Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postSaideira…

Gazza

Já era possível ver a suave luz do amanhecer, mas Lígia ainda bebia como se fosse o início de mais uma noite. Mais uma. De tantas que já havia vivido. Não sabia mais ao certo o rumo que a vida havia seguido. Nem mesmo por quê. Sabia que terminaria ali, no mesmo boteco sujo e fedorento da Avenida Prado Júnior, em Copacabana.

– Vai a saideira dona Lígia?

– O que você acha – respondeu, irritada com Antonio. – Sempre a mesma pergunta, parece que não me conhece, porra!

Antonio não só conhecia como já não ligava mais para as reações de Lígia. Nos últimos dez anos, acompanhou de perto (quase sempre) a vida da meretirz entre os tragos no boteco e as andanças nas calçadas do tradicional ponto de prostituição da Zona Sul carioca.

– Sabe, Antonio, um dia ainda vou largar essa vida – repetia Lígia e se calava com mais um gole .

Os dois sabiam que não, mas a rotina tinha de ser cumprida. Era fato. O cansaço de Lígia também. O corpo já não rendia o sustento dos bons tempos. As marcas da vida, do sofrimento, eram visíveis. Mas havia o aluguel, a fome, o vício e tudo o que dependia daquele corpo, já vivido quatro décadas. Na noite seguinte, tudo começaria novamente.

Os bons ouvidos de Antonio sabiam que a amiga do balcão se preparava para mais um discurso.

– Aquele filho da puta acabou com a minha vida, Antonio. Era assim que Lígia sempre se referia ao pai. – Só despedaçou a minha infância e foi embora.

Enquanto Lígia falava, um homem entrava na espelunca. Encostado no balcão, pede uma dose de cachaça e fixa o olhar na única mulher que ali se encontrava. Eram 5 horas da manhã.

– Antonio, taí minha saideira. Até mais…

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12.06.09 em: Sexta

postChoro bandido

Raquel C. de Medeiros

Senti que aquela cena me arrancaria a alma: ela chegou à delegacia, eu não esperava. Até então a minha raiva daquele garoto tão inconseqüente era tamanha que poderia esganá-lo. Atirou contra uma menina da minha idade porque precisava de dinheiro e ela só tinha três reais. Mas por que matar?, perguntei, precisava de respostas para o jornal do dia seguinte. Há dias que venho pensando que já tenho dezesseis anos e ainda não matei ninguém, ele respondeu, parecia ainda drogado. Eu era o único do grupo, continuou, e comecei a me sentir mal. Mas quando ela entrou na delegacia, a mãe do marginalzinho, olhei para aquela figura de olhar docemente miserável e imediatamente conectei-me a sua dor. Aos prantos, ela perguntava: por que, Junior, por que você fez isso comigo?, e era como se ela tivesse matado também. Ele não olhava para a mãe, A culpa é minha, ela gritava desesperada, não devia ter colocado o nome do pai no menino, soluçava. Só descobri que não prestava quando o Junior estava com um ano, ele me enganou, enganou a minha família, somos todos gente de Deus. Olhei para ela, cúmplice, oferecendo-lhe alguma força, e então ela continuou: Eu não sabia que o Armando não prestava, só descobri no dia que morreu. Foi um susto igual ao de hoje, continuou, e abaixou a cabeça, segurando a testa com as mãos. Se eu tivesse colocado outro nomeDô um duro danado pra criar esses menino, Como você teve coragem, Junior, como você teve coragem? Agora só ouvíamos um gemido que representava uma das dores mais profundas que alguém pode sentir neste mundo, identifiquei e então comecei a chorar junto. Senta aqui senhora, puxei a cadeira e ela sentou-se. Quando achei que a cena já tinha me rasgado inteira entrou outra mulher, gritando e xingando o garoto: dessa vez era a mãe da vítima, Seu filho da puta!, ela entrou gritando, aos prantos. A senhorinha do olhar doce levantou-se, com o instinto de um bicho que vai defender a sua prole, mas não teve forças: eu não devia ter colocado o nome do pai, repetiu, agora baixinho, olhando para o teto, parecia buscar respostas com Deus. Voltei para a redação e escrevi a matéria do dia seguinte, mas o que eu realmente gostaria de contar ficou escondido, me cutucando: como você seria se fosse filha da miséria? As respostas me tiraram o sono, a vontade de acordar.

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11.06.09 em: Quinta

postÊ miserê!

Aline Leal

O baile de quinze anos da neta mais nova dos Queiroz e Camargo corria solto pelo salão do Piraquê. Adolescentes dançando e aprendendo a beber e, como aprendiam, ainda não eram escolados: abusavam na quantidade e na mistura, eram derrotados muito antes do que gostariam, mas não tinham tanto a confessar, ou tamanha reputação a macular. Os adultos, familiares, excessos igualmente cometidos, estes sim, propensos ao vexame e a mostrar muito daquilo que gostariam de esconder.
A tia Ângela vai ao banheiro. Na bolsa de mão, o único cigarro da noite – distante da influência negativa à filha, do mau-humor do marido e da recriminação dos parentes. Dá de cara, ali, com a sobrinha, irmã da debutante, filha do irmão Dalton, o empresário do ramo do aço, o bem-sucedido da família, que pagava o curso de inglês e o pré-vestibular dos sobrinhos. Não era original a ideia de fumar escondida no banheiro.
- Rita, você…fumando?
- Adivinha só, tia, eu também não sou mais virgem.
- Ninguém deve ter vergonha daquilo que é.
Mimi, a debutante, não estava satisfeita. Se há algumas horas confessara à amiga que o que mais a agradava era a inveja que a festa despertava nas outras meninas da classe, a perspectiva de um avô metido a tocar Carinhoso no piano era sinônimo de humilhação. Esta, ampliada porque Seu Zé, já um tanto senil, trocava as notas, repetia o refrão e emendava a canção na mesma canção.
- Tira o vovô Zé do piano, agora!- ordenou à mãe.
Rosana, com uma delicadeza brusca, arrancou o velho do banco e o encaminhou à ala dos setenta pra cima – um cantinho perto da cozinha, atrás da cortina de veludo vinho -, estava no controle da situação. Há pouco, enviara Juju, a sobrinha que entornara meia garrafa de whisky com guaraná e fizera xixi no meio do salão, num táxi de volta para casa. Dentro de pouco, a valsa ia começar.
Dalton, orgulhoso, exibia-se a si e a sua pequena pepita de ouro em passos ensaiados. Não fosse o aparelho nos dentes, os pelos no rosto, e a semi-deformação de um rosto ainda semi-formado de adolescente, a imagem fosse talvez mais elegante. Sorrisos para a foto, charme para o vídeo, outro ângulo, nova pose, aja naturalmente, vira pra cá, saiu de olho fechado, esconde a gengiva, cuidado com o fio, vai tropeçar.
 Tio Orlando, irmão da Rosana, quer fazer um brinde; tem todo o direito, é o padrinho; está confiante, já pôs pra dentro cinco, e vai de improviso:
 - Em primeiro lugar, não gostei de terem expulsado minha filha só porque ela mijou no salão. Bem, Mimi, afilhada querida, engordou bastante este último ano, muito leite condensado, fiquei sabendo. Sei que com 15 anos as meninas estão desflorando. Então lembrem-se, bonecas: se for rolar um tcheca na butcheca, fiquem sabendo que chupar bala com papel também é saboroso!
 - Mãe, tira o microfone do dindo Orlando, agora!
 As luzes se apagam e o pai convoca a galera para a mesa do bolo, acendem as velas e alguém puxa o coro:
 - Casaca, casaca, casaca – saca – saca, a turma é boa, é mesmo da fuzarca… Vasco!

Mas Mimi é flamenguista.

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10.06.09 em: Quarta

postMiseráveis

Tiana Maciel Ellwanger

          Ela dançava e dançava, sem se preocupar com o que pensava e pensavam. A música entrava pelos pés e latejava no centro do corpo, entre as costelas, onde a angústia, quando chega, aperta. E apertava há duas semanas, cessando apenas no sono.

          A perda de Bel, que deveria estar ali dançando com ela, fazia Ana chorar, sem parar de dançar. Morte estúpida, atropelada pela bebida, pensava e bebia para esquecer a amiga enquanto lembrava e chorava, soluçando entre os flashes estroboscópicos que iluminavam suas lágrimas a cada segundo e meio. Ninguém percebia ou ela não percebia ninguém.

          Alfredo bebia uísque porque podia pagar e mostrar que podia pagar. Passou a mão na cintura da moça rumo ao banheiro, com a certeza da rejeição. Ao olhar reprovador dela, respondeu com beijos ao vento. No segundo gole do terceiro copo, virou para a pista e parou os olhos em Ana, dançando, sozinha, esfregando os olhos, depois com a mão entre as costelas, abaixo do coração.

          Não seria difícil, dançava sozinha porque sozinha não queria ficar. Esperou até alguém chegar junto dela, mas nenhuma amiga, nenhum homem aproximou-se. Foi até Ana e, por trás, colocou a mão em seu quadril. Levou um empurrão que, por reflexo, teve vontade de devolver, mulher maluca, mas foi impedido pelos olhares de espanto ao redor. Ela olhava com raiva e lágrimas, já sem dançar.

          Ele pediu desculpas pelo susto, ela pediu que ele saísse, ele implorou pelo nome, ela disse que não queria conversar, ele disse que ela deveria, ela disse chega, ele disse que não entendia, ela disse que só queria dançar, ele disse que não se preocupasse, ela insistiu que fosse embora, ele disse que pagaria uma bebida, ela disse que não queria, ele disse, sorrindo sarcástico, que a consolaria. Ela gritou: Sai daqui, seu miserável! Ele, com vontade de socar-lhe a cara, respondeu no mesmo tom: ‘idiota’, ‘miserável é você com esse cabelo ruim’, ‘chora mesmo, sua vaca gorda’. Ela teve vontade de matá-lo e, soluçando de raiva, pediu, ajoelhada, que Bel voltasse para um abraço, o último que fosse.

          Olhou em volta na esperança de ver a amiga voltando do banheiro, falando sobre o Leandro, e festejando, com pulinhos, a música que tocava. Só viu olhares de pena. E chorou, com as mãos puxando forte chumaços de cabelo, ao lembrar da última conversa com Bel, antes do fim: Amiga, vamos ao show, é o Sorriso, vamos? Tô sem grana, Ana, não vai dar, vou tomar uma cerveja por aqui mesmo. Pena (disse sem insistir), então nos vemos amanhã. Antes do amanhã, recebeu a ligação que a fizera entrar em desespero. Isabel morrera atropelada, não viu o ônibus quando saiu do bar, disse a voz ao telefone. Desespero que voltava agora com a mesma intensidade, sem Bel, sem o abraço, sem dança, só com a miséria, sua e dos outros.

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09.06.09 em: Terça

postGlenn

Luciene Braga

gollum

Só descobriu o tamanho da miséria afetiva que a acompanhava há anos
quando se viu clicando o “enviar” do e-mail.
Baixou a Glenn Close (por que ninguém se lembra do nome do personagem
dela em Atração Fatal?) e mandou. Pronto.
Pinçou a foto do gollum da trilogia ‘Senhor do Anéis’ e escreveu: “A
foto dela está muito bonita. Veja a expressão de paixão ‘my
precious’”. E, pimba, enviou. Dane-se, danei-me, mandei, foi, acabou.
Arrependimento não mata, mas vergonha pode chegar perto. E está chegando.
Só descobriu que desceu muito fundo ali, ao olhar, vazia, a tela do computador.
A noite seria como muitas outras. Cinza e manchada, feito tela de
televisão fora do ar.
Outra vez. Poderia pegar o carro e partir para uma noitada do tipo amnésia.
Ou ficar inerte.
Foi para o restaurante que sabia que ele frequentava às
quintas-feiras, quando queria impressionar suas damas.
Esgotada, foi. Pronto, foi.

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08.06.09 em: Segunda