Meus olhos…
Gazza
Meus olhos miram você
Minha preta
Despem a seda pele
Essa alma clara
Infinita
Desmedida
Na medida
Da minha vida
Gazza
Meus olhos miram você
Minha preta
Despem a seda pele
Essa alma clara
Infinita
Desmedida
Na medida
Da minha vida
Raquel C. de Medeiros

Bom mesmo era fechar os olhos apertados e imaginar-se linda como Tina, a boneca preferida da infância, aquela com os traços finos, cintura de pilão, blusa decotada e vestido de fustão. Aquela com a face leve e rosada de despreocupação. Enfeitava a boneca como se fosse ela mesma no futuro que tão rapidamente chegara. E agora olhava-se no espelho e lembrava de Tina, enquanto se preparava para ele.
E colocou o vestido rendado.
A meia-calça.
O salto-alto.
O pó de arroz.
Perfume no regaço.
Sombra nos olhos.
Fita no cabelo.
E o espelho já não a maltratava: aprendera a respeitá-la. Ela também já não tentava enganá-lo. Sorriu da tola tentativa, debochando de si mesma. Tirou o vestido apertado, a meia-calça, o salto alto, a sombra verde, a fita do cabelo, detalhes que, afinal, só realçavam a sua feiúra.
Bom mesmo era fechar os olhos apertados, defeituosos, e imaginar-se bela como Tina, a boneca preferida, aquela que um dia, quando lhe apelidaram de caolha, ela tacou do décimo primeiro andar. Naquele cimento de infância ainda sobreviveria alguma ilusão de beleza. A morte seria aos poucos, dolorosa e cruel. Solitária. Mas agora ela estava ali, em frente ao seu grande inimigo da vida inteira, livre, completamente livre daquela pretensão. E já não era tão só, havia um amor, um amor que a preferia assim: feia, sem reparos. Ela também.
12.11.09 em: Quinta
Aline Leal
Só conseguia dormir pelado. Não importava o frio que fizesse, qualquer blusa, meia ou bermuda lhe dariam coceira e ele arrancaria as peças no meio da noite, sentindo seus movimentos comprimidos, o bicho preso, o tecido arranhando a pele. É possível que sentisse até falta de ar. Usava, com a freqüência de uma a duas vezes por semana, a pele de uma mulher envolvendo-lhe o corpo e, mesmo assim, acordavam já bem distantes um do outro na cama.
A coisa chata é que tinha que vestir terno e gravata pela manhã, a camisa engomada lhe dava faniquito. Mas, como se diz por aí: ossos do ofício. Apesar do espírito livre em relação às roupas, Marcelo não escolhera uma profissão que lhe permitisse exercitar esse espírito. Por fim, sofria no calor do centro do Rio, sabendo que a culpa era só sua por não ter tido a inclinação para ser produtor, editor de vídeo, ator, jornalista, ou qualquer coisa mais liberal.
Fora os ternos que ia comprar com a mãe no shopping de ano em ano, Marcelo não se interessava em nada por roupas e é mesmo possível que nunca tivesse comprado uma blusa ou uma calça por conta própria. O seu guarda-roupa consistia basicamente de peças que ele havia ganhado dos pais, das ex-namoradas e assim ia levando com uma blusa com um furo aqui, uma calça com a bainha curta. Realmente não lhe importava.
O único traje oficial, velho de guerra, que ele sentia-se bem ao vestir, era a velha camisa do Fogão, o número seis nas costas em homenagem ao craque Nilton Santos. Então, permitia uma sensibilidade que não se via em outros trajes. O Engenhão lotado, a paixão clubística, o uniforme do craque, e era capaz que se visse uma lágrima escorrer-lhe dos olhos.
11.11.09 em: QuartaTiana Maciel Ellwanger
Estava cansada de não poder tirar a roupa onde quisesse. Atentado ao pudor? Cansou do pudor. Dela e dos outros.
E da moda, que “falava” por ela sem que assim decidisse. Também de todos os que discursavam sobre estilo e a obrigavam a ter um.
Cansou também de não poder pisar na grama, nem descalça. Pra quê? Se não podia senti-la com os pés nus?
Cansada na mente e disposta no corpo, correu como seu filho faria com os pés descalços no parque gramado.
Tirou a blusa e mergulhou de bariga no chão macio. Sentiu a umidade das folhas em cada parte do colo.
Depois tirou as outras peças e nadou naquele mundo verde que há anos a convidava, sem que o pudor a deixasse ir adiante.
Quando o guarda municipal aproximou-se, saiu correndo e abraçou a árvore. Disse que continuaria ali e que o pudor era dele, não dela. Dane-se se te atenta!
Ele saiu assustado em busca de reforço.
Antes do retorno, ela vestiu a blusa, a calça, os sapatos e, depois de jogar a calcinha e o sutiã para o alto, foi para o trabalho.
Luciene Braga
No canto da cama, o sobretudo.
“Sobrenada”, ela matutou.
E tirou o relógio caro, depositou na cômoda, disposta a observar seu rosto que assustava um pouco, sem a maquiagem.
“Ai!”, gemeu, ao tirar os pés do sapato. “Liberdade”, percebeu.
Ficou alguns minutos sentada no sofá e sentiu falta de cigarros.
Sentia falta de muita coisa. Tanta, tanta, que sentia dores pelo corpo.
Nessas horas, até o tecido mais fino pesava, fazia com que suasse a saudade, às vezes, sem objeto.
Nua, enfim, abriu a porta, atravessou assim, peladíssima, o corredor até o elevador, cumprimentou o vizinho e decidiu que poderia brincar de bailarina no calçadão. Uma apresentação com direito a aplausos.