Gazza
Dona maria via na maçã uma ameaça. Religiosamente ia à feira todas as sextas. Religiosamente, não trazia a maçã. Eram discussões intermináveis com a patroa. Não tinha jeito. Dona Maria se recusava. Até mesmo diante das ameaças de demissão. Na feira, sequer chegava perto das barracas que vendiam a fruta. Desde cedo ouvia a vó dizer que tudo havia se perdido numa mordida à maçã. Era a imagem da desgraça na cabeça daquela senhora. Na casa em que trabalhava, há mais de 15 anos, nada era feito com a fruta. A patroa contava mil histórias, metodicamente argumentava a favor da maçã. A velha, viúva há duas décadas, era irredutível mesmo.
Uma certa sexta-feira, dona Maria circulava pela feira, cumpria a rotina. Passava nas barracas onde costumava fazer suas compras de sempre. De repente, um olhar, já marcado pelo tempo, cruza o seu. A velha para, fixa seu olhar sem perceber. Em segundos, já não enchergava outra coisa naquele momento. Completamente hipnotizada, começa a caminhar na direção daqueles olhos. Quanto mais perto chegava, mais perdia o senso da realidade a sua volta. Em instantes, estava diante daquele olhar. Nunca havia sentido nada parecido desde a partida de seu Miraldo.
- Dona patroa, o que vai levar hoje?
A voz, também rouca pelo tempo, se encaixava perfeitamente naquele olhar. A percepção de dona Maria foi imediata. Com os olhos encaixados naquela singular sintonia entre imagem e som, responde.
- O que o senhor me oferece?
- As melhores maçãs da Tijuca.
20.11.09 em: Sexta
Raquel C. de Medeiros
Quase sem querer, entrei em uma enorme farmácia na Avenida Paulista, e procurava algo pouco necessário naquelas intermináveis prateleiras, quando ouvi a conversa entre as duas funcionárias que estavam paradas em um dos cantos do lugar:
- Deixe estar, Lívia. Minha mãe sempre me dizia que a soberba é uma burrice. Mesmo essas pessoas que têm muito dinheiro precisam dos que fazem o dinheiro para elas. Mais cedo ou mais tarde a vida lhes mostra isso.
- Eu fico com muita raiva, Maria. Ele só respeita os que ele acha que não dependem dele. Conosco se esquece da educação, da paciência, da generosidade.
- O mundo dá muitas voltas, Lívia.
- Às vezes devagar demais – reclamou a outra.
Eu ri e continuei a olhar as prateleiras, à procura de que mesmo? Estava curiosa em ver o rosto das duas moças, mas, sem jeito de parecer interessada na conversa, continuei a mexer nas prateleiras.
- Esses tolos, Lívia, não conseguem enxergar as coisas mais importantes. Eles apenas sentem a vibração negativa, provocada por dezenas de olhares que lhe desejam mal.
Bravo, quis gritar, lembrando-me de algumas pessoas. A minha vontade era juntar-me as duas mulheres naquela prosa tão mais interessante do que tantas que ando tendo por aí.
- É… Você tem razão. Por isso ele é sempre tão insatisfeito: acha-se poderoso, mas não enxerga a energia ruim que lhe transmitimos, às vezes mesmo sem querer.
Senti que haviam notado que eu continuava ali apenas para ouvi-las e, tímida, saí da farmácia, não antes de olhar para elas e sorrir sem nada nas mãos.
19.11.09 em: Quinta
Aline Leal
Nós brigávamos ao ponto do confronto físico. Eu gritava em direção a ele, apontava-lhe o dedo na cara, louca, o rosto molhado de lágrimas, soluçava num ritmo descompensado evidenciando toda a calma que ele me fazia perder. Raiva, ele me fazia borbulhar por dentro e eu me atirava para cima dele com tapas e socos.
A princípio, permanecia imóvel, o rosto ausente para a minha presença, mas, quando eu sentia que ele estava prestes a perder a razão e, ao menor indício de que viria para cima de mim, jogava-me no chão e olhava para ele com olhos de medo como se fosse um estuprador. Para Marcelo, Para!, gritava.
E ele se continha a poucos centímetros de me bater. Então vivenciávamos alguns minutos de um silêncio tenso, quando uma vibração passaria por nossos ouvidos. Eu então me levantava de um salto e enganchava-me em seu pescoço, beijava-lhe a face impassível, o melhor sabor. Ele permanecia alheio ao meu pedido de trégua, até que, finalmente, o rosto ainda tenso, carregava-me até a cama e fazíamos amor.
Aquela foi a paixão da minha vida, eu amava Marcelo loucamente e desejava me casar com ele, ter filhos e passar o resto dos dias sob aquele sentimento intenso, me imaginava abandonando tudo para viver só dele. Só que o motivo de nossas brigas, a sua propensão a buscar abrigo em outras mulheres, acabou me tornando uma mulher chata e amargurada, e ele seguiu em frente, me deixando, até hoje, parada naquele lugar.
18.11.09 em: Quarta
Tiana Maciel Ellwanger
Quatorze anos Lorena comemorava, a semana toda.
Vá Lorena, lave essa louça, diacho! Olha esse garfo, gordura pura. Pura. Esfrega, esfrega, Lorena. Presta atenção, tá olhando pra onde? Raspa os pratos para não entupir.
Eu queria ser igual aquele passarinho ali na árvore, comendo minhoca na boca da mãe. Queria nada, eca, eca.
Esfrega, Lorena, que moleza é essa? A missa vai começar e você aí olhando pra janela como se fosse sábado. Acha que Deus não vê?
Vê?, pensei cá comigo. E logo parei de pensar. Xingu de novo voltava à cabeça, beijava como nenhum dos lábios duros da sala sabia beijar. Vinte e seis anos!, gritou a Carlota quando eu contei, nem ligou pro beijo de boca mole, língua seguindo os instintos, quase nada duro (Carlota riu de olho arregalado quando falei isso). E ficava dizendo: vinte e seis anos, vinte e seis anos!
Vá logo colocar a roupa, deixa que eu lavo isso. Tá na hora, garota.
Subi a escada devagar, coxa com coxa sem calcinha. Xingu, abraça, Xingu, aperta minha bunda. Sentei na cama para dar uma deitadinha vuco-vuco.
Lorenaaaaaaa! Desceeeeee!
Fiquei de pé num pulo, fechava os olhos e Xingu passava as pontas dos dedos na perna direita, subindo até chegar. Eu, de olhos fechados, sentia cada milímetro do dedo dele.
Escolhe a roupa, Lorena, anda. Saia não pode, mãe briga. Blusa decotada. Andando, andando, olha pra cima pra espantar o calor, a calça atritando. Cheguei. Missa.
Pega o livrinho de cantos, menina. Sempre esquece!
Senta, ajoelha, senta, levanta.
Vai Lorena, vai comungar. Tá confessada, pode ir, anda.
Cheguei de cabeça baixa, coxa com coxa, calça atritando. Respirei fundo na fila. O padre lembrava Xingu, quando falou:
Corpo de Cristo
Corpo de Cristo.
Amém
Ajoelhei ao lado da mãe e, de olhos fechados, não resisti. Xingu, gemi de prazer passando a língua na óstia do padre.
Olhei para a mãe com vergonha, mas só eu sentia a umidade entre as pernas.
Ela virou e me deu um sorriso satisfeito.
Eu retribuí.
17.11.09 em: Terça