Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postAo vento…

Gazza

Diga seu nome
Me revele sua alma
Sua pele alva
Diga quem é
Que serei você
Todo esse céu
Azul do seu olhar
Pra sempre namorar
Caminhar à beira-mar
Outra vez deixar
O vento sussurrar
Todo amor que há

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11.12.09 em: Sexta

postPombinha

Raquel C. de Medeiros

Todos sempre a tratavam no diminutivo. Meiguinha. Lindinha. Gracinha. Uma ternurinha essa mocinha. O nome de verdade ninguém sabia, nem procuravam saber, tão dócil o apelido de infância. Mesmo quando virou mulher feita e ficou independente ninguém, não, nenhum outro nome combinaria com o que queriam fazer dela. Seria a eterna Pombinha, a menininha que obedecia a todos. Prestava favores a quem lhe pedisse. Pombinha, a boazinha demais. Um dia ela encheu-se dos sufixos que lhe prendiam. E mostrou pra todo mundo que boazinha era não ela não. Era boa, apenas.

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10.12.09 em: Quinta

postÉ dose

Aline Leal

Não acredito nessas coisas de mapa astral, tarô, búzios, borra de café. Nunca acreditei, mas minha vida estava uma merda tão grande que resolvi tentar uma numeróloga, que uma antiga vizinha me indicou. Eu estava sem emprego, nenhum cara que prestava aparecia na minha vida, meus amigos haviam se cansado de mim, meus pais me aborreciam, eu estava dura. Não custava nada tentar uma ajudinha sobrenatural.

 

Enfim, fui lá na Madame e ela me disse para trocar uma letrinha de meu nome, agora eu passaria a me chamar Rexane e deixaria a fracassada Rejane para trás. Resolvi confiar e fui no cartório no dia seguinte. Lá eles me informaram que eu teria de recolher vinte cartas que confirmassem que eu era conhecida por este novo nome que pretendia adotar.

 

Até que isso não foi tão difícil de descolar. O pior foi mamãe magoada por eu estar renegando o nome que ela me dera, Rejane era o nome de sua mãe-de-leite mas, e eu com isso? E o papai contando vantagem “Não disse, benzinho, que esse era um nome horrível, faz ela muito bem de trocar. Eu devia ter proibido, mas você não sabe aceitar não como resposta!”

 

Bem, resolvido o problema, fui estrear o meu nome. Incrível! Eu era uma nova pessoa, parece que tinha ficado mais bonita, alegria transbordava de meus gestos e atitudes. Arrumara um emprego, estava de namorado novo, ele está até querendo casar, mas não sei, acho que quero curtir um pouco da vida mais. Talvez viaje, faça um mestrado em qualquer coisa em Barcelona. Minha relação com os meus pais está ótima, a gente construiu uma verdadeira amizade, eu os amo muito. Aliás, há muito amor em minha vida, acho que logo, logo vou poder diminuir a dose do meu citalopram. 

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09.12.09 em: Quarta

postVida e Lívia

Tiana Maciel Ellwanger

Vida nasceu assim, com um quilo e meio de vontade de viver. Nem o pai nem a mãe nem o médico levaram muita fé na sua respiração frágil que sugeria o fim a todo instante. Mas Lucas, o irmão que tinha apenas cinco anos mais que ela, acreditou na menina desde que a vira envolta por tubos maiores que seu corpo minúsculo.

Ao lado da incubadora, ele passava horas olhando para a irmã e, às vezes, encolhia-se abraçando a barriga, como se pudesse sentir a dor e luta da menina para permanecer neste mundo. As enfermeiras já o conheciam e faziam vista grossa para a sua presença proibida no meio daquelas dezenas de alminhas guerreiras.

E com o olhar do irmão, Vida foi engordando, engordando até se parecer com um bebê de verdade. Saiu, aplaudida pelos funcionários do hospital, para o berço da casa que a acolheu sem muito notar sua presença, a não ser por Lucas, que dedicava mais tempo à irmã do que a qualquer outra atividade. Bastava a respiração dela abrandar que ele corria em direção ao nebolizador para acalmar suas feições de desespero, os olhinhos paravam de saltar.

“Meu coração, não sei por quê, bate feliz quando te vê. E os meus olhos ficam sorrindo e pelas ruas vão te seguindo, mas mesmo assim, foges de mim”, cantava para ela, lembrando a voz da mãe que fazia o mesmo com ele quando era menos atarefada. E só assim a menina dormia, tamanho apego ao irmão e ao nebolizador. Orgulhoso, contava ser o responsável pela escolha do nome. “Queriam Vitória, mas eu pedi Vida e mamãe concordou”, respondia a quem perguntasse.

Nada fácil foi o passar dos anos. Vida crescia combatendo as febres e a falta de ar que chegavam de supetão, sem nenhum médico conseguir dar cura ou motivo. Quando a menina fez seis anos, Lucas lembrou de todo o martírio que passara até então e, aos prantos, ajoelhou ao lado da cama do hospital, pedindo clemência divina. Não suportaria a vida sem ela, soluçava, revoltado, como um adulto. Os olhos padecidos da irmã pareciam pedir desculpas pelo sofrimento que causava. Estava fervendo, abraçou-a.

Entre delírios febris, rezas e noites mal dormidas, a menina vingou de novo, contrariando todas as previsões, menos, claro, a de Lucas. Ele preparou um bolo de cenoura solado, com cobertura de chocolate, para recebê-la em casa. Ela comeu de se lambuzar, batendo palmas; adorava aniversários e parabéns. Cada ano era mesmo uma vitória.

Eu estive com Lucas ontem, pessoa iluminada, como dizem os budistas. Meu novo vizinho. Ele me contou essa história quando perguntei sobre a criança que não sossegava, correndo de um lado a outro. Era sua sobrinha, seis anos como Vida naquela história distante; Lívia era o nome dela. Vida morreu de parto, chamando pelo irmão que chegou na hora de prometer cuidar da menina que lhe tirava a vida. E cuidava, Lívia era linda.

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08.12.09 em: Terça

postMoema

Luciene Braga

Correu pelas ruas, seguiu até o hospital. Parou. Não acreditava em solução de terapias, nem as alternativas, que essa coisa de alternativo ficou para trás, nos anos 70. Não conseguiu entrar.

Sentou em um banco do bar ainda incólume ao choque de ordem, aliás, a todos os choques. Pediu uma cerveja, olhou o celular e o guardou. Sentiu falta de um olhar doce, daqueles calados. Soltou a respiração presa.

Pensou nos que têm religião, nos que lêem livros e nos que choram com música. Estava seco. Beberam dele e não chorava mais. E agora só tinha medos. O que poderia fazer?

Pouco mais de uma hora depois, voltou ao hospital. Fez o que tinha de fazer.

Sua filha nasceu. Sem ele por perto. Sentia culpa e medo.

  

“E o nome?”, perguntou a mulher.

“Moema”, ele respondeu, sem encará-la nos olhos. Uma panariça o ensinou que o nome significava começo, aurora. Ao menos, no nome, ele estaria com ela.

(Dedicado aos desnorteados e precisados de um bom nome.)

 

Quer dizer, em Guarani, “começo”. Ao vê-la, chorou.

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07.12.09 em: Segunda