Gazza
Essas curvas lindas
Em estradas sensuais
Compõem o meu país
Planíces sorridas
Desejos escondidos
Um lugar só seu
Onde tudo é só meu
Florestas úmidas
Essa brisa sussurrada
Suada
Desaguada
Cores fartas
Terras fortes
Você, minha pátria
04.12.09 em: Sexta
Raquel C. de Medeiros
E depois daquele vendaval ele olhou para o mapa e não encontrou sua pátria amada. Os outros países estavam todos lá, em seus devidos lugares, assim como os continentes, os meridianos. Os paralelos. Respirou fundo e procurou com mais cuidado: o sangue de sua pátria ainda corria em suas veias, afinal. Procurou em outros territórios, foi mais ao Norte, enfrentou as geleiras, olhou o porão do mundo. Não a encontrava em canto algum, mas seu coração ainda batia aquele amor.
- Perdi minha história, minha língua, minhas raízes – disse para si mesmo, sem saber em qual lugar do planeta ele estaria.
E a sua voz entrava no labirinto dos mistérios e sacudia uma bandeira distante. Desconhecida.
- Para onde irei agora? Aprendi que um homem só evolui se tiver uma pátria.
E ele olhava para o mapa e sabia que poderia escolher uma nova pátria, uma pátria mais generosa, uma pátria mais gentil. Mas aquele vazio em seu continente o dilacerava: as lágrimas que escorriam ali tinham o gosto da cana de açucar de seu quintal. Ele ainda transpirava os longos rios de sua pátria.
- Sem ela, devo morrer. Os olhos de minha pátria me faltam como água.
E então lembrou-se da seca e da vontade que sentira um dia de apagar a sua pátria do mesmo mapa. Tantas sementes que não germinaram. Tantas histórias que ela enterrara vivas. Sombras falsas. Solo cruel.
Ainda assim, mergulhou. O vazio no mapa o levara ao fundo do oceano, onde encontrou restos de sua pátria morta. Voltou à superfície porque precisava de ar, mas a desdenhava. O seu mapa nunca mais seria o mesmo.
- Deixo a correnteza me levar. Posso sobreviver em qualquer país. Nunca será a minha pátria.
Aquela indiferença ecoou mundo afora. Seria aquele o tom da reconstrução.
Acordou sem horizonte por dias, meses, anos.
Quando finalmente aceitou o colo de uma nova pátria, ela já não existia em seu mapa.
03.12.09 em: Quinta
Aline Leal
Eu te amo! Desculpe estar escrevendo, em vez de dizendo pessoalmente, acho que você já deve conhecer um pouco o meu jeito. Faz tempo que eu quero te dizer isso, mas, quando penso em fazer, dou um passo atrás e lanço: Eu te adoro! Você é lindo! Gosto muito de você! O que não é a mesma coisa.
Estou escrevendo porque, se eu fosse falar, começaria assim: Quero te dizer uma coisa e quero que saiba que não espero nenhum retorno seu, queria te dizer que para mim é muito difícil dizer primeiro, enfim eu queria dizer: Eu te amo! E esta última frase, a mais importante, teria sido ofuscada por todo o repertório inicial inútil. Se quer mesmo, diz logo!
Se eu fosse falar, minha voz sairia mais miudinha que as letras desta carta, talvez eu desistisse no meio da frase: Eu te…dei o seu presente? Putz, esqueci em casa. Ou então algo sem muito nexo: Eu te….nho raiva quando você me olha assim e não diz nada. Querendo me mostrar uma mulher complexa, misteriosa, ai, essas mulheres, quem vai entendê-las!
Confesso que, quando estamos dormindo, minha cabeça apoiada em seu braço, conscientemente emano energias de amor em sua direção, como que dizendo repetidas vezes: eu te amo, você é meu amor, você é minha pátria, eu nunca vou te abandonar, Ó meu Brasil!… E como quem também pedisse: por favor, por favor, nunca me abandone! Algo assim sem muita confiança, você consegue visualizar?
Gostaria de fazer piada com tudo, dizem que os verdadeiros amigos nunca falam sério. Mas perto de você sinto uma necessidade extrema de me revelar o máximo, achando que para isso é necessário ser séria. Que bobagem, me desculpe se eu ajo assim. Vou mudar, vou mudar: me faço toda de boba e me declaro cantando: jobi, jobá, cada dia eu te amo más, jobi, jobi, jobi, jobá, cada dia eu te amo más!
02.12.09 em: Quarta
Tiana Maciel Ellwanger
Caminho de salto na rua fendida. Fedida. Lixarada. Mijada.
Alguém diz algo pra rir, sorrio por fora sem tirar os olhos do velho deitado como morto na calçada. Mais um que virou transparente, translúcido, invisível, penso eu ao perceber a indiferença que quase me permeia.
Mais fedor e frases soltas no ar da Lapa, alguém fala lugar-comum de revitalização, iniciativa, palmas. Não consigo.
Nas ruas, almas vazias de sorrisos levianos escondem em vez de mostrar.
Olhos que não miram pupilas, desviam das janelas das almas, balbuciam pra manter o canal, fáticos.
Olho para o chão e, após longos segundos de trocas, percebo que ela, a mendiga gorda e louca, cheia de bolsas, foi a primeira a me enxergar naquela noite nada genuína.
Agora sou eu quem desvio, medo? Volto a olhar e ela me agride com as íris, criticam, dizem mais do que ouvi desde que aqui cheguei. Maldizem meu modo de vida, meus saltos, meu andar seguro e minhas canelas sem pêlos.
Mantenho o passo, sorrindo, para quem me acompanha não questionar. Uma mulher estica a mão pedinte em minha direção, o bebê em seus braços chora, chora. Chora. Lembro do meu sobrinho, o narizinho é igual. Balanço a cabeça, negando o costume, o que me impede de fazer?
Invento uma cólica, volto pra casa, passo por mais pessoas na rua.
Pesadelos com pessoas na rua.
Choro por pessoas na rua.
Nada faço pelas pessoas na rua.
Nem eu, nem a Pátria.
Pessoas na minha rua.
01.12.09 em: Terça
Luciene Braga
Berta e Isaac nunca se preocuparam com os comentários maliciosos da vizinhança a respeito de suas origens. Moravam no bairro Abajo, na pequena Nova Tóquio, a alguns quilômetros de Nova Orleans, e tinham um pequeno negócio de embutidos no centro da cidade. Já viviam lá há 10 anos e enfrentaram até o Katrina juntos. Seus filhos, Savana e Korio, decidiram estudar na Nova Zelândia e no Qatar, respectivamente. Queriam um pouco mais do mundo, além da pequena ONU que a casa representava.
Isaac tinha somente uma frustração: não ter sido diplomata. Sempre que podia, emendava conversas e análises sobre a situação do mundo com os clientes que, invariavelmente, só pensavam nas linguiças e paios, caríssimos, mas confiáveis.
“Cuspir na embaixada de um país sul-americano diante de câmeras do Le Monde não ajudou muito”, comentava Berta, entre os amigos mais íntimos, sempre que ele iniciava o discurso de lamento. “Eu tinha dor de garganta!”, ele insistia. “Mas as câmeras não viram as suas amígdalas, senhor embaixador. Só eu conheço as suas qualidades conciliatórias e capacidade de intervenção em territórios conflituosos nem sempre dispostos a negociar”, ela brincava, e ele sorria, entregue e submisso ao discurso mais convincente que conhecera. Falava seis idiomas e aventurava-se no Mandarim nos últimos meses.
“Ni Hao!”, dizia, levantando o avental para a mulher, quando a loja estava vazia. “Lo ricevo già con gli onori”, brincando com a língua que ele não dominava. E requebrava até que bem. O Mandarim não lhe descia aos flancos, mas o Português era capaz de transformá-la em odalisca frenética e safada, à brasileira. “Venha, minha leitoa à pururuca!”, ele dizia. Ela se derretia ao ouvir “pururuca”. E trepavam de fechar a loja. A vizinhança já até sabia. E virou hábito aguardarem, para entrar na loja com cheiro de sexo. Era a diversão. E uma aula de Esperanto, a segunda língua universal, convenciam-se.
Diziam que dava sorte comprar presuntos e peças com o astral de uma sessão daquelas. O boato se espalhou, e só não abriram uma segunda loja porque não daria para repetir a estratégia em dois lugares.
Todas as noites, o casal recebia amigos de comunidades várias, com assuntos vastos, sempre com uma boa garrafa de дистиллировано (destilado russo contrabandeado, que com especiarias eram bem anárquicos), a graça da confraternização. E gostavam de ouvir histórias, especialmente de viajantes. Eram eles desertores do estilo de vida nômade, mas tinham saudade e ficavam excitados com olhos brilhantes de quem conta novidades e descobertas.
De minha última visita, guardei a foto dos dois aos beijos, coloridos, como sempre, brindando.
Soube ontem que foram mortos em sua última viagem à Espanha, para encontrar os filhos e conhecer o primeiro neto – Ishtar. Quando passeavam em um dos mais belos parques de Aguaviva, um atentado terrorista de um novo grupo em busca de destaque, em defesa da delimitação de território, atingiu os dois, sob uma árvore que, contam, tinha mais de 2 mil anos.
O ataque teve seus holofotes, e os nomes de Berta e Isaac, assim como os de outros 30 mortos, nunca foi dito.
Acho que agora estão por aí, inspirando cúpulas pela noosfera. Ou cópulas, tanto faz.
30.11.09 em: Segunda