim como tudo que você faz. Essa ventania que entra na sua casa e sempre derruba os seus quadros é você, Ulisses.

Riu sem segurar o hálito irônico, antes de calar-se por alguns segundos.

- A senhora não acha que está sendo muito dura comigo? – perguntou, buscando os olhos de Alice B.

- Você nunca percebeu que os momentos mais promissores de sua vida apareceram e você os desperdiçou, Ulisses? Algumas vezes por uma palavra a mais; por um traço a mais. Estou apenas tentando tirar os grãos de areia que o seu próprio vento sopra nos seus olhos.

- Ah, doutora Alice, para isso eu tenho colírio- não se conteve.

- Sabe Ulisses, você me chama de doutora de um jeito que me incomoda- disse, desviando rapidamente o olhar de seu caderno para o do paciente. Será que você poderia me chamar somente de Alice?

- A senhora é muito requisitada, mas não tem talento nenhum para tratar de um artista. Ouro de tolo, isso que você é. Pra mim, não serve. Vou embora e não volto mais aqui. E gosma que escorre pela rua é da senhora sua mãe.

Bateu a porta, em fúria.

Vai tarde. E cedo, pensou Alice B., aliviada, fechando seu caderno de anotações. Sua pele sensível não tolerava aquelas ventanias dramáticas. Tóxicas. Olhou para os quadros esquecidos no consultório um pouco aborrecida: teria que decidir o que fazer com eles. Suas paredes não os aceitariam.  

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01.10.09 em: Quinta

postGrito

Aline Leal

A que a vida enrima
a sair de sua gruta?
Se na vida sou poeta
No poema sou uma puta
 
Se na vida sou uma pedra
sou o atraso, o pêndulo
da conduta
No poema aciono a seta
que assume, introduza
 
Se na vida sou uma reta
os quadrados, dos catetos
a hipotenusa
No poema sou a esfera
que por fora está inclusa
 
Se na vida sou uma guelra
em que o ar se entrecruza
No poema estou na selva
em que eu bicho
solto urras
 
Se na vida eu taciturno
e reclamo, em desespero
as correntes do obscuro
no poema eu discurso
o mesmo enredo
o mesmo sumo
eu grito junto

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30.09.09 em: Quarta

postIntolerância

Tiana Maciel Ellwanger

         Raimundo Gentil era o seu nome perfeito. Gentil era daqueles que aprendeu a amar o poder. Ou melhor, cedo percebeu que assim era mais fácil. Criado numa casa católica-apostólica-romana, seu pai era prefeito de Circo dos Goytacazes. Conviveu desde a infância com o glamour e chatices sociais que era obrigado a presenciar. E participar, mesmo que com a ausência reprimida. Gostava de rock’n roll para o desespero de Antonio Gentil, o pai.

         Margarida era a amiga que mais gostava, desde os treze. Era a preferida só dele, por sorte ou infantilidade dos colegas de classe. Sua voz grave na banda da escola acompanhou seus pensamentos mais sórdidos na adolescência passada nos longos banhos. Aos dezessete, era linda, voluptuosa, e linda, em curvas circulares, e linda. Dentes brancos como o de nenhuma outra mulher, apreciava. O pedido de casamento veio no terceiro mês, sem um beijo sequer.

          Ela aceitou, sem convencimento. Ou convencida pela mãe pragmática. Casaram-se e Gentil percebeu que sua atração por Margarida era nada. Era? E vendo Pedroso, naquela mesa de bar, olhando para as mulheres que não a sua, percebia, mesmo que sua consciência dissesse o contrário, que o que mais gostava nos bares era, sim, de Pedroso. Barbudo, forte, voz firme. Pedroso, que agora levava para seu banho longo. Era mesmo Margarida que levava para os banhos adolescentes ou apenas sua voz?, perguntou-se sabendo da resposta. E a descoberta da atração pelo homem que concordava com suas frases machistas, não tardou, o enlouqueceu. Enlouqueceu.

          Enquanto Margarida exibia-se com a nova lingerie comprada em Friburgo, detalhou o plano em sua mente. No dia seguinte, Pedroso agradeceu o convite ao telefone. Levaria o vinho uruguaio que ganhou de aniversário. Não, não, Enriqueta (mulher de Pedroso), não poderia vir, Gentil inventou desculpa de conversas futebolísticas e estratégicas, decisivas. Pedroso concordou. Estranhou por um momento, mas concordou.

         Gentil pediu a Margarida um jantar especial naquela noite, depois da noite prazerosa com ela, inspirada em Pedroso. À mesa, o amigo contava a história do presente uruguaio. Na verdade, era a terceira vez que falava do assunto, complementando-o com a bebida no copo de Margarida. Foi a deixa. Levantou-se, pegou a faca ainda não usada e afiada, e, à direita do homem sorridente, por um momento, teve vontade de sentir o seu cheiro mais de perto. O desejo acabou com qualquer possível desistência do plano raso. Colocou a faca na garganta dele, e de uma só vez, percorreu, com a lâmina, seis centímetros de seu pescoço.

          Margarida gritava com o sangue na mesa. Sem entender. Ele aumentou o som. “Hold my breath as I wish for death. Oh please God, wake me”. E falou as coisas mais absurdas que ela ouviria até chegar ao manicômio judicial. Aos policiais, Gentil disse que tentou segurá-la, mas que só conseguiu quando já era tarde. Eles acreditaram, ela, fraca, sem ação. A revolta só veio depois, na cadeia. Ele acertara: resolveu dois problemas com uma facada só. Com o perdão, leitores, do trocadilho infame.

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29.09.09 em: Terça

postDiminutivo

Luciene Braga

Estava cansado de tanta falácia retórica. Tinha de seguir hierarquicamente aquela anta de escarpin que dizia: “Poderia botar num envelopinho? Nossa, esse materialzinho que eu preparei foi elogiado pelo pessoal da mídia. Obrigada pela ajuda. Afinal, como está o seu filhinho? Melhorou daquela sinusite? Coitadinho…”, ela perguntou, enquanto comia um bombom barato.
Ela reunia, em uma frase que nem meio minuto durara, tudo o que ele abominava: infindáveis diminutivos da voz falsamente doce, o hábito patético de fazer o próprio elogio, o agradecimento (ele havia executado a eloquente ideia dela, com a ajuda, sim, de muitos orixás, e deu no materialzinho) e, por fim, a pergunta final, que retratava o quanto ela desprezava a vida privada dele. Colocar a sua filha no teatro o irritou profundamente. Ela nem se lembrava que ele tinha filha, não filho. Incrível como podia ser tão insuportavelmente barata.
Respirou fundo e respondeu. “‘Não é filho. É filha. E gastrite, não sinusite. Ela está bem. A crise foi há duas semanas. Felizmente, nem me lembrava mais do episódio. Mas fico grato por perguntar. E seu marido, continua desempregado?”, desferiu, com a maldade compensadora. Sabia que ele estava fora do mercado. Antes que ela respondesse, ele perguntou se o casamento não estava sofrendo as intempéries típicas de homens que passam períodos sem trabalho – e sem dinheiro para comprar paz diante de mulheres opressivas e arrogantes. Além disso, sabia que o cara passava mais tempo com a amante de 20 anos agora.
Uma adrenalina mais forte que a sua razão tomou-lhe apaixonadamente, e ele disse que conhecia um bom terapeuta para casais, enquanto ela engolia o chocolate, sem reação.
Sentiu, enfim, que dera o troco. E continuou a exibir segurança, com gosto de vingança por todas as vezes em que ela o irritou.
Ele disse que ela poderia contar com o apoio dele e chegou a abraçá-la, ao se despedir da conversa mais cruel que já experimentara. E divertida.
Ela jurou que continuaria esmagando o ego dele diariamente. “Obrigada, jamais esquecerei seu apoio. Vamos superar juntos essa fase. Com certeza, o mais breve possível”, ela respondeu, jogando a embalagem do chocolate na lixeira com design holandês completamente amassada. Que insuportável ele era.
Ele virou as costas e sorriu cínico, sabendo que ela o via pelo espelho.
Sentia-se bem.
Descobriu uma nova forma de extravasar ódio. Aprendeu a brincar. Direitinho.

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28.09.09 em: Segunda