Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postMeu casamento com Foucault

Gazza

O brasileiro não entende de filosofia
Ele perdeu o casamento da Kelly Key
O release não chegou
Um mar de informação
De tantas atrações
Ele queria ser um metrossexual
Mas o release não chegou
Nas bancas as revistas esgotaram
Minhas caras
Amigas
Contigo restou quem
O brasileiro não entende de filosofia
Ele perdeu o curso de iôga
O release não chegou
Perdido se restou
Pô, Foucault
O estrangeiro arrebentou
Quando o brasileiro filosofou

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14.08.09 em: Sexta

postSimone, Sartre e nós

Raquel C. de Medeiros

 

 

Simone de beauvoir

Nina,

Fernanda Montenegro é Simone de Beauvoir e também eu, você, Aline, Tiana, Luciene, Raquel e todas as moças que tratam o diferente com naturalidade. Fomos, eu e G., assisti-la no teatro outro dia e lamentei você não ter ido conosco. É curioso como a história de amor entre Simone e Sartre me provoca reações diferentes, mas sempre bate forte. É, acima de tudo, uma história de lealdade e de ruptura.

Passamos a peça inteira, eu e G., com as mãos enlaçadas e sentindo coisas: ânsia de amor, de liberdade, de intensidade. Não somos namorados ainda, Nina, somos duas pessoas de mãos dadas caminhando no sentido de alguma coisa tranquila e madura. Somos duas pessoas tentando moldar um relacionamento inovador para nós, que seja seguro e livre e lúcido e feliz. Até que descobertas incompatíveis nos separem.

É claro que quando se fala em Simone e Sartre o tema mais discutido é a liberdade. Eu concluí que existem atos de liberdade, como os dois fizeram. Mas os sentimentos, Nina, os sentimentos acabam tomando a nossa liberdade, mesmo que você aja no sentido dela. Isso aconteceu com a Beauvoir, que se apaixonou por um americano e sentia-se tão ligada a Sartre que continuou com ele, mesmo infeliz. Ela estava afetivamente tão casada com ele como os casais convencionais. Acho que liberdade mesmo, nesse caso, seria ela romper com a liberdade que Sartre lhe proporcionava para sentir-se feliz com o americano. Ou será que estou errada?

A questão, Nina, é que os sentimentos não são tão retos e constantes como gostaríamos. Em algum momento você vai olhar para o seu amor e sentir preguiça dele. Mas acho que se você admira, cultiva e o respeita, você o engrandece de uma maneira que ele acaba prevalecendo e tudo isso passa. Na maior parte das vezes, a preguiça é de nós mesmos.

Mas o que eu quero te contar, Nina, é que quando Simone desapareceu do palco fui tomada por aquele impulso de ousadia tão entranhado em minha personalidade. Perguntei a G. se ele já havia experimentado um relacionamento aberto. Não, ele disse e devolveu a pergunta. Sim, eu disse, e ele se surpreendeu, mas não me interrogou. Então respirei fundo e propus o que ninguém nunca lhe propôs: você gostaria de experimentar? Ele arregalou os olhos e sorriu. Eu sabia, de alguma maneira, que essa proposta seria importante para ele.

Sim, podemos experimentar, ele disse.

 Meu coração bateu como o de Simone, Nina. Mas não tenho certeza se colocaremos em prática. Por mais louco que isso pareça, acho que eu apenas precisava perguntar e ele apenas precisava ouvir a minha proposta. Para nós sabermos que podemos tudo, inclusive cultivar apenas o nosso amor. Para sentirmos a brisa da liberdade, Nina, porque no fundo só existe a brisa da liberdade, que vai e vem e fica e nos escapa. Lembrei-me muito da minha temporada em sua casa em Paris, quando íamos ao Marais para sentir o aroma do café que Simone e Sartre tomavam. Paris é uma festa para todos, Nina, mas vou te confessar: para mim, há uma melancolia beauvariana no ar. Paris me encanta mas me dói, assim como todas as histórias bonitas que escrevo. Agora, estamos eu e G. caminhando para a casa dele e eu não vejo a hora de escrever-lhe esta carta. Só você, Aline, Tiana, Raquel, Luciene e outros poucos saberão das últimas. O resto não compreenderia.

Com ânsia de ficção,

Lorena

P.S: Eu não tenho jeito. Deixo a ousadia me carregar no colo, mas no fundo sou uma romântica incurável. Um blefe!

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13.08.09 em: Quinta

postÀ deriva

Aline Leal

Jean Pierre comprara o seu carnet para o Louvre na semana anterior, era julho, a alta temporada em Paris, verão e os turistas estariam fazendo fila no museu. Saiu com a baguete embaixo do braço, morava na banlieu e tomaria o metrô até a estação do Sena, atravessaria a ponte e seguiria pela entrada sem pegar fila porque fora precavido. Lá dentro faria o percurso de tantas vezes, mas desta vez experimentaria algo diferente. Pela visita guiada cobravam cinco euros, já sabia. Mais uma vez ele a recusou sem responder e seguiu mais de duzentos passos até a Balsa da Medusa. Abriu espaço em volta do quadro e se concentrou, estava estimulado e dedicado ao projeto.

O manto vermelho sobre o homem sentado, olhando na direção oposta aos outros náufragos que pensam avistar salvação apoiados uns sobre os outros nos escombros do navio enquanto as ondas avançam para cima deles. Acomodando um cadáver nu no colo, refletindo talvez sobre a vida que levara e o que ela representava na condição em que se encontrava agora. O olhar longe. Mas o que me intrigava e pelo o que eu estava aqui não era o homem do manto vermelho, que por muito tempo eu supusera ser Jesus e já tenho por conta ser Julio César, o imperador que medita em seu leito de morte sobre o Império Romano e a sua decadência, a vida e a historia. O dono da minha inquietação era o homem cujo tronco se projetava para fora das tábuas de madeira, enquanto o resto do corpo permanece nas águas frias do Atlântico. Estaria ele vivo ou morto? Esta era, na verdade, a minha questão. A pele morena escura, talvez dos dias que passara no mar após o desastre, privado de água e exposto a um sol forte. Mas agora um lampejo me subia pela espinha tal qual eu imaginava que aconteceria, já viera preparado para a epifania e tivera um veredicto sobre a questão. O cara não era um sujeito moreno, chegara a especular que fosse das Índias Orientais. Ele estava roxo, era um cadáver.

A Balsa da Medusa, deTheódore Géricault

 

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12.08.09 em: Quarta

postQui je suis?

Tiana Maciel Ellwanger

Chegou de Paris, assim, meio perdido, com sotaque estranho, sem entender muito bem as gírias, as atitudes, a pressa, o lixo nas ruas. Deixou as malas no hotel e foi direto para aquela casa escura, que costumava tocar música boa quando morava na cidade, maravilhosa? 
Não sabia por quê, mas torcia para que aquela loira fosse gringa, quem sabe poderia falar com ela em sua língua tão perdida quanto ele naquele “inferninho” carioca?
Ao perguntar para a mulher de vestido curto ― que língua você fala? ― a decepção: “português”. Era a sua língua, mãe, mas queria falar outra, pensava em outra. Estava acostumado ou sei lá o quê. As caipirinhas roubaram sua lógica, mas trouxeram vontade de toque. Música, dança, corpos largados na pista, individualizados, com interações não-verbais, tudo parecia atiçar seus sentidos. 
― Você é daqui então?, perguntou porque não podia dizer: “Ou vis-tu?”
Aquela língua estranha, tão cheia de bicos que exigia pronúncia e paciência, interpretação quase teatral, tomara conta de seu modo de pensar nos últimos anos. Estava confuso, como um estrangeiro em Paris e também no Rio.
― Sim, e você?, respondeu a moça.
― Também. Mas moro fora.
― Ah, é, onde?
― Em Paris, moro com ele, mas não somos gays, explicou e riu porque era sempre assim.
Ela falava sobre os dias cinzas, mal-humorados, que passara em Paris, linda a cidade, mas sem falar francês, não dava. Ele não conseguia tirar os olhos de sua boca recheada de histórias, de sua língua brasileira. Aproximou-se para um beijo. Recusado, “calma, estamos conversando”, disse ela e continuou a perguntar. Ele, sem esperanças, entrou num papo estranho de idade, identidade, queria voltar, mas não queria, estava em crise, sabe? “Coisa de francês”, brincou. Sem querer, derrubou as barreiras dela e o beijo, depois, foi consequência. Assim como a noite que se seguiu, incroyable!
Qui je suis?”, “Qui je suis?”, acordou gritando, molhado de suor, depois do sonho estranho em que um homem perguntava quem ele era, e ele tentava, mas não conseguia responder.

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11.08.09 em: Terça

postFim do mundo

Luciene Braga

 

“Event
End of the world , Au Pied de Fouet , Invalides, Paris
Quarta 31 Outubro 2018 18:05
If the world is ending, why not eat something first?”

Estava assim mesmo, escrito em Inglês, no blog.

Por que diabos teríamos que nos encontrar no dia do fim do mundo justamente em Paris? O que se faz em Paris?

Cultua-se, beneplacitamente, romances sofisticados e sonoros, vanguarda da (?) arte, insuportáveis grifes, blocs e cafés dos intelectuais. Poéthiques (com aquele sotaque de filme só altos, magros e estudados que não comem fruta com a mão), fantasmas e, claro, comida (escassa). E os mercados de pulgas mais uns outros tantos de arquitetura. Parfum. Autores dedicados à cidade dos fumantes não me inspiram. Nem Piaf, se quer saber. Nem Caetano. O mundo vai acabar levando até Paris.

Phil, Andrew e Scot confirmaram.

Caguei. Não vou a Paris.

Por quê? Não tenho dinheiro, oras.

Ficarei pintando com letras paisagens, pensando em sexo (se der sorte, fazendo) e em algo comestível que não seja, exatamente, tão pasteurisé. Se você tentar me convencer, pode ser que eu mude de ideia, mas, aviso, prefiro me ocupar de outros planos. Ça va?

E mudemos de cidade. Camamu, pode ser.

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10.08.09 em: Segunda