Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postSempre ela…

Gazza

olhar3À meia-noite, dispersa sintonia

Ao meio-dia, minha história perdida

Avesso do dia, alta noite me permitia

Sonhar que um dia a veria

Despida

Sob meu desnudo olhar

As horas passar

Até toda essa saudade desaguar

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20.03.09 em: Sexta

postSaudade de amar

Raquel C. de Medeiros

E eu, que nem bem te conheço

E já adoeço com a falta do seu beijo

Que me promete ondas no chão

 

E eu, que vivia em suspenso

Entre asas, sonhos e ventos

Entro em ti feito brisa-lilás

Pintando a sombra do seu pensamento

 

E eu, que nem bem sei rimar

Já pressinto versos sorrateiros

Despencando como gotas de chuva

Das noites que prevejo no fundo do seu olhar

 

E eu, que sou prosa, que sou livre, escorrego na certeza prematura dos poetas, adivinhando a métrica exata do nosso amor. E deixo-me ser conduzida pelas suas mãos quentes que ainda nem toquei mas já me surpreendem. E então vejo-me sem fome, deixando os pastéis esfriarem na mesa do bar porque você me transforma em nuvem, em perfume de angélica, em chá de framboesa adoçado com mel. Em palavras-gostosas-de-ouvir: açucena, poção, lima. Candelabro. E suspiro antes de voltar a te inventar, flutuando na graça do soneto que encenaremos ao vivo na web. Então pressinto uma saudade doída do seu abraço que contorna a minha escrita: já não sou mais pura-prosa, doo-me a qualquer verso que tenha algum traço do seu olhar, algum ensejo do seu beijo. E ao teu lado, amanheço assim, poema-em-prosa de amor (publicados em livro para não apagar mais). E anoiteço no meio do chá da tarde, só pra te trazer pra mim, meu possível amor.

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19.03.09 em: Quinta

postAmor da minha vida,

Aline Leal

Não imaginas a falta de ti como dói em mim. De tuas gracinhas, de teu gênio a me recompensar no final do dia. De teu jeito matreiro, sabido, surpreso!, minha pequena gatinha. Passo uma saudade que não se explica, que não tem nome em qualquer língua. Que me dói a barriga, que é mais que dor de dente; uns maus bocados, pequena. Sete anos e o amor só cresce dentro da gente, cria raiz, faz cimento, consolida, faz filho.
            Minha querida, na faculdade, nem imaginas, caçoam de mim e caçoam de mim: parece menino, parece perdido, parece morto, professor! E eu aí?  E o que sou? Um homem distante do seu amor.
            À noite, pequena, uma brisa fria do Sena sobe e vira castigo, atormenta sonhos, sufoca narinas, incha dedos, seca olhos e arrepia: és minha, és minha, és minha! Quero saber se a vida lhe é bem-vinda, se almoças direito, se jantas direito, se direito dormes e se sais com as amigas. Ainda brincas?
            Um ano, gatinha. Já mandei avisar, na reitoria, que, em dezembro, acabam aqui os meus dias. Vôo para a sua companhia. De que adianta uma vida em que a falta explode? O coração de papai está que não pode.

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18.03.09 em: Quarta

postSaudades e nada mais

Tiana Maciel Ellwanger

Pela primeira vez na vida, sentia saudade. Não saudade das pessoas. Estas, ou algumas, lhe fizeram muita falta quando, por um motivo qualquer, não eram mais encontráveis ao surgir nas boas lembranças. Sentia falta, como nunca, era dos tempos idos, de vários deles, da falta de dor e de paciência. Queria de volta o andar firme, a autoconfiança, a transgressão. 

Seu corpo o aprisionava, sentia-se num casulo, num escafandro, sob uma casca enrugada. Se soubesse que o corpo era tão importante, talvez tivesse exagerado menos. Não. Provavelmente não. Gostava de transpor limites, todos que fossem. Não poderia ter sido diferente.

Nunca gostou de nostalgia, mas definia-se, agora, como um nostálgico pessimista. Por ideologia, costumava brincar, não ia a encontros que tinham como único objetivo relembrar, escolher momentos bons e engraçados, não necessariamente os mais importantes, de tempos que não voltam. Ainda bem que não voltavam.

O presente costumava ser sempre melhor. Detestava os saudosistas, os que se recusavam a seguir, a experimentar e a fazer do momento presente o mais interessante, o mais saboroso, o mais próximo à música, à poesia, ao non sense. Mas agora era como um espelho das pessoas que detestava. Detestava-se.

Ah, a memória… Essa sim deveria ter preservado mais. Queria lembrar dos momentos exatamente como eles foram, não de flashes e de situações que se misturavam nos anos, nas mesas, nas luzes e cores, nos cigarros, nos vinhos e rostos. Nas conversas tão longas, tão cheias, tão vazias. Talvez devesse ter escrito mais. Documentado mais. Talvez não.

Era egoísta. Faria de tudo para manter a vida, esticá-la como era a sua pele há 50 anos. Venderia, pela imortalidade, a alma ao diabo, que não existia. Por isso amava Dorian, o Gray. Nem ler conseguia como antes. A tonteira era vertiginosa. Se pudesse, espalharia os labirintos pelos anos, por que todos agora?

Ver os netos adultos, os bisnetos aos gritos, e saber exatamente o que importava lhe dava certo ânimo, é verdade. Mas não aquele que faz valer à pena. Que faz esquecer, mesmo que por alguns minutos ou horas, dos momentos de euforia, de entusiasmo, de intensidade, de pavor. Dos seus momentos, não dos momentos dos seus. As referências eram amplas como nunca e, por isso, fazia conexões quase o tempo todo. Os minutos antes eram tão melhores dos que os de agora. As horas costumavam ser incríveis. Passar pelo tempo costumava ser bom. Não é mais.
 
Não gostava de esperar, mas hoje parecia apenas esperar o que ficaria cada vez pior. Sabia que a morte chegaria. Nunca teve problemas com o fim. Só quando precisava consolar os amigos e os irmãos. Mas aceitar a morte, acatá-la, acolhê-la, consenti-la, juntar-se a ela, não. Isso não. A idéia de acabar era insuportável. Ver seus amigos acabando era insuportável. 

Os toques em sua pele e cabelo eram cada vez menos freqüentes e ligeiros. O paladar não era mais agradável. As texturas, menos doces. As cores, essas, ofuscavam mais do que gostaria. As linhas estavam de manhã menos definidas do que eram à noite, em seus sonhos. O mundo estava mais distante. As conversas já não faziam tanto sentido. A irritação com os autocentrados, solitários e rasos só crescia. Eles pareciam estar em toda a parte agora.
 
Sua vida seguia devagar demais, sem controle, com dor e tédio. Sentia saudades e nada mais.

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17.03.09 em: Terça

postSem saudades do futuro

Luciene Braga

Do alto de uma bilionária estação orbital há exatos 17 dias, era só um astronauta, sem nome, sem passado. Todas as referências de seus 38 anos se dissiparam desde que rompeu as barreiras físicas e se lançou à missão. Estranhamente, descobriu-se desligado de tudo, de todos. Mulher, filho, pai, mãe, amigos, vizinhos, treinadores e qualquer daqueles que, de uma maneira ou de outra, restaram longe, apagados, minúsculos, sem qualquer importância.
Descobriu-se sem saudade.

Nem do futuro, pensava, nem dos motivos que enredaram toda a sua competente vida de oficial encarregado de cumprir e dar ordens em nome daquele projeto de fundamental importância para a pós-humanidade.
Não comeu nos últimos sete dias.

Numa cidade que só não era fantasma porque ele e seu colega transitavam, em silêncio rotineiro, para aprofundar os estudos que salvariam a humanidade, aguardava com tranquilidade militar a primeira entrevista coletiva ao vivo com a imprensa de todo o planeta.
Vestiu o traje espacial criado para impressionar, sentou-se ao lado do colega, que exibia um ingênuo olhar cúmplice, e esperou a primeira pergunta, depois que os jornalistas conseguiram se organizar entre crachás, câmeras, vaidades e microfones para conhecer e transmitir os detalhes iniciais da mais importante missão de estudo dos últimos tempos.

“Boa tarde, oficial. Aí é manhã, tarde ou noite no momento?”, perguntou um repórter renomado, tentando uma aproximação amistosa e sorrindo, poderoso. “O senhor poderia relatar como foram as primeiras experiências do estudo que vai orientar a ocupação de novos espaços do universo?”, e falou isso com um tom profético, mas cético, profissional que era.
Suspirou e encarou a câmera, fitando o amplo auditório reservado à imprensa especializada. Demorou um pouco a responder e ponderou, paciente: “Como você, meu caro, selecionado entre muitos para a missão de fazer essa entrevista, eu me senti honrado por ser designado para essa missão e me preparei de forma séria e obstinada. A propósito, aqui não tem manhã ou tarde. Só noite”, e baixou os olhos, visualizando o grande painel criado por outros especialistas predestinados a escrever história.

“A primeira experiência é que, ao chegar aqui, fiz uma grande descoberta”, disse isso ao mesmo tempo em que se levantava, e as câmeras inteligentes do compartimento da estação o seguiram. Começou a despir-se do traje espacial e ficou inteiramente nu, ao vivo, do universo para a terra. Sorriu, seguro como ator experiente.
“Não foi um prazer”, terminou, sorrindo, e deu início aos procedimentos técnicos que destruíram, em segundos, a estrutura do complexo orgulho mundial.
Não viu motivos para sentir saudade, nem mesmo do futuro.

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16.03.09 em: Segunda