Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postMeu Rio

Gazza

Nasci na Zona Sul da cidade (até aí, as favas com essa informação). Mas há um sentido em contar essa história. Minha infância pelas ruas do Leblon e, obviamente, a faixa de areia entre a Rua Rainha Guilhermina e o Pontão, lá encostado na subida da Niemeyer, foi (e ainda é) uma das melhores fases da minha vida. Lá pelo início dos anos 70, moleque, numa época em que a única preocupação era apenas me divertir, eu só me divertia. E o que tem a ver a Zona Sul da cidade com isso? Na verdade, não é bem da região, mas dos encantos dessa cidade que eu quero falar. O Dois Irmãos ao fundo, a faixa de areia branca, as escadarias, o sol e o mar. Pura memória afetiva. Das boas. Construída numa relação de amor (por muito tempo não entendido) com o Rio. Claro, com os seus encantos servidos, sem qualquer cerimônia, a qualquer morador ou viajante.

 

Lá com meus seis, sete anos, perambulava pelas ruas do bairro sem ser incomodado. Passava, nas férias, claro, horas e horas na praia. Outras tantas horas, no mar. O sol do fim de tarde, um êxtase. Pedaladas livres pelo calçadão até o Arpoador, outra riqueza dessa cidade. Subia a Niemeyer para descer até a praia do Vidigal pelas pedras do Costão. Pura emoção. No Alto Leblon, as ladeiras serviam de palco para a adrenalina do skate sob os pés. Em outros momentos, descia na bicicleta mesmo. Não havia limites para o encantamento proporcionado por esse Rio.

 

Esse cenário, essa rotina, embalaram a minha infância. Cresci, vi muito dessa cidade ser castigado. Não por ela, jamais. Mas por muitos, que não deram certo. Por muitos que insistem em desviar dos caminhos do coração. Por muitos que insistem em lançar a mão pesada sobre benevolência natural dessa cidade.

 

Mas quem cruzou esse caminho natural com a cidade, seja na Zona Sul, na Zona Norte, sabe do que falo. Muito do que sou – talvez o melhor do que eu seja – nasceu na minha infância. Nasceu lá atrás, nas manhãs de verão ou inverno em que eu sabia, que lá fora, iria encontrar toda aquela exuberância. Eu não esqueci. Nem pretendo…

 

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13.03.09 em: Sexta

postCantos revelados

Raquel C. de Medeiros

E aí ele apareceu com o sorriso que eu precisava para sobreviver. Era inteligente, engraçado e chegou de surpresa, convidado de alguém que estava na mesa e que eu não conhecia bem. Sentou-se ao meu lado, ofereceu-me um chope e eu aceitei antes mesmo de lembrar que não bebo. Olhei para ele e de repente me vi querendo ficar feliz.

Aquele início de felicidade confundia-se um pouco com um começo de paixão, mas eu não tinha certeza de nada. Ele falava comigo e com todos, olhava fundo nos meus olhos mas devia olhar para os outros também. A miopia ele tinha operado não fazia muito tempo, uma benção enxergar tudo tão bem: olha que beleza essa vista da Urca, não é seu Antônio?, e o garçom, seu amigo, concordou. Falou dos pássaros do bairro, da padaria do seu Zé, das caminhadas matinais. E não tinha nascer do sol mais bonito em toda a cidade.

E eu que nem me lembrava mais que o sol nascia fiquei paralisada pensando em o quanto os detalhes falam sobre a gente. Perdi-me na minha tristeza e só retornei à mesa quando o ouvi dizendo  que era um homem que gostava de cantos, por isso era tão apaixonado pelo bairro. E então eu senti uma pontada de saudade do meu pai, que também sempre escolhia os cantos nos restaurantes, nos bares, mas afastei o sentimento pedindo mais um chope, depois mais três. O moço continuaria falando da cidade, com uma poesia que combinava com aquela noite, com o vento da Urca, com o sal que nos abraçava. Diz a verdade, seu Antônio, há lugar melhor no mundo? Às vezes eu pensava em interrompê-lo e colocar alguns contrapontos que vinham me matando há alguns meses, mas a minha respiração ficava ofegante, eu abria a boca e me calava. Já leu o João do Rio?, perguntou, depois de saber que eu era estudante de letras. E citando o cronista, disse que as ruas do Rio tinham alma. Olha, essa aqui, por exemplo, é uma rua misteriosa, que precisa ser desvendada. É acessível para poucos, completei, e ele piscou, cúmplice. Estudante de letras… sussurrou, com admiração, puxando a esperança de uma alegria infantil que eu achei que nem existia mais dentro de mim. E eu já estava contagiada pela graça da vida quando apareceu a Bel, Você por aqui? E me abraçou com muita força. Eu sinto muito pelo seu pai, muito mesmo. Fiquei sabendo pelo jornal, a violência dessa cidade, né, tentei te ligar, você mudou de telefone? Estou quase morta também, quis dizer mas não disse. Quando a Bel se despediu, ele arregalou os olhos e, sem falar uma palavra, disse que também sentia muito. Parou de evocar as almas das ruas do Rio e pegou as minhas mãos geladas, embaixo da mesa: aquele seria seu canto preferido no mundo a partir daquele dia. E a poesia mais bonita da noite me devolveria as rimas que a cidade havia levado.

 

 

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12.03.09 em: Quinta

postAs palavras

Aline Leal


Por amor, enfrentava o verão carioca que o fazia perder a vontade de viver; por amor, era secretário em um escritório de advocacia; por amor, matriculara-se em um cursinho de português em Londres e, finalmente, viera ao encontro de Rita. John não poderia ser acusado de ter um coração frio, tal qual imputam aos ingleses. Se é fato que a cidade do Rio de Janeiro não lhe despertava nenhuma emoção - ao contrário, irritava a sua forma mais íntima de ser - a vida aqui fazia sentido por causa do amor.
 
John conhecia o amor carnal, em que se iniciara com 15 anos, e o amor sentimental, que experimentara com Rita. Mas não todo o amor da vida dos cariocas. Não conhecia o amor que a ascensorista do elevador lhe dispensava: qual o andar, meu amor? Não se acostumava a esta relação. Desceu muitas vezes de escada.
 
Se em Londres as pessoas cuidavam para não exagerar nas demonstrações afetivas, os cariocas quase se forçavam a ser expansivos e sentimentais. Rita, no entanto, nunca lhe dissera que o amava, uma vez disse apenas assim: você faz o meu coração derreter. E isso para ele foi melhor que o amor.
 
John tampouco havia declarado o amor por Rita em palavras, aliás nunca na vida dissera eu te amo a alguém: à mãe, à avó ou ao time de futebol. Até então isso não fazia falta, mas agora John se perguntava se Rita sentia essa ausência. Só que o Rio de Janeiro lhe trazia questões e não inspiração.
 
Se era alguém desacostumado a enxergar sentimento, a multiplicação de expressões relacionadas ao amor, à paixão, e afins, lhe trazia desconforto e azia, como se pressionado a posicionar-se. Se custou pouco abandonar o que tinha em Londres por causa de Rita, quanto custava para teorizar um sentimento que era uma prática? Faziam sexo, dormiam abraçados e John comprava o anticoncepcional, preparava as torradas do café da manhã. Por amor, diria alguém da cidade para a qual se mudara, por amor; por amor; por amor.  
 
Por amor à Rita trabalhava de terno e gravata em pleno verão carioca; por amor suportava um trabalho de atender a telefonemas e anotar recados e fazer e servir o café. Mas não diria eu te amo, não nesta cidade que ao contrário de inspirá-lo, causava repulsa à expressão deste sentimento. Talvez um dia, talvez em outro lugar, se fosse necessário dizer tais palavras, as diria sem senti-las, apenas por amor à Rita.
 
No quarto andar do edifício Avenida Central, a mando do chefe discou para a administradora do prédio, a quem o Sr. Eustáquio devia meses e meses de aluguel, e ia dar a notícia de que finalmente conseguira o dinheiro para pagar a dívida. Eustáquio pegou e telefone e disse “Gostaria de falar com a senhora Renha. Por favor, diga que é o amor da vida dela”.  

 

 

 

 

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11.03.09 em: Quarta

postA gravata de Chico

Tiana Maciel Ellwanger

Quando era militante e aspirante a revolucionário, Francisco bradava contra a gravata. Afinal, usar gravata no Rio de Janeiro era admitir, na própria imagem, a submissão aos países ricos e frios. Não mudara de opinião.

Certa vez, junto aos “amigos de luta” e com alguma cachaça genuinamente brasileira no sangue, levou um engravatado ao chão, na Rua da Carioca. Foi uma banda certeira, de que se orgulhou. “Seu merda!” “Fantoche do sistema!” foram algumas das expressões que usaram para humilhar aquele homem que, hoje, ao se olhar no espelho, lembrava ele próprio. Refazia o rosto apavorado daquele senhor, que urinava de medo de moleques que combatiam sei lá o quê. O quê? Alvos errados. Quanta enganação, jamais admitiria.

A gravata também remetia à figura de seu pai. Quando Seu Feliciano chegava em casa, afrouxava-a expondo o colarinho molhado de suor e respirava fundo como se quisesse recuperar o ar que lhe fora subtraído durante o dia. Sua mãejá lhe contara que, quando tinha uns sete anos, perguntou ao pai se usava gravata porque não podia se enfeitar como faziam as mulheres. Todos riram da história naquele Natal. Sentia saudades da mãe, mas foi um certo alívio não ter mais que cuidar dela como merecia.

Com alguma culpa pelo alívio que sentira, Francisco dizia para a sua imagem: 50 anos, quem diria. Era Verão, o vigésimo em que sofria com a religiosa gravata. Verão que parecia estar especialmente quente. No elevador, calor-assunto. Aquecimento global, dizia o vizinho. Ao chegar ao trabalho sem gravata, respeitando a decisão que tomara em frente ao espelho, foi saudado pelos advogados do escritório, que o intimaram para uma comemoração ao crepúsculo, e fizeram piadinhas sem graça sobre idade e aparência. Para sua surpresa, ninguém percebeu ou achou que deveria comentar a ausência da gravata. Decepção; já tinha preparado o discurso para justificá-la.

Ao receber o abraço de Jorge Gordo, lembrou que ele lhe dissera que gostava do momento em que sua mulher dava o nó. Mesmo quando estavam brigados, ela fazia essa gentileza, e seu cheiro, até hoje, o excitava. Preferia não ter tomado conhecimento da última informação. “Parabéns, doutor. Deve se orgulhar muito de sua vida, não é mesmo? Sempre brigando por um mundo melhor”, ao que Chico respondeu com um sorriso de paisagem.

O dia foi de reflexões sobre os muitos anos que passaram e com o que estava por vir. Havia pouco trabalho a fazer, melancolia. Entre uma ligação e outra, pensava na vida. Clichês? Uma lágrima desceu do rosto ao lembrar da mulher que traíra e perdera. Riu ao pensar na ex-amante, louca. Relembrou inultilmente as metas, inutilmente, para os próximos anos. Exercícios, mais leitura, cinema e viagens, frustrações, menos gravata e trabalho. Um filho para amenizar a dor com o que perdera para a violência no trânsito, há três anos? Maldita cidade. Jacinta, sua namorada de todas as noites, já havia sugerido a idéia, mas criar um laço eterno com ela lhe dava arrepios. Era eficaz para satisfazer o sexo e o estômago, mas tão boazinha que, às vezes, lhe provocava repulsa. 
  
Fim do expediente e sorrisos. Decidiram ir à champanheria das ocasiões especiais. “Na minha cidade, nunca poderíamos beber numa segunda-feira. Como amo o Rio”, disse o Dr. Bauru.

Bolinhas de sabão caíam do teto de garrafas quando a gravata surgiu como assunto. “Chico está sem gravata hoje. Que revolta é essa, Francisco?”. Questionou o Dr. Bauru. “Enfeite de merda, faz 40° no Rio e temos que usar isso? Cariocas de merda que há 200 anos imitamos os europeus, bando de colonizados”, bradou, lembrando os 20 anos. “Sabia que a gravata foi introduzida como hábito por mercenários croatas que lutaram na França? Gravata vem de cravate, ou croata”, disse o Dr. Conforme, na tentativa de apaziguar os ânimos. “Um brinde ao nosso amigo sem gravata”, sugeriu Jorge Gordo.

No caminho para casa, admirava o Pão de Açúcar que Deus não fez, porque Ele não existia. Dirigia mais rápido do que se estivesse sóbrio. Queria acelerar para sempre, o Aterro parecia convidá-lo. Mirou a talipot, aquela palmeira escolhida por Burle Marx que floresce apenas uma vez no ano para depois morrer, e decidiu ter o mesmo destino. Já havia florescido? Acelerou. O arrependimento veio com a dor, viu um farol na sua direção e a tontura logo passou para perda da consciência, que buscava.

Acordou, sabe-se lá quanto tempo depois, sentindo as pernas que já não conseguia mexer. Abraçado a Jacinta, de lágrimas e olheiras, chorou. Procurou, sem sucesso, a gravata ao redor do pescoço, que agora tinha um corte costurado por linha preta. Ela, a gravata, o teria protegido do corte e da burrada embriagada-melancólica que fizera, pensou antes de apagar novamente. Vamos, vamos para sempre, desejou, já sonhando. Acordou e chorou ao ver Jacinta, sem lágrimas, só-olheiras, esparramada na poltrona daquele lugar iluminado.

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10.03.09 em: Terça

postSerá que dá para sorrir hoje?

Luciene Braga

Silêncio na cidade.
O intervalo dos blocos.
O som dos impostos. Das bolsas de apostas, do traçado das balas que deixaram as ruas proibidas.
Do samba triste vendido.
Do batuque que acorda o corpo.
Da roupa de praia cara.
Do cinema protegido das ruas.
Do tráfico e do tráfego incontroláveis e abarrotados de gente presa a poucos dotes e escolhas.
O barulho dos que deixaram a cidade em nossos ouvidos e sonhos menos lembrados, forçados a encontrar seus caminhos próprios por causa da dor. Quem pode deitar e gozar sobre esse mar?
Quem olha o Rio de dentro, de fora e por cima não entende imenso titã.
Um surdo triste, mas em anúncio, que chama em suspense.
Cada dia uma força pulsa a nos confundir sem deixar rastro, feito filme de cineasta opulento. Um David Lynch meio documentário, estrelado por uma popozuda moribunda, na trilha sonora de um violino em duelo com a escola de samba, e vem o executivo a pagar a moça, que corre para os braços de alguém que abraça. A criançada corre pelas ruas, cantando alguns versos que aprenderam como puderam. Os velhos de bermudas, as senhoras que cozinham temperos caseiros. E tem a disneylandia forjada da fama. O que é aqui a elite? O que são os modelos daqui?
Será que dá para sorrir hoje? De canto.
A estatística mais doída varre. E se desaparece num som nada bossa nova.
Sem certezas, o titã se ergue. Cada um que percorre ruas, monumentos, paisagens vivas ou não tenta atravessar e entender essa história.
Tem dia que eu desisto.
Mas outro vem.

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09.03.09 em: Segunda