Mais uma semana começava.
– Cecília, larga esse rádio. Tem uma muda de roupa para você lavar, agora.
A voz da mãe, aguda ao extremo e desafinada na mesma proporção, soava como um pesadelo para a filha. Não gostava dos afazeres de casa nem da vida que levava. Era apaixonada por música. Costumava, sempre que a rotina lhe permitia, ficar horas ao lado do pequeno rádio de pilha viajando ao som de Caetano Veloso, Belchior, Chico Buarque e outras feras da MPB. Tinha seus dias de soul music, quando as viagens eram marcadas pelo suingue de Marvin Gaye, Tim Maia, Four Tops… Era tudo que ela queria. E era tudo que a mãe desprezava.
– Menina, larga de ser boba. Parece uma bocó com esse rádio pra lá e pra cá – bradava a mãe, sempre que flagrava Cecília ouvindo música.
A escola já havia ficado para trás, diante da miséria. Era preciso ajudar a mãe para aumentar a parca renda da família. Os três irmãos menores ainda estudavam, mas Cecília sabia que seria por mais pouco tempo. Como ela, seguiriam o mesmo caminho para garantir um pouco de decência à vida. No pequeno barraco de dois cômodos, não tinha qualquer privacidade.
Esperava, sempre com ansiedade, a noite chegar. Antes de dormir, colocava estrategicamente o rádio sob o travesseiro. Ali, encontrava a vida. E se libertava.
Em seu universo paralelo, sentia a vida pulsar diferente. Em cada acorde, em cada melodia, em cada palavra cantada, a essência de estar ali. Havia desistido de trazer seu mundo para a realidade das mudas de roupa, da fome quase diária. Não suportava o som e as cores daquela rotina.
“Não preciso que me digam, de que lado nasce o sol
Porque bate lá meu coração
Sonho e escrevo em letras grandes de novo
pelos muros do país…”
Naquela noite, a música de Belchior soara diferente. Como se tivesse ouvido uma melodia premonitória. A rotina pesava sobre suas costas, a vida, a relação com a mãe. Fechou os olhos para abraçar o sono, que chegara sob as canções que embalaram sua vida.
– Levanta menina, levanta. Tem muito serviço hoje. Cecília, minha filha, acorda!
Cecília nunca mais voltou…
Era outono em Berlim e eu tentava descobrir a face noturna da cidade quando ouvi uma linda voz cantando a música que ele havia feito para mim. Um pouco a frente, encostada em um muro, a dona da voz dedilhava seu violão e entoava, melancólica, os meus versos: era uma interpretação tão profunda que parecia que em toda a cidade só havia ela e a penumbra de sua dor.
Parei próximo à moça e a algumas outras poucas pessoas, que também a assistiam. Logo compreendi que ela cantava para chamar o seu amor de volta. Era como se a minha música, que também era dela, precisasse daquele gesto para sobreviver. Então abria e fechava os olhos, acelerava e freava a melodia e nosso coração batia tão forte como se a música fosse morrer.
Então eu não me agüentei: comecei a chorar e senti que de seu rosto também escorriam lágrimas, tão pesadas quanto as de Petra Von Kant. Mas eu não conseguia vê-las. My funny valentine, sweet comic valentine, you make me smile with my heart, E para tentar salvar a canção daquela iminente morte, a moça recomeçava a cantar. Então eu olhei para os lados e percebi que as pessoas pediam bis em silêncio. Depois olhei novamente e percebi que todas as pessoas eram eu.
Fiquei desnorteada mas permaneci ali, ouvindo a moça, que cantou a minha música até perder a voz. Quando isso aconteceu, ela continuou a tocar a melodia e nós, a platéia, entoamos a letra: stay little Valentine stay, each Day is Valentine’s Day. Foi tão bonito que as estrelas, juro, aplaudiram. Depois, emocionada, ela tentou dizer: essa era a nossa música, mas sua voz não saiu. Tive a sensação de que só eu havia ouvido e completei, baixinho: de repente não mais. Mas ela me ouviu e, pela primeira vez, olhou para mim, dentro dos meus olhos: em quantas gavetas será que já a guardaram? Depois pegou seu violão e atravessou o muro, como um espírito.
Tentei correr atrás dela, sem acreditar no que havia acontecido, mas não a alcancei. Acordei chorando. Não havia ninguém ao meu lado. Também não havia música feita para mim, não havia Berlim, nem mesmo uma prova de que a canção existia. Havia apenas a lembrança da história de uma música alegre que não mais que de repente ficara triste de doer. E o desejo ardente de ser a sua funny valentine, very very funny valentine.
Pegaram ônibus porque era mais divertido que andar de carro, esperá-lo no ponto, fazer sinal, subir as escadas, pagar a passagem, escolher um banco para sentar, de cima olhar pela janela, ficar atento em que ponto parar, puxar a cordinha, descer as escadas, caminhar até o destino de mãos dadas, Suzana assobiando qualquer coisa e Otto apontando essa mania que já tinha identificado apesar do pouco tempo que se conheciam.
Ela propôs um jogo em que um adivinhasse a música que o outro estivesse assobiando e logo se deram conta de que Suzana era melhor de adivinhar e Otto, de assobiar a canção (ficou a dúvida se era Otto que adivinhava mal ou se Suzana que era ruim de assobiar). Era uma sensação boa compartilhar uma brincadeira tão simples, quase boba, como se um apreciasse no outro uma bondade infantil que fosse indício de que as coisas caminhariam bem.
Quando era hora de cantar a música assobiada, um e outro emitiam o comentário de como eram desafinados; envergonhados com a exposição, desculpavam-se de antemão – e essa atitude previsível os tornava ainda mais bobos. A brincadeira teve a duração de uma noite e a manhã do dia seguinte; enquanto levava Suzana até o elevador, Otto assobiou uma canção e ela adivinhou de primeira.
Na noite do mesmo dia, Suzana retornou ao apartamento de Otto e a tentativa de retomar a brincadeira mostrou-se impopular. Ele escolheu o repertório, cozinharam e jantaram, fumaram um cigarro e conversaram, beijaram-se e ficaram deitados na cama escutando a música gravada no computador, Suzana por muito tempo de barriga pra cima, os olhos abertos, demorava a dormir ao lado de estranhos. Quando finalmente pegou no sono, uma música gravada num volume alto a acordou e ela se levantou perturbada para desligar o computador, queria dormir sem som.
Com o tempo, passaram a andar no carro de Suzana ouvindo CDs gravados por Otto e pouco tempo depois perderam o interesse um no outro. Suzana tentou repetir a brincadeira nos casos seguintes e logo tornou-se claro que não era capaz de tornar reconhecível uma música assobiada por ela. Otto nunca mais conseguiu que adivinhassem de primeira uma música assobiada por ele como quando Suzana gritou enquanto a porta do elevador se fechava: O sole mío!
Olivia tinha nome de artista. E queria ser uma tal. Como seus dotes, que eram muitos, ainda não despontaram para os tabloides e programas de fofocas, e também ela não tinha acesso a áreas vips de shows, o jeito era ajeitar uns contatos. Fazia o que fosse preciso por um lugar nos currais de famosos em dias de espetáculo. E ganhou desenvoltura para falar nomes de gente que gostaria de ser.
Era bonitinha, saía bem nas fotos. Como seu olhar era daqueles convidativos para homens apressados, acostumou-se a poucas horas de sono. Era o jeito de pagar o ingresso. Olivia consumia tudo: MPB, Bossa Nova, Rock e até um pouco de Jazz. Decorou alguns nomes e impressionava. Amigos até perguntavam detalhes de artistas estrangeiros. Viu as fotos de Chico Buarque com a anônima e lamentou não ter sido ela. Ah, aproveitaria aquela história como ninguém. Vestia-se como rock star. Fazia sexo como groupie, e também era elogiada por isso, mas não conseguia avançar em seus planos, até que um colega jornalista a convidou para um certo show. Ele tinha acesso ao camarim e pretendia entrevistar o astro. Para ela, era a grande chance.
Descoloriu os cabelos, vestiu sua calça mais justa e treinou o andar. Olharia para o tal com jeito desinteressado e farto. Era bonito, achava, näo que se importasse. Convidou o amigo para beber algo antes de irem. Planejou tudo. Pegou a credencial e deu a ele um barbitúrico capaz de amansar o mais eufórico. Deitou a cabeça dele com cuidado, fechou a porta e correu para o show certa de que o melhor seria o seu.
E, de fato, foi.
Conseguiu que o cantor milionário retirasse todos do camarim só com uma olhada de costas. E pediu a ele que cantasse só pra ela. Riu-se do fato de nunca ter se dado ao trabalho de aperfeiçoar seus conhecimentos daquele mercado. Soou bem, embora achasse tudo um pouco desafinado. Os dois impostores fizeram sexo ao som de trilha sonora de filme pornô. Ela reparava que havia boa música nas produções.
O mercado da música lhe fez muito bem: Olivia ganhou carro, viagens, coisas de comprar, ensaios fotográficos e teve até de desmentir boatos. Quando tinha vontade de chorar e nem entendia a razão, comprava ingressos, já que não precisava mais ganhar. E ganhava bem mais que antes, distribuindo tudo. Como era esperta, a preferência era do amigo jornalista.
Como passatempo, passou a ouvir músicas diferentes para fugir do mundo que sempre quis. Funcionava.