Gazza
Jesus Cristo deu a vida pela salvação, Moisés abriu o Mar Vermelho, judeus e palestinos selaram a paz, o Universo surgiu do Big Bang, Lobisomem só aparece em lua cheia, ovo faz mal à saúde, muita punheta dá espinha, manga com leite mata, mulher menstruada não pode pisar o chão descalça ao acordar, filhos de incesto nascem deformados, a Aids surgiu dos macacos, mulher nariguda é boa de cama, fumar broxa, dinheiro traz felicidade, a Ciência vai salvar o mundo, Wilson Simonal era informante dos militares, o aquecimento global é causado pelo homem, Elvis não morreu, a psicanálise salvou o homem, um asteróide vai se chocar com a Terra, sua ex é tão simpática, desculpe, estava um trânsito horrível, claro que eu conheço o caso Baronneti, Ronaldo não sabia que eram travestis…..Pode deixar, eu te ligo….
Por que eu contaria outra mentira?
24.04.09 em: Sexta
Raquel C. de Medeiros
Mesmo que as declarações de amor sejam frágeis e as palavras desmaiem, desnutridas, entre os meus seios. Mesmo que a canção que me consola não te arrebate. Mesmo que a fruta proibida não tenha o mesmo mel para nós. Mesmo que o romantismo seja uma piada na sua boca, ainda assim eu a respeito. Desejo. E invento uma estação especial para nós, onde minha lareira derrete, devagar, toda a dor da sua alma. E então você fica livre, completamente livre para me amar, mesmo que você não confie nos meus versos e se esconda nas entrelinhas da minha prosa. Ainda assim eu te procuro e te escrevo para dizer que todo frio é passageiro e toda estação tem suas verdades e suas noites sombrias. Ainda que você não acredite na força das palavras e eu desconfie de passos tão desritmados: há qualquer coisa em você ou em mim ou em nós que me inspira e me convida para um passeio na antiguidade. Uma alvorada doce que adivinho no aperto do seu abraço. E dessa infusão pode nascer o amor, mesmo que o parto seja apenas a cadência de um verso. Ou uma ponte para o desconhecido que tanto tateamos. E assim eu quero: um amor bonito e talvez ingênuo, que compreenda que as mentiras às vezes são delicadezas que nos poupam de um monte de coisas que não servem para nada. As mentiras, de fato, podem nos salvar de bombas de verdade. Por isso, o perdão maciço e permanente nas minhas anáguas rasgando e curando as feridas que se espalham pela minha pele. Ainda que você se feche.
23.04.09 em: Quinta
Aline Leal
Atenção, Atenção, ilustres eleitores,
Eis que exponho aqui
o teor da minha campanha
É mais que pão, não é só circo
é um misticismo prático
um parque temático e lasanha
É grão de bico e tico-tico na aranha
Minha plataforma é uma orgia na orla
Com todas as putas de Copacabana
Bebedouro de Fanta em cada esquina
Piscina de gelatina e mel na cama
É musica ao vivo, é fogo nos livros
A branca no vidro e a preta apertando
É drinque no inferno, um link pra cana
É fim de, toda semana
Meu chapa, minha chapa, que a chapa vai esquentando
É do Hedonista Forniqueiro
Não cobre bueiro, mas tira cabaça
Não achata asfalto, assume o comando
E garante: prazer imediato.
22.04.09 em: Quarta
Tiana Maciel Ellwanger
Cabelos lisos frisados ou não, amanteigados secos, cachos definidos coloridos sem caspa, normais. Oferta. O tempo passava e eu não conseguia deixar a sessão de higiene para trás, qual seria o xampu para o meu cabelo? Não decidi. Carrinho vazio, parei para ouvir a conversa dos dois, abaixados, que fingiam arrumar a prateleira.
Eu estou bem mais tranqüilo agora. Encontrei com ela, mas disse que estou casado e na Igreja. Não vamos nos encontrar mais. Fez bem, essas coisas quando acabam, é melhor não ficar vendo não. Mexem, sempre vai mexer, ainda mais que vocês tiveram uma história. Mas rolou alguma coisa? Sim e não, sabe? Não foi muito, como vou dizer, natural. Você entende, né, Bel? Queríamos falar muito e abraçar, mas não fizemos nem um nem outro. Ficamos nos olhando e eu só repetia que seria melhor assim. Se fosse em outros tempos, voltaria para casa de manhã e Luisa ia chorar, chorou à beça da última vez, horrível. Mas teve uma hora que quase tocamos os lábios um do outro, meio sem querer. Então, eu disse, Tarso, melhor não ver. Acabou. Não dá para ter tudo, seus filhos, crescendo. Crescendo.
Sabe onde fica o açúcar?, perguntei. Interrompidos, olharam, ele respondeu: Segue esse corredor, está escrito peixes na placa em cima. Peixes? Obrigada. No caminho, tive de parar nos doces. Dourados e vermelhos os chocolates, a criança observava e pedia. A mãe fingia que não ouvia. E não ouvia. Só eu ouvia. A criança ficava maior do que a mãe; eu não estranhava. Abraçou a prateleira de chocolates, que agora eram pães. Iam cair. Será que esse feijão cozinha bem? É mais barato, a mãe impediu a queda, a um metro de mim. Com feijão, melhor não arriscar, respondi como achava, aliviada. E seu rosto, enquanto falava do feijão do almoço de ontem, se transformava no de minha amiga, Carolina. Ela apareceu num restaurante com um peixe, enorme. Continuava a falar, agora familiar. Gostei do vestido. Mas achei que tivesse saído de blusa azul?
Andei rápido para pegar mais um café, e ouvi a voz da promoção. Minha querida, manteiga sem colesterol a três e cinqüenta, só agora, dois minutinhos. Fui para a seção de peixes e vi o homem da voz, grave demais para ele, que era pequeno. Desviei o olhar para não valorizar sua fama enquanto os peixes olhavam, mortos e tristes. Ele se fazia de difícil, acho que para mim, e dizia para as gordas que o rodeavam que a promoção já havia acabado. Mentira, todos sabiam. Fechei os olhos e abri debaixo d’água, peixes vivos. Eles me olhavam profundos, com o olhar daqueles que procuram respostas no mar. Chorei sem ar. Soluçava e ninguém via, voltei ao supermercado.
Feijão bom, R$ 3,59, eu não li, a voz falou para mim. Cinqüenta e oito estava anotado na minha lista? Cadê a lista? Eu riscava e ela aumentava, riscava e mais nomes apareciam. Mas eu não conseguia ler, nada. Nem tentava. Nas carnes, dúvidas, depois volto. Frutas caíam no chão, o garoto, outro pequeno, gritava por caqui? Achei engraçado.
Na seção de queijos, senti que cairia no chão, com os ovos, em cima do carrinho vazio. Abri os olhos e senti que acabara de inspirar, rápido, assustada, teto branco, sem cair.
21.04.09 em: Terça
Luciene Braga
“Sorri — pois o que tinha a temer? Dei as boas-vindas aos senhores. O grito, disse, fora meu, num sonho. O velho, mencionei, estava fora, no campo. Acompanhei minhas visitas por toda a casa. Incentivei-os a procurar — procurar bem. Levei-os, por fim, ao quarto dele. Mostrei-lhes seus tesouros, seguro, imperturbável. No entusiasmo de minha confiança, levei cadeiras para o quarto e convidei-os para ali descansarem de seus afazeres, enquanto eu mesmo, na louca audácia de um triunfo perfeito, instalei minha própria cadeira exatamente no ponto sob o qual repousava o cadáver da vítima.”
Todos os dias, quando Magno, um técnico em eletrônica, acorda, tenta se orientar entre sonhos e personagens que só perfazem sentido no estado hipinagógico. Ele tenta descobrir o que é, de fato, de verdade. E por que sente tanta falta dos personagens de livros quando acabam? Jovens (que já não era) dizem o que gostaria de formular. No sonho, ele não consegue gritar e tem uma voz de tenor invejável nas rodas e serestas. Gosta mesmo é de voar, mas é trôpego como as ideias tortas. Inveja os seres do sonho, como cortam laços, andam nus, avançam sobre os outros. Morrem e voam também para o longe geográfico e espiritual, e ficam, deixando presença mágica. Pode senti-los durante o dia.
Ao se deparar com o texto de Poe, pensou que, sem exceção, todos escondem mortes reais ou desejadas sob a cadeira.
“Invento. Mentir não é problema. Danço entre poucas verdades, porque não tenho a ganância ou soberba de conhecer todas”, disse, em telefonema à mulher, Augusta, que trabalhava para um grande banco e estava fora do país. Perturbado por uma paz impecável, construiu dois amigos imaginários para dizer-lhe coisas que leu. Márzio, um pianista lido, ensinou que era bom passar dos 40 e perder a pressa da canonização ou da fama dos atributos que geralmente seres de carne da era global costumam tratar como admiráveis. “Basta-me o vazio das taças”, com uma expressão inacreditável.
Namíria, a outra amiga, com nome inspirado do que lembrou de um sonho antigo, recomendou mentiras úteis. “Até o meu espelho disfarça. Confesso que não me convenço de que sou assim”, ela falou, entre muitas frases que ele gostou. Casos de amor, épicos, curtas, metalinguísticos da moda, dramas, comédias e até musicais ela é capaz de plagiar na rodas dos amigos.
Uma encenação, como as de entrevistas de emprego, promessas de ligar no dia seguinte e sorrisos amarelos. Como cerimônias de premiação e casamentos.
“Eu minto. Acredite”, ele contou à mulher no aeroporto. Carregou a mala dela, mas achou leve, apesar de ter reclamado. Ela não o estranhou e ainda complementou. “Sempre acreditei”.
20.04.09 em: Segunda